DC Comics

Guia rápido para entender o Multiverso DC

Eu ouço, há uns 20 anos, leitores casuais e alguns leigos dizendo que “A DC é confusa” ou “Eu não entendo a DC” ou então “São tantos UDC que eu não sei por onde começar a ler”. Nenhuma dessas afirmações é mentira. É fato que uma editora da idade e magnitude da DC Comics e com o volume de personagens e histórias já contadas desde seus primórdios, tem sérios problemas de continuidade.

Felizmente não estou escrevendo este artigo para apontar essas falhas e ficar chorando sobre decisões editoriais que já foram tomadas. O objetivo aqui é apresentar de maneira prática a história do Multiverso com seus méritos e suas falhas aos novos leitores e, de repente, fazê-los entender que o conceito das “Infinitas Terras” não é nenhum bicho de 52 cabeças (Não resisti a piada, desculpe).

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O mapa do Multiverso atual, concebido por Grant Morrison.

Tá. O que diabos é o Multiverso?

O Multiverso, segundo a própria DC Comics, é o mecanismo narrativo utilizado para tentar conectar as histórias e a continuidade de suas inúmeras publicações, que datam desde 1934. O próprio Multiverso já foi diferente do que é hoje em dia.

Atualmente o que se convenciona é que existem 52 Universos DC, todos ocupando o mesmo espaço, mas vibrando em frequências distintas. Todas essas “Terras”, como são chamadas, compartilham similaridades: em sua maioria possuem vida ciente e inteligente e sua maioria tem super-seres.

Segundo o recente mapa do Multiverso, concebido pelo autor Grant Morrison, ainda existem regiões “fora” do Multiverso na área chamada “Esfera dos Deuses”. Nesta região estão universos únicos e sem contrapartes, como o Reino dos Sonhos, Pesadelo, Apokolips, Nova Gênese etc.

Bom, então onde a continuidade atual da editora se encaixa?

“Os Novos 52”, como é chamado o Universo onde a maioria dos títulos DC são publicados desde 2011, é situado na Terra-0 (zero) do Mapa do Multiverso. Alguns títulos mensais da DC, como Terra-2 e o recente Infinity Man and the Forever People, se passam totalmente ou em parte em outras Terras, mas o “grosso” da DC atualmente está na Terra-0.

Entretanto, se você está lendo algo de antes do evento “Flashpoint” de 2011 ou da linha de graphic novels Terra-1, saiba que estes títulos estão fora do contexto da Terra-0 e dos Novos 52. Existem muitos títulos da DC que esão fora do contexto do Multiverso e que não se encaixam em nenhuma das 52 Terras da editora, seja pelo selo Elseworlds ou pela própria Vertigo. Mas grande parte das publicações atualmente se encaixa no mapa do Multiverso.

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Flash #123. Um dos primeiros encontros entre personagens de Universos distintos na DC Comics.

De onde, afinal, surgiu o Multiverso?

Esse é um assunto que gera um pouco de polêmica entre os leitores, e longe de mim querer ser o dono da verdade. Aqui eu apresento as duas origens mais citadas da primeira história a tratar o conceito do Multiverso.

A primeira possível história sobre um Universo Paralelo na cronologia da DC, seria Wonder Woman #59 de Maio de 1953. Nesta edição a Mulher-Maravilha é transportada para uma “Terra Espelho” da nossa, onde conhece a personagem Tara Terruna, que é idêntica a ela.

A Mulher-Maravilha descobre que “Tara Terruna” significa “Mulher-Maravilha” na língua nativa daquele lugar, e que ali existem contrapartes para a maioria das pessoas de seu Universo. Não é especificado se esta Terra é um Universo inteiro ou somente outro planeta. O conceito das contrapartes, então, é tratado em edições posteriores da HQ da Amazona.

No entanto a história mais comumente citada como a origem do Multiverso, pelos leitores, é Flash #123 de 1961. Na história clássica da Era de Prata, chamada “Flash of two Worlds”, Barry Allen é transportado para Keystone City e conhece o Flash da Era de ouro da DC, Jay Garrick.

O Flash não chegou a explorar o Multiverso na história escrita por Gardner Fox, no entanto, esta é a primeira vez que a ideia de que os dois personagens (e por consequência, os super-heróis da Era de ouro) ocupam o mesmo espaço, mas vibram em frequências diferentes é citada.

Em 1963 Gardner Fox pega o conceito que criou em Flash e expande, criando o primeiro evento entre duas equipes de Universos distintos na DC Comics. A história chama-se “Crise na Terra Um” e é publicada em Justice League of America #21, concluindo com o título de “Crise na Terra-2” na edição #22.

A história, que é basicamente um crossover entre a Liga da Justiça da Era de Prata e a Sociedade da Justiça da Era de Ouro, estabelece firmemente o conceito de que as duas equipes co-existem em universos diferentes.

