Logan (2017) | Já era tempo, Wolverine

3 meses atrás ( 19/02/2017 )

Foram 17 longos anos a frente do mutante mais casca grossa da Marvel. São 204 meses vivendo, sentindo, atuando e eternizando a sua cara como Logan, como Wolverine, como Wolvie, como o mutuna mais amado do universo dos X-Men. Mas tudo isso um dia chega ao fim. E infelizmente, esse dia chegou!

Logan veio para mostrar que depois de tanto tempo, o Wolverine dos cinemas terá um descanso digno na memória de cada fã. O ano é de 2029, Logan já não é mais o mesmo mutante dos tempos de outrora. Sua vida desgarrada, seu jeito durão de ser, a arma em que foi transformado e depois curado, o passado que carrega, as duras feridas que cicatrizaram em pouco tempo mas que marcaram sua pele por toda a vida, recai agora sobre um homem cansado, exausto, totalmente descabido emocionalmente. Ele não é mais o mesmo e tem plena ciência disso, ele não tem mais o mesmo pique, nem mais a mesma voz, os olhos constantemente avermelhados, garrafas e garrafas de destilados são entornadas como água e até suas garras de adamantiun estão atrofiando aos poucos. Mas nada disso é tão pesado quanto o fardo emocional que carrega. Enquanto ele vai aos poucos desacreditando ainda mais da vida e tentando fugir de tudo aquilo que ele um dia foi, Logan cuida de um professor Xavier (Patrick Stewart) nonagenário, que abruptamente tem o descontrole da força do seu poderoso cérebro e coloca todo o cenário de um western distópico à deriva. Xavier, assim como Logan, também não é mais o mesmo. É um homem carregado de culpa, mas que lá no fundo, ainda tem a esperança de encontrar um lugar ao sol para seus semelhantes. Mesmo que sendo quimicamente castrado por Logan e Caliban (Stephen Merchant) constantemente, ele ainda dá seus pulos para manter contato com mutantes remanescentes, como é o caso da pequena Laura Kinney X 23 – (Dafne Keen).

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Logo nas primeiros minutos da fita, o diretor James Mangold apresenta o tom que vai ditar o longa do começo ao fim. Um Wolverine que tem dificuldade de dar cabo de alguns ladrões de rodas de carro na fronteira dos Estados Unidos com o México. Seu andar cambaleante, embalado pelo álcool, a lentidão que toma conta dos golpes e até mesmo da explosão de sua fúria, denota um Wolverine que deixou de ser aquele que conhecemos em outros filmes da franquia X-Men. Agora ele leva a vida como motorista. Xavier fica preso e isolado em um antigo tanque de água desativado em meio ao deserto,  enquanto Logan busca através da sua nova profissão dinheiro para arcar com os remédios necessários para estabilizar Charles Xavier. Uma mulher chamada Gabriela (Elizabeth Rodriguez), cruza seu caminho na tentativa do mutante ajudar a sua “filha” a chegar até a Dakota do Norte, e cruzar a fronteira com o Canadá para encontrar um lugar seguro chamado Eden. De começo, ele não entende qual é a verdadeira intensão da mulher, se nega a ajudar, mas ao perceber que tem dinheiro na jogada ele cede e, logo depois, ao descobrir que a garota é perseguida por uma poderosa corporação; isso porque seu DNA contém o segredo que liga ela a Logan, uma perseguição implacável começa. Logan que tanto fugiu do seu passado, que se isolou dentro do seu mundo de bares, charutos, dor e sofrimento, além de uma corrida aqui e outra ali dentro de uma limousine Chrysler 2024, vai encarar tudo aquilo que tentou se manter longe novamente.

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Não é nem um pouco difícil entender a temática de Logan, eu sei que muitos esperavam um filme ao melhor estilo “super-hero”, mas Mangold elevou o tom colocando o drama humano do velho mutante como pano de fundo. Isso não quer dizer que cabeças não vão rolar, aliás, pela primeira vez e graças a tudo que aconteceu com Deadpool (2016), nós temos cenas de ação à altura do personagem na mais feroz e tão aguardada brutalidade. Garras vão atravessar crânios, vão dilacerar músculos, membros e tripas. Não restam dúvidas de que dessa vez, a liberdade criativa cantou na mão de Mangold e de seus produtores. Não houve receio do estúdio, muito menos com a famigerada classificação indicativa de R-Rated. Nos foi entregue exatamente aquilo que sempre sonhamos para um mutante como o Wolverine há 17 anos. Nesse momento não importa também, se o filme não foi fiel a obra que lhe serviu de inspiração, O Velho Logan – escrito por Mark Millar e ilustrada por Steve McNiven (2008-2009) -, a fita tenta seguir próximo à linha do universo cânone criado pela Fox, mas com uma narrativa poderosa, pé no chão – tratando com respeito e com fidelidade àquilo que o personagem tem para oferecer de melhor.

