Lucifer – 3° Temporada

Fraca, inconstante e de cancelamento justo

A série televisiva inspirada no personagem criado por Neil Gaiman, Sam Keith, Mike Carey e Mike Drigenberg, Lucifer, enfim teve seu terceiro ano concluído neste mês de maio. Infelizmente para os fãs da série, a concluinte temporada veio com a confirmação de seu cancelamento por parte da FOX. E assim, sinceramente, foi uma decisão errada? Veremos neste costumeiro post onde trabalharemos a resenha completa E POSSIVELMENTE COM SPOILERS sobre o que foi proposto neste terceiro ano da série, bem como suas formas de trabalho e apresentação.

Em uma contextualização geral, a terceira temporada de Lucifer inicia-se com Lucifer Morningstar acordando no deserto e contando com o retorno misterioso de suas asas e o sumiço de sua “cara demoníaca” – quase poético, eu sei. Contudo, Lucifer Morningstar acaba se vendo envolvido numa rede de tramas muito além dele, enquanto seu irmão Amenadiel tenta se redimir com o pai, sua consorte Mazikeen tenta descobrir seu lugar neste mundo humano e Chloe… bem, Chloe tenta tomar de conta do Lucifer. E é analisando entre esses e outros aspectos que poderemos responder a pergunta do parágrafo anterior.

Lucifer - 3° Temporada | Fraca, inconstante e de cancelamento justo

Nunca neguei o meu agrado pela escalação e também atuação de Tom Ellis como o Anjo Caído. Particularmente vejo a escolha do ator como um feito certeiro, visto que Ellis conseguira muito bem transmitir carisma e ainda posicionamentos emocionais (raiva, fúria, frustração e ademais emoções) condizentes durante suas cenas como o personagem, além do fato de que ele basicamente carregou toda a segunda temporada. Contudo, eu vejo muitos problemas mesmo com a abordagem interpretativa que os roteiristas da série propuseram a Lucifer Morningstar; digo, desde o começo o que presenciamos é um Lucifer Morningstar impulsivo, emotivo e manipulável, totalmente contraditório a sua versão dos quadrinhos. E ainda pior, nessa temporada os roteiristas TIVERAM A AUDÁCIA de quebrar elementos primordiais do personagem: isto é, este Lucifer Morningstar mente e quebra sua palavra! E acredite, isso é uma frustração infinita para qualquer fã e até mesmo bom leitor do personagem e sua mitologia.

Em fato, nesta terceira temporada Lucifer Morningstar tem poucos episódios em que ele realmente seja bem representado, muito menos pela visão interpretativa dos roteiristas da série. Sua motivação para vim e principalmente ficar na Terra é fraca, tal qual o é a abordagem de “ida e vinda” ao Inferno que por vezes vemos nessa temporada. No mais, são basicamente contáveis nos dedos os momentos marcantes do personagem na temporada (e em quase todos eles tem asas envolvidas, por sinal).

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Outra vítima interpretativa dos roteiristas da série, não só nessa temporada como em toda a série, é ninguém menos do que essa puta personagem incrível chamada Mazikeen. Mazikeen, nas HQs uma consorte feminina de suma importância e admiração para Lucifer Morningstar (porra, ela é a única pessoa em que Lucifer reciprocamente confia plenamente e dá real importância!), foi limitada a um “demônio com ponta participativa que talvez tenha um passado de amizade com Lucifer”. Somente em dois momentos de toda a série eu vi alguma abordagem realmente significativa para Mazikeen: I. uma no episódio “Sympathy for the Goddess” na segunda temporada, em que pela primeira vez vimos um ligeiro aprofundamento na relação da personagem para com Lucifer; e II. no terceiro episódio desta temporada, intitulado “Mr. & Mrs. Mazikeen Smith”, em que por fim tivemos um momento de aprofundamento próprio da personagem.

Em fato, nesta temporada a atriz Lesley-Ann Brandt acabou ficando afastada devido seu período de gravidez, mas sinceramente, ao considerarmos o histórico de sub-aproveitação da personagem Mazikeen na série, a atriz acabaria sendo jogada para escanteio de qualquer forma. Porran, os roteiristas TIVERAM A AUDÁCIA DE FAZER A MAZIKEEN TRAIR O LUCIFER – e ainda por uma razão fula resultada de um desenvolvimento de relacionamento basicamente inexistente. Mas a verdade mesmo é que Mazikeen MERECIA MAIS, Lesley-Ann Brandt MERECIA MAIS!

