Batman vs Superman: A Origem da Justiça (2016)

Desafiando o formato atual dos filmes de super-heróis

A espera acabou. Finalmente o tão esperado Batman vs Superman: A Origem da Justiça está em cartaz em todos os cinemas brasileiros. Nós assistimos em primeira mão, no dia 22/03, a convite da Warner e agora você já pode ler a nossa resenha SEM SPOILERS sobre o longa que uniu, pela primeira vez, a trindade da DC Comics nos cinemas:

Batman vs Superman: A Origem da Justiça é uma película maravilhosa dirigida por Zack Snyder e roteirizada por Chris Terrio e David S. Goyer. A história dança na tela enquanto os atores interpretam seus personagens com uma naturalidade incrível – até mesmo os estreantes. Nunca duvidei da capacidade de Ben Affleck em entregar um Batman digno, mas o que mais me agradou foi sua entrega ao homem por trás da máscara. Algo que sempre me incomodou nas adaptações – tanto em live-action quanto em animação – do Batman, é que as pessoas, até mesmo os leitores de quadrinhos e inclusive os escritores, não se preocupam ou dedicam seu tempo à figura de Bruce Wayne.

Quem é o Batman, senão um homem comum vestindo uma máscara? Há muito mais complexidade e profundidade em Bruce Wayne do que em Batman e, muitas vezes, eles funcionam como figuras completamente distintas. Tanto é que outras pessoas já assumiram o manto de Batman (Dick Grayson tendo sido um melhor Batman que o próprio Bruce), mas ninguém jamais conseguiu ocupar o lugar de Bruce Wayne. E o Bruce de Affleck não é o cara apresentado para a grande audiência durante os incontáveis filmes do Homem-Morcego já lançados.

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Este Bruce está há 20 anos carregando o peso de Gotham em suas costas. Seus traumas não se resumem apenas em ter testemunhado o violento assassinato de seus pais quando criança e chiroptophobia. O homem que vemos na tela do cinema em Batman vs Superman: A Origem da Justiça é um homem que já viu, fez e sentiu demais. Estamos falando de um homem que já enfrentou inimigos como o Coringa e a Harley Quinn. Um órfão que adotou uma criança como filho, o treinou para lutar ao seu lado e não conseguiu salvar sua vida. Alguém que possui um relacionamento extremamente traumático com a morte e com o sentimento de impotência, e é exposto a estes mesmos dois sentimentos quando vê Superman e Zod batalharem nos céus de Metrópolis.

Batman V. Superman: Dawn Of Justice

Bruce Wayne, de fato, tem muito mais tempo de tela do que Batman neste filme e talvez esse ponto seja um pouco desagradável para os fãs que estão mais ansiosos pelas grandes cenas de ação prometidas pelos trailers e pelo próprio título da obra. E talvez desta vez as pessoas possam (muitas delas pela primeira vez na vida) enxergar a importância que Bruce tem na construção de um Batman digno. Enquanto eu saía da sessão, escutei um rapaz dizer que ainda não estava convencido pelo Batman do Ben Affleck, pois “O Batman é um cara que está sempre preparado, e este Batman hesita, muda de ideia em vez de estar sempre certo, comete erros […]” – e foi aí que percebi que Batman vs Superman: A Origem da Justiça poderia não agradar a todos os públicos.

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Vivemos em uma época tão destrutiva no que diz respeito ao modo de pensar e argumentar, que a maioria das pessoas está enxergando cada vez mais o mundo de uma forma preta e branca. Como eu disse anteriormente, quem é o Batman, senão um homem comum vestindo uma máscara? E homens, sendo os seres humanos que são, têm a capacidade de sentir mais do que apenas duas emoções. O Batman é mais do que amor e ódio; verdade e mentira; dia e noite. O motivo pelo qual ele sempre foi o grande favorito da DC Comics, foi ser o personagem mais “humano” no meio de aliens, amazonas, reis submarinos, velocistas e etc. Fãs sempre declararam que a humanidade é o que faz de Batman tão único, porque ele está na Liga da Justiça e, ainda assim, é um humano, mas escolhem arrancar do personagem toda a sua real humanidade. Esse Cavaleiro das Trevas que não possui sentimentos, não dorme, não erra, não hesita e nunca é vencido não tem nenhuma característica humana. Nem mesmo o Superman possui tudo isso.

