Sniper Americano (2014)

A necessidade de auto-afirmação americana

Existem três tipos de homens. As ovelhas, que não conseguem se defender; os lobos, que são os predadores; e os cães pastores. Este último tipo é “abençoado com o poder da agressão”, mas só a usa para proteger as ovelhas. Os cães pastores, no entanto, também são personagens principais substancialmente problemáticas em dramas de guerra. Desde o início, vemos Chris Kyle (Bradley Cooper), o mais mortífero atirador da história dos EUA, lutando contra sua família e sua mente para para se encontrar na guerra. Kyle é um cara simples que só quer proteger seus amigos no campo de batalha, e o faz com uma consciência muito clara.

Bradley Cooper está praticamente irreconhecível como Chris Kyle. Sou uma grande fã de seu trabalho e me surpreendi com o que vi. Quando você pensa num filme ambientado na guerra, há alguns atores cujo nome surge em sua mente, seja por trabalhos anteriores ou por simplesmente se encaixar no tema (Brad Pitt, Tom Cruise, Bruce Willis, etc). Pois bem, um nome que jamais surgiu em minha mente para esse tipo de filme, é Bradley Cooper. E no fim das contas, o ator mostrou que seu carisma natural é um aliado para a maioria de seus trabalhos, mas não atrapalha em nada caso ele precise incorporar um franco-atirador dirigido por Clint Eastwood.

Sniper Americano | A necessidade de auto-afirmação americana

Entretanto, é possível notar que Bradley se esforçou para conseguir interpretar Chris Kyle – e é notável que sua atuação alcança o nível mais alto depois dos primeiros 30 minutos de filme. O ator natural da Filadélfia levou algum tempo para conseguir retratar o sotaque texano de Kyle sem parecer artificial ou cômico. Para falar a