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Vamos falar agora sobre as outras personagens mulheres dessa série e alguns problemas nítidos aqui. Começando, é claro, pela Chloe Decker (Lauren German). Chloe Decker foi, até onde sei, uma personagem criada exclusivamente para a série e ela basicamente se tornou o MacGuffin de Lucifer, além, é claro, de manter-se ao centro como “proposta amorosa” principal da série – em especial pela inicial química entre Tom Ellis e Lauren German. Deram-lhe um pretexto – ela basicamente faz seres místicos tornarem-se mortais – e razão para estar na série – ela ainda é um milagre de Deus feito para entrar no caminho do Lucifer. Mas curiosamente,  “curiosamente”, NUNCA DESENVOLVERAM MAIS DO QUE ISSO EM RELAÇÃO AO LADO MÍSTICO DA PERSONAGEM! E o mais irônico desse MacGuffin é que ele contraditoriamente RETARDOU TODO O DESENVOLVIMENTO DA SÉRIE E DE SEUS DEMAIS PERSONAGENS (para esclarecer, culpa do roteiro e abordagem interpretativa, não da atriz). Porra, em resumo é impossível para o público dizer qual o sentido de Chloe Decker nessa série, além de ser uma proposta amorosa que perde a consistência durante as temporadas (e não vem dizer que é tornar a figura de Lucifer em um ser poeticamente mais “compreensivo em relação a humanidade”. Por favor, se tem alguém que conhece a porra da natureza humana de verdade, esse alguém é a porra do Anjo Caído, o personagem abstracionista que é o diabo em pessoa, filho de Deus e existe a mais tempo do que o universo. E ainda sim o personagem não deve saber nada sobre humanidade? Sério mesmo?)!

Aí vem outro ponto: o diabo discute a sua vida e seus problemas com a porra de uma psicóloga humana! E porra, não é nem uma discussão que traga algum elemento de introspecção ao público, muito menos aos personagens envolvidos (são vezes exclusivas demais em que isso acontece, na verdade)! Nada contra a Linda Martin (Rachael Harris), acho que é uma personagem que acrescenta certa dinâmica considerando a suas limitações de roteiros, mas a personagem e atriz também mereciam muito mais do que fora proposto! Em relação a personagem Ella Lopez (Aimee Garcia), eu me pergunto o por quê caralhos adicioná-la como sendo a ELAINE BELLOC E NÃO DESENVOLVER ISSO PORRA?! Elaine Beloc possui tanta importância no título do Lucifer que por si só desempenharia uma temporada incrível e em amplos sentidos – seria um McGuffin com bem mais potencial do que Chloe Decker pareceu ser… mas novamente, a personagem fora injusta e erroneamente reduzida a “ponta participativa deste universo”.

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A introdução de Caim (Tom Welling) foi feita de uma maneira bastante interessante, trazendo a priori uma certa “dinamitização mística controlada” a série – coisa que não aconteceu na primeira temporada e tampouco na segunda temporada com a introdução da Mãe Divina. Sinceramente, a ameaça que Caim apresentou inicialmente a Lucifer foi realmente fantástica e trabalhada de maneira coesa, atrativa e que particularmente gosto. Porran, os episódios “The Sinnerman” e “The Sin Bin” foram, de forma geral, realmente muito bons!

Contudo, Caim acabou sendo um personagem cujo desenvolvimento saiu do caminho, ficou perdido e, como bem ocorreu com os demais personagens da série, fora retardado pelo McDuffin de Lucifer – triangulo amoroso é foda. O personagem aleatoriamente se apaixonou por Chloe Decker em dois episódios e, ainda mais, já queria casar com ela! O final dado ao personagem acaba sendo medianamente satisfatório, considerando as revira-voltas que seu desenvolvimento ofereceu durante a temporada.

Lucifer - 3° Temporada | Fraca, inconstante e de cancelamento justo

O roteiro proposto para a terceira temporada de Lucifer é, claramente, fraco e inconstante. Digo, não adianta ter uma temporada com vinte e quatro episódios e SOMENTE seis episódios serem bons e com desenvolvimento significativo para a trama geral da série (sim, eles existiram). O que percebo é que a série, principalmente os roteiristas, tivera uma má administração de conteúdo e um planejamento defeituoso, o que por sua repercutiu claramente em escolhas interpretativas errôneas e frustrantes, episódios fracos e audiência volátil – porra, parece que cabeças pensantes da série andaram se misturando com o pessoal da CW. Em fato, nessa temporada Lucifer acabou por se resumir a uma comédia romântica que não sabe se é série televisiva adolescente se é novela mexicana!

Ainda, Lucifer acaba não traduzindo os elementos básicos das HQs, tampouco uma proposta original e por isso ficou perdida em meio ao fio de uma rua em que faltara planejamento fixo e condizente (e não me refiro a nada de a série ter dez temporadas não, afinal, Lucifer é o tipo de série que deveria ter arcos fechados, com no máximo 6~7 temporadas e acabou… nada de exageros como certas séries por aí). E novamente o pergunto: o cancelamento por parte da FOX foi uma decisão errada?

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Não, não foi não. Realmente fico bastante feliz em saber que o meu personagem favorito, cujo título em quadrinhos sequer é tão popular assim, tivera uma série de TV. Mas me dói e frustra saber que esta mesma série abordou tão erroneamente um material cujo potencial de desenvolvimento é, no mínimo, formidável. E é por isso que me consola saber que a FOX cancelou a série, e que sua razão fora certa – falo mais como fã do que como empresario ou coisa do tipo, visto que desta maneira a série não poderá errar mais com um universo histórico que certamente merecia muito mais do que fora apresentado. Me resta a agradecer ao elenco por ter proporcionado atuações incríveis e feito parecer que fora uma experiência sem igual! E se algum canal salvar a série, eu sou totalmente a favor de fazer um reboot na série e começar algo do zero, algo novo.

 


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