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Aliás, esta é minha deixa perfeita para discorrer um pouco sobre o Superman. Embora os envolvidos no filme tenham insistido em deixar claro que não se trata de uma sequência de “Homem de Aço” (2013), esta ideia não ficou realmente esclarecida para todos. E o filme realmente não trabalha como uma sequência. De fato, Batman v Superman: A Origem da Justiça trabalha com as consequências do ataque dos kryptonianos a Metrópolis, a nível público e pessoal para três pessoas em particular: Bruce Wayne, Lex Luthor e Superman.

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Assim como em seu filme solo, o Superman não se apresenta como o Escoteiro Azul vivido por Christopher Reeve nos anos 70. Ele ainda possui a mesma atmosfera do filme de 2013, mas não está mais tão desconectado e sem rumo, tendo encontrado seu lugar entre os humanos ao lado de Lois Lane, a mulher que não apenas o ama, mas renova sua fé na humanidade sempre que necessário, e em seu trabalho como jornalista no Planeta Diário. Ele ainda exerce sua função de super-herói sempre que a humanidade precisa que uma força maior intervenha, e se vê dividido quando essa mesma humanidade a quem protege, exige que ele preste contas sobre os danos da vinda de Zod à Terra.

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O arco de Superman é menos trabalhado do que o de Batman, o que é compreensível já que ele teve um filme inteiro para ser apresentado e o Cavaleiro das Trevas precisa, ainda, fazer com que a audiência conheça sua personalidade. Sua relação com as figuras femininas de sua vida é bastante valorizada e foi algo que me agradou demais. É mais comum ver esses grandes heróis se conectando ou tendo algum tipo de ligação especial com seus pais (ou homens que sirvam como figuras paternas) do que com as mães, e assistir o homem tido como o mais poderoso da Terra correr para a humilde casa de sua mãe no Kansas quando precisa de conforto é um dos momentos que explicam, sem precisar realmente falar, porque Kal-El insiste em chamar nosso planeta de “seu”. Lois Lane ganha o destaque merecido como a grande jornalista que é, se mantendo fiel à coragem que mostrou em “Homem de Aço”. Eu realmente fiquei muito feliz com a atenção dada a Lois.

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Embora o título sugira que Batman e Superman sejam opostos nesta história, é o Lex Luthor de Jesse Eisenberg que, surpreendentemente, fornece o paralelo mais significativo para o Batman. Lex quer controlar a forma com que o resto do mundo vê esses heróis e, à medida que o filme avança, o que se mostra à primeira vista uma análise calculada sobre a moralidade da justiça se transforma em uma fixação sociopata. Eisenberg, assim como todo o elenco, estava realmente à vontade no papel e sua versão cômica e psicologicamente abalada de Luthor é uma das melhores partes do filme. Suas falas são bastante metafóricas, seu tom de voz é irritante, sua presença é desconfortável e uma atmosfera sinistra envolve todos os personagens que dividem a tela com ele. O filme traz referências ao passado do perturbado gênio vindas diretamente da origem escrita nos quadrinhos por John Byrne: Alexander Luthor, nascido em Metrópolis, teve uma infância difícil graças ao pai abusivo que não o poupava de sua violência. Ainda assim, o jovem conseguiu construir um império, posando como cidadão exemplar enquanto sempre se envolveu com o crime organizado e o mercado negro por baixo dos panos.

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Lex Luthor não apenas consegue manipular governantes, criminosos e a opinião pública. Seus planos são tão bem elaborados que o próprio Batman acaba acreditando. O vilão usa golpes baixos, joga sujo e não tem medo de passar dos limites, sempre guardando o tempo necessário para massagear o próprio ego entre uma fatalidade e outra. Mais do que um simples gênio do mal, Lex Luthor é um verdadeiro terrorista sem escrúpulos e não vai parar até que tenha derrubado o Homem de Aço dos céus – mesmo que isso signifique provocar o Apocalipse.

