Expresso do Amanhã (2013)

Uma viagem eterna pela repugnante natureza humana

Antes de qualquer coisa: se você gostou de “Mad Max: Estrada da Fúria”, este filme é para você.

2014. O mundo se dedica arduamente a encontrar uma forma de deter o aquecimento global. Alguns cientistas surgem com uma ideia revolucionária: injetar uma substância química chamada CW-7 na atmosfera, projetada com o objetivo de fechar o buraco na camada de Ozônio.

O plano foi levado em frente, mas os resultados foram muito diferentes do que a humanidade imaginou. O CW-7 bloqueou a luz solar e condenou o planeta a uma segunda Era do Gelo. Nada foi capaz de sobreviver, com exceção das pessoas que embarcaram no Expresso do Amanhã.

Expresso do Amanhã (2013) | Uma viagem eterna pela repugnante natureza humana

Wilford, o misterioso idealizador da salvação da humanidade, previu o destino do planeta e construiu este trem gigantesco de 50 vagões, que corre incessantemente em uma ferrovia que se estende por 438 mil quilômetros e completa um ciclo a cada ano. Se manter em constante movimento é necessário para que o trem não acabe congelado – como o resto do planeta – e sua viagem eterna é garantida por um motor misteriosamente eterno.

Algumas pessoas compraram suas passagens, enquanto outras entraram no veículo pela “benevolência” de Wilford, resultando na criação de uma ordem social lá dentro. Nos vagões da frente, desfrutando dos mais inusitados luxos, estão as pessoas ricas o suficiente para comprar sua sobrevivência; na cauda, sem luz natural, sem higiene, sem espaço, sem comida e sem qualquer perspectiva de vida, está o restante da população.

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Entre essas almas abandonadas na escuridão está Curtis (Chris Evans), um homem amargo que vive a 18 anos dentro desta enorme caixa de metal, sem saber o que existe atrás das portas de aço que dividem seu povo dos privilegiados. Seu alimento chega em forma de “blocos de proteínas” que se parecem com geleia escura, o racionamento concede apenas um bloco diário para cada pessoa e é melhor não saber de onde as “proteínas” são extraídas. Ao passar dos anos, muitas foram as revoltas do povo contra essa situação, todas falhas, mas nenhuma em vão.

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A cauda se reúne novamente contra os privilegiados e os soldados armados que os defendem. Curtis é rapidamente estabelecido como o elo mais forte, sendo visto pelos seus iguais como um líder. Ao seu lado estão Edgar (Jamie Bell), um jovem que vê em Curtis um exemplo a ser seguido; Tanya (Octavia Spencer), uma mãe desesperada cujo filho foi levado à força pelos guardas para um destino desconhecido; e Gilliam (John Hurt), o líder e mentor da cauda que pretende preparar Curtis para a liderança.

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À primeira vista, Curtis é a figura perfeita da liderança, mas não demora muito para a revelação de sua complexidade e lado obscuro. A escolha de Chris Evans para o papel foi perfeita, já que sua imagem ligada ao Capitão América não exige muito esforço para inspirar confiança, elevando sua posição de líder da mesma forma que eleva o choque do espectador ao conhecer a verdade sobre aquele homem.

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Jamie Bell e Octavia Spencer conseguem transcender seus personagens que, embora sejam coadjuvantes, se desenvolvem espetacularmente e se tornam decisivos para os acontecimentos do longa, principalmente no que diz respeito a Curtis. John Hurt consegue passar ao espectador as emoções que devem ser despertadas a cada momento, resultando em impactos profundos na hora das reviravoltas.

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Mas o destaque principal desta história está em outra pessoa. Tilda Swinton interpreta a ministra Mason, braço direito de Wilfred na liderança, que atua como uma mantenedora da ordem. Munida de um discurso ditatorial sobre o verdadeiro lugar que cada um deve ocupar para o bom funcionamento da máquina, a ministra humilha, deprecia e oprime os habitantes da cauda. O cinismo e a naturalidade que Tilda usa enquanto discursa sobre o quão privilegiadas são essas pessoas por viver ali e o quanto deveriam agradecer à benevolência de Wilfred, são fenomenais. Ao passar do tempo, a personagem se mostra cada vez mais macabra e revela suas semelhanças com algumas figuras de liderança do mundo real.

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O diferencial de Expresso do Amanhã em relação às demais distopias, é que esta crítica funciona. Não há uma jovem absurdamente atraente, limpa e saudável vivendo em um futuro distópico, cujo coração está dividido entre dois rapazes coincidentemente atraentes. Também não temos uma jovem igualmente atraente, limpa e saudável cuja sociedade resolve perseguir porque nasceu diferente e, magicamente, encontra um namorado absurdamente bonito que é diferente como ela. Na verdade, não temos nada de bonito, nenhum caso de amor e tampouco uma sociedade que se preocupa com reality shows ou personalidade.

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Não me entenda mal, eu gosto muito das distopias com líderes jovens e corajosas que citei. O que quero destacar é o nível de realidade da história contada em Expresso do Amanhã. Não há misericórdia com os personagens, não há casos de amor, não há beleza em iniciar esta revolução e não há uma perspectiva de vitória ou derrota.

A crítica deste roteiro é implacável e atinge o público com força. Quando os créditos sobem, a mente do espectador é inundada de reflexões e questionamentos. Da mesma forma que as distopias adolescentes, Expresso do Amanhã usa o futuro para criticar o presente, onde o mundo é o trem, os países ricos são os vagões da frente, os países pobres são o vagão de trás e nós… Nós somos aqueles que são obrigados a manter a máquina funcionando.

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Expresso do Amanhã foi lançado em 2013, mas só chegou no Brasil em 27 de agosto de 2015. Se você tiver a oportunidade, assista-o no cinema e deixe-se levar por este espetáculo visual em forma de crítica.


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Por Louise


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