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“Crise nas infinitas terras” é um marco na história do Multiverso DC.

Por que tanta Crise?

Por mais interessante que o conceito do Multiverso fosse, em meados da década de 1980 o volume de histórias e de versões diferentes de personagens que não “batiam” e/ou não se encaixavam em nenhum tipo de cronologia, aumentava gradativamente na DC.

A continuidade da editora se tornou uma verdadeira zona e os leitores tinham muita dificuldade em determinar quais histórias “valiam” e quais eram irrelevantes. Além disso, a DC tinha dificuldade em arrendar novos leitores, justamente por causa de sua confusa cronologia naquela época.

O corpo editorial da DC Comics na década de 1980 toma, então, a decisão de tentar unificar todas as Terras e eliminar todas  as inconsistências. Assim surgiu um dos eventos mais famosos da história dos quadrinhos: a Crise Nas Infinitas Terras.

Só “Crise”, como é habitualmente chamada pelos leitores e profissionais dos quadrinhos, é a saga escrita por Marv Wolfman e desenhada magistralmente por George Perez, que reconhece a existência de múltiplos Universos DC e, em seguida, destrói todos eles deixando somente uma Terra.

Essa foi a DC Comics que “valeu” por um bom tempo e o período conhecido como “pós-Crise” é considerado o mais feliz na vida da maioria dos fãs da editora. Para muitos leitores, as origens de Batman (de Frank Miller) e Superman (de John Byrne) pós-Crise são as definitivas até hoje.

Logicamente um conceito tão rico quanto o Multiverso não poderia ficar muito tempo sem ser explorado. Em 2003 a primeira fagulha do que se tornaria a volta do Multiverso surge com a morte de Donna Troy, no crossover entre os  Titãs e Justiça Jovem, chamado “Dia de Formatura”. Daí para frente começa a contagem regressiva para o evento que retorna ao conceito do Multiverso no ano de 2005. O evento se chama “Crise Infinita”.

Em “Crise Infinita”, o autor Geoff Johns resgata o conceito do Multiverso sob a premissa de que personagens que sobreviveram à “Crise nas Infinitas Terras”, como Kal-L e Lois Lane da Terra-2, Superboy Primordial e Alexander Luthor Jr. da Terra-3, vivem em uma rachadura entre os universos. Esses personagens se unem para restaurar a Terra-2, tendo em vista que julgam o Universo DC da Terra-1 (o único existente desde a Crise), corrupto.

O final de “Crise Infinita” abre caminho para a série 52, que foi uma publicação semanal explorando, a cada edição, uma semana na vida de uma das 52 Terras do novo Multiverso DC. 52, que foi escrita por um time de roteiristas composto por Grant Morrison, Geoff Johns, Greg Rucka e Mark Waid, se passa um ano após os eventos de “Crise Infinita” e estabelece um novo Multiverso formado pelas 52 Terras. No entanto, este ainda não é o Multiverso DC atual.

Em 2008 o último capítulo da chamada “Trilogia das Crises”, Crise Final, chega às bancas. “Crise Final” é escrita novamente por Grant Morrison e acrescenta nuances ao conceito dos 52 Universos. Além da morte dos Novos Deuses e do surgimento do último dos Monitores do Multiverso, a saga faz um tributo a histórias clássicas de Jack Kirby. No entanto, este evento pouco acrescenta ao conceito do Multiverso e não é o acontecimento determinante para a situação atual das 52 Terras do Universo DC.

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“Flashpoint” estabelece a Terra Zero como ela é hoje.

Como chegamos ao Multiverso DC atual?

O Multiverso, com suas 52 Terras e a “Esfera dos deuses” como conhecemos hoje, ficou estabelecido após a saga “Flashpoint”, de 2011. Com o final de Flashpoint, todos os títulos da DC Comics foram zerados e muitos personagens tiveram suas origens modificadas. Alguns eventos, no entanto, não foram alterados após o chamado “reboot”.

O período “pós-Flashpoint” é conhecido como “Novos 52”, e é o Universo DC que “vale” atualmente. Flashpoint também marca o início da fusão entre o Universo DC, a Wildstorm (linha de personagens criados pelo desenhista Jim Lee na década de 1990) e alguns personagens da Vertigo, como John Constatine, que ganham versões nos Novos 52.

Flashpoint, apesar de não ser um reboot completo, estabelece o Multiverso DC como ele é hoje. Embora tenha trazido mudanças, principalmente para a Terra-2, com o advento do novo título “Multiversity”, escrito por Grant Morrison, muitas outras Terras podem ter sua história mudada daqui para frente.

É claro que um simples artigo como este não é suficiente para cobrir toda a história editorial do Multiverso DC. E o nosso objetivo tampouco era esse. Este é apenas um pequeno guia para que você possa escolher entre os múltiplos caminhos que pode trilhar na rica história da DC Comics, sem ficar tão perdido.

Nos vemos no Multiverso!


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