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Em meio a toda essa bagunça política e narcisista causada por homens, está Diana Prince, uma mulher absurdamente bonita e elegante, que tenta não levantar suspeitas até perceber que há algo realmente grave acontecendo. Como revelado anteriormente, Diana tem 5 mil anos de idade e, se Batman já viu muito em seus 20 anos de luta contra o mal, imagine a amazona. Ela não está interessada nos problemas da Terra com o Superman – de fato, ela está em Metrópolis por um motivo bastante particular – mas sente um chamado dentro de si com a aparição do Apocalipse.

Batman V. Superman: Dawn Of Justice

É claro que a Mulher Maravilha de Gal Gadot é a melhor parte do filme. É claro que suas cenas de luta são impressionantes, suas falas são as melhores, seus gritos de amazona ainda estão nos meus ouvidos e sua presença faz total e completa diferença. Se alguém tinha alguma dúvida, que bom que será surpreendido(a). A icônica guerreira amazona não está ali para brincadeiras e suas cenas são um gostinho do que teremos em 2017, em seu filme solo. A proposta de Batman vs Superman: A Origem da Justiça nunca foi contar a origem da Mulher Maravilha e assim é. Ela está lá quando precisam dela e faz nossos corações de fã bater mais forte. Quanto ao gostinho de “quero mais” que ficou, prepare-se para 2017, porque ela está chegando para contar sua história.

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Batman vs Superman: A Origem da Justiça é um filme incrível. Há diversos elementos dos quadrinhos incorporados neste roteiro que constroem um filme só, há Batmans de tantos arcos diferentes no Batman de Ben Affleck que eu não conseguiria citar todos. Há momentos em que você verá o “Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller, mas também há momentos em que você verá o desespero do homem-morcego de “Morte em Família” de Jim Starlin. Este longa-metragem se atreve a desafiar o formato atual dos universos cinematográficos baseados em quadrinhos quando diz “Foda-se os filmes solo, aqui estão meus três maiores ícones!” e eu não poderia ficar mais satisfeita.

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Para finalizar, eu gostaria de adicionar um pensamento que está me corroendo so ler tantas críticas sobre BvS. Eu pensei muito antes de decidir falar sobre isso ou não, porque não estou aqui para apontar para ninguém e dizer como deveriam fazer o seu trabalho. Entretanto, eu sinto que cumpri meu papel ao escrever uma resenha/crítica objetivamente, com base na experiência e nos sentimentos que tive, e no quão bem ou não certos elementos foram executados. E quando fui procurar resenhas/críticas para saber o que estava sendo dito sobre o filme, a maioria dos textos que encontrei se tratavam de comparativos entre BvS e os filmes da Marvel.

O problema não é o fato de mencionarem a Marvel. O problema é que todo e qualquer aspecto de BvS está sendo criticado com base no quão fora do “padrão Marvel de fazer filmes” ele foi feito. E mesmo sendo uma grande fã da Marvel e de seu Universo Cinematográfico de sucesso, esse tipo de coisa sinceramente não me desce.

Não deve existir uma forma única e absoluta de se fazer algo – sejam filmes de super-heróis ou qualquer outro tipo de mídia. Eu sou completamente contra esse grande movimento que insiste em tentar criar uma “fórmula de sucesso” para a arte. Não é profissional, no mínimo, destacar de forma individual o modo que uma determinada empresa costuma dirigir e executar seus filmes, colocá-la em um pedestal e usá-la como modelo. Batman vs Superman: A Origem da Justiça é diferente, mas isso não quer dizer que seja ruim.

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Vá ao cinema. Assista o filme. Crie sua própria opinião e faça com que ela seja ouvida. A crítica especializada já cometeu erros desastrosos mais vezes do que posso me lembrar, e a opinião mais importante ainda é a sua.

Por Louise


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