Lucifer – 4° Temporada

Endireitando cordas e salvando universo

Na última quarta-feira (8 de maio), a aguardada quarta temporada de Lucifer fora lançada no serviço de streaming da Netflix; responsável não só por ter conceituado e produzido a nova temporada como, bem, ter salvo o universo inteiro dessa série. De antemão, meus agradecimentos Netflix.

Contextualizando, além de salvar um universo inteiro, a quarta temporada de Lucifer (com apenas dez episódios, mas de 50min em geral) bem aborda enfaticamente nas consequências dos eventos ocorrentes na temporada anterior; o desafio de superar a morte de alguém importante e a complexidade de relação entre contextos (seja entre personagem, seja entre eles mesmos). E bem, segue nossa resenha SEM SPOILERS para essa aguardada temporada.

Antes de tudo, é necessário ressaltar que nesta nova temporada Lucifer continua a manter sua atmosfera televisiva base: doses de humor, drama criminal e leve terror. Bem, aqui isso não é problema nenhum, real. Mas em fato, o interessante é que essa atmosfera visivelmente fora re-adequada, tanto que esse elemento possui uma execução bem melhor agora se comparado com as temporadas anteriores. Digo, não só as circunstâncias/eventos da temporada são bem mais sólidos e palpáveis, como os diálogos são singularmente mais fluídos e trazem algo que até então a série não enfocava muito bem: questionamento e reflexão.

Originalmente, nos quadrinhos, o universo de Lucifer sempre foi marcado pela a atmosfera altamente mítica e filosófica, onde a prosa florida era facilmente percebida. No entanto, momentos desse tipo foram basicamente raros na execução da série… até agora. E porra, como é um prazer ver, a esse ponto, uma temporada de Lucifer em que, apesar de não possuir algo no nível do material base, possui sim bons momentos adequados de diálogos fluídos e que buscam a certo ponto instigar o telespectador acerca de uma reflexão sobre o tópico (seja sobre dúvidas internas, sobre dúvidas externas, sobre fé, sobre autoconhecimento, sobre se sentir perdido, sobre ser o que é, sobre ser o que não é, e afins).

Esse maior cuidado com a administração de um “televisivo sentido mítico e filosófico” no universo da série reflete também em premissas da temporada, sendo possível agora vermos circunstâncias que envolvem fanatismo religioso, profecia antiga, questões angelicais, demoníacas e, sobretudo, mortais.

Claro que, até esse ponto a série não entrega nada tão gigantesco em termos visuais e, até mesmo, roteirísticos (o que pode ser ligeiramente frustrante em certos momentos). Mas ainda sim é interressante percebê-los nas entranhas desta série, principalmente nessa temporada; exemplo disso é termos um episódio que ludicamente retrata o “””exagero””” policial para com negros, por exemplo. Sim, é um episódio específico e, até mesmo, um momento singular da série, mas são momentos como esse que engrandecem o universo da série… sem contar que, pra uma série que mal tinha momentos desse tipo, é um avanço e tanto.

Eventualmente a quarta temporada de Lucifer traz outro ponto positivo: Lucifer Morningstar não mais monopoliza as premissas da série – e nem precisa mais o fazer. Digo, você consegue não só observar mas também se envolver nas premissas dos personagens de apoio ao protagonismo do Anjo Caído e da detetive… seja no anseio por relação de Mazikeen, seja na busca por autodescoberta de Eva, seja pelo desbravamento de um futuro incerto por parte de Linda e Amenadiel. Não o bastante, tais personagens de apoio conseguem muito bem materializar a nova adição dosada de “miticismo e filosofia” na mesma medida que buscam engrandecer seus protagonistas.

Enquanto isso, mais do que nunca presenciamos um Lucifer Morningstar lidando de frente com sua assídua crise de identidade, a medida que tenta se auto-encontrar. E se tem algo pontual aqui é o quão perdido o telespectador pode ficar ao embarcar nessa jornada de auto-descobrimento do personagem. Veja bem, as premissas do protagonista são abarcadas por circunstâncias que por vezes se contradizem e põe qualquer processo de descoberta em dúvida pura. E acho isso particularmente legal, tendo em vista que o telespectador sente-se tão perdido quanto o protagonista da série a que assiste. Ainda que “conclusão de alto-descoberta” da temporada em questão seja tristemente irônica.

Como telespectador da série, você acaba percendo nessa temporada um momento bem orquestrado de “transição”. Sim, “transição” não apenas de emissora (FOX para a Netflix) como das abordagens a serem ignoradas e/ou executadas num futuro possível. Evidentemente esse processo de transição consegue muitíssimo bem endireitar as cordas bases da série, bem como adiciona algumas outras que muito agregam na fórmula total desse universo (e ao qual mencionei ao longo desse texto).

Mais do que só endireitar as cordas, a produção da Netflix salvou todo um universo ao propor suavemente uma nova abordagem. Definitivamente estou curioso quanto ao futuro da série (se existir um) e como bem canta David Bowie… “Ch-ch-ch-ch-changes, Turn and face the strange”.

Todas as temporadas de Lucifer encontram-se disponíveis na Netflix.


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