X-Men: Fênix Negra (2019)

A conclusão que definitivamente não merecíamos

“X-Men” (2000) é, sem sombra de dúvida, uma das maiores franquias de super-heróis da indústria cinematográfica e serviu como base para diversos sucessos das duas maiores companhias de blockbusters da história (Marvel e DC). Entretanto, como é costume de qualquer série fílmica, o panteão mutante também passou por alguns deslizes extremamente perceptíveis e rechaçáveis. Não é surpresa que “X-Men: O Confronto Final (2006) tenha caído nas ruínas de renegar suas raízes quadrinhescas e criado um tour-de-force sem pé nem cabeça que obrigou Bryan Singer a reiniciar o universo em questão com uma nova trilogia para aparar os erros. No final das contas, a última trindade a chegar às telonas cedeu mais uma vez ao desespero de uma narrativa apressada em “X-Men: Apocalypse” (2016).

Tal qual foi nossa surpresa quando, ao “consertar” as cronologias jogadas no lixo ao término dos filmes originais, Simon Kinberg tenha resolvido voltar com a clássica história focada na Fênix Negra em mais um longa-metragem, prometendo para os fãs e para o público que vem acompanhando essa saga desde a década passada uma trama digna que seguisse os parâmetros das HQs. É um fato dizer que “X-Men: Fênix Negra” (2019) realmente alcançou o seu objetivo de se tornar mais fiel ao material original, mas isso não é o bastante para que a produção valha a pena. Afinal, estamos analisando a uma peça fílmica, e não a quadrinhos – e é justamente por isso que o longa-metragem tenha concluído a épica jornada da Fox com pé esquerdo.

Apesar de ainda não fazer parte do universo Marvel – visto que as filmagens estavam prestes a acabar com a Disney resolveu reaver os direitos intelectuais de diversos personagens heroicos -, é instantâneo perceber como a obra já emula as fórmulas incansáveis de sua conterrânea, abrindo o primeiro ato com uma breve explicação que culminará na mortal transcendência de Jean Grey (Sophie Turner) em uma das criaturas mais poderosas de todo o cosmos. Aqui, Charles Xavier (James McAvoy), sempre caracterizado como o benévolo salvador da raça humana, ganha uma dimensão megalômana que pode até alimentar seu lado mais vulnerável e amedrontado perante uma força nunca antes vista, mas que se perde em meio a tantas coisas acontecendo. O espetáculo de abertura, na verdade, funciona como uma aglutinação de frenéticos acontecimentos que resulta na quase morte e no renascimento de Jean.

As construções cênicas movem-se num ritmo exaustivo, recuando para devidos elementos dramáticos. Não há surpresas aparentes – talvez um retorno nostálgico para a rebelde personalidade de Mística (Jennifer Lawrence) e seu consequente declínio numa trágica e inesperada sequência que não apela em nenhum momento para elementos melodramáticos; Jean acha que está tudo bem, sente-se ótima e atrai até mesmo olhares intrigados de Scott (Tye Sheridan) e Tempestade (Alexandra Shipp), momentos antes de explodir em uma raiva esquizofrênica, não conseguindo controlar seus recém-adquiridos poderes.

Sabemos que a persona interpretada por Turner foi a responsável por atrair a onda cósmica de energia e uma das únicas a não ser completamente desintegrada. Era apenas natural que Jean, agora elevando-se ao patamar de Fênix, fosse sua própria inimiga e antagonista dos X-Men, mas esse lado deixou de ser explorado em prol de colocar uma entidade ainda mais “maligna” – ou pelo menos com as intenções de ser -, materializada na presença blasé de Jessica Chastain como Vuk. O problema é que o filme se encontra em um beco sem saída e não consegue arquitetar saídas satisfatórias o suficiente para fugir dos clichês e de arcos reciclados; com exceção das cenas de luta, que também não seguem uma delineação bem aproveitada, nada mais consegue salvar a obra de uma completa perdição.

É fato dizer que a construção das tramas e subtramas consegue melhorar consideravelmente conforme nos aproximamos da aguardada conclusão. Porém, o elenco não cultiva entre si química aparente e permanece numa linearidade que não se salva de atingir cada um dos atores. Turner parece estar presa em seu papel como Sansa Stark, de Game of Thrones (2011), enquanto Michael Fassbender, encarnando Magneto, retorna de forma previsível para fazer absolutamente nada. Seu novo time de aliados, que isola-se do contato humano e ressurge para vingar a morte de Mística ao lado dele, restringe-se a uma massa amorfa e irreconhecível que perde qualquer chance de nos envolver com algo a mais.

Nem mesmo os elementos estéticos fogem do esperado: Kinberg parece fazer jus à sua reputação e se prende à sua incompreensível identidade, criando iterações fragmentadas que se unem em um fraco indício de originalidade no embate final entre Vuk e a Fênix. A trilha sonora é redundante, marcada por um desprezível pedantismo que mergulha no crescendo nos momentos de maior tensão e recua durante os pobres diálogos dramáticos. E, como se não bastasse, a coesão entre os atos não existe; não há fluidez aparente e a finalização é artificial demais para ser levada a sério – mesmo dentro de um escopo fantasioso.

“X-Men: Fênix Negra” (2019) encerra vinte anos de uma memorável e saudosista franquia super-heroica de modo risível e infeliz. Os esforços de Kinberg em entregar algo realmente aproveitável são mínimos e parecem jogados de qualquer jeito numa história que move-se apenas pela força da inércia. Definitivamente esse não é o adeus que merecíamos – e o amargo gosto na boca prova isso com um irrefutável ardor.


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