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Tanto na maquiagem usada em Hugh Jackman e Patrick Stewart, tanto nas cenas de ação conduzidas com maestria e até mesmo, ao introduzir e apresentar ao grande público, a X-23, que apesar de toda sua capacidade como mutante, possui a ingenuidade de uma criança. Ela chuta a bunda de Logan ao mesmo tempo que sente vontade de andar nesses cavalinhos de shopping, aqueles que você coloca uma moeda e por alguns minutos, ele fica cavalgando sem sair do lugar, sabe? A fotografia reverberada em tons quentes, conduz cada perspectiva de cena para ampliar a atmosfera de western e, claro, de demonstrar o grau de como o protagonista segue arrastado numa espécia de morto-vivo.

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O ritmo da narrativa segue conectado ao humor e a vida que Logan sempre levou. Em dado momento é puro caos e noutro instante, a vida segue como se nada de ruim tivesse acontecido. Não existe tempo para remoer a vida quando alguém que faz isso toda hora. É uma luta eterna dele com ele mesmo e isso vai ser metaforizado numa solução simples e tão comum do cinema.

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Se você é do tipo que gosta de easter eggs espalhados pelo cenário, pode tirar o cavalinho da chuva. Mangold usa as referências como pode, mas sempre na medida certa. Você vai ouvir falar sobre o Logan do passado, você vai ver o Wolverine com seu traje amarelo e azul dos quadrinhos, você vai ver tudo em tela, e nada jogado de forma despretensiosa. Tudo tem um motivo para aparecer ali, até mesmo quando ele usa o clássico Os Brutos Também Amam (1953), western dirigido por George Stevens – que conta a história de um antigo pistoleiro que se isolou na tentativa de fugir do seu passado e de não ter que lidar com ele – serve para contextualizar a narrativa e a jornada do protagonista. Tudo feito com muito cuidado e cautela, para não deixar buracos nem pontas soltas no roteiro.

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Assim como foi em Deadpool, o filme não tem grandes cenários e é praticamente gravado inteiro na estrada. Com um elenco não muito grandioso, mas que elevam em suas atuações o grau do filme. Eu nunca vi o Hugh Jackman daquela forma, também não me lembro de ter visto uma atuação acima, bem mais acima do que já é alto para Patrick Stewart. Hugh e Patrick criam uma química de pai e filho. E a chave de ouro é entregue com a atuação da criança aparentemente indefesa que quebra a banca e destrói tudo a ponto de fazer você se empolgar tanto, que tudo culmina em lágrimas de emoção. Essa foi a responsa da pequena Dafne Keen, e ela correspondeu maravilhosamente bem.

Logan é um filme sobre família, um filme sobre laços que independente do tempo ainda podem ser construídos, é sobre confiar em alguém novamente e sobre entender que o seu passado sempre estará te perturbando, mesmo que por causa dele você não sinta mais vontade de viver. Logan não é sobre quadrinhos, é sobre enfrentar seus próprios medos, é sobre aquela medo que temos de olhar para dentro, para a nossa intimidade. Por mais que queiramos mascarar tudo com os excessos, seja no álcool, na ira ou no tabaco, seja em noitadas com várias mulheres, seja como for,  seu passado estará contigo. E olhar para dentro por mais que pareça um fardo, não deixa nem um pouco de ser digno.

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Logan é um filme que pode te fazer chorar, como você nunca chorou em qualquer outro filme, independente do gênero, do estilo e do drama. Seja nas cenas de ação, onde o choro pode vir da emoção, ou nas cenas mais pesadas, onde ele vem com a carga dramática. Enfim, assim como Hugh Jackman se despede do personagem que o fez alçar voo nos cinemas, nós nos despedimos com uma bela película do mutuna mais querido da Marvel.

Já era tempo, Wolverine. Tempo de te ver nas telonas como você sempre mereceu.

Logan (2017)  estreia nos cinemas em 02 de março de 2017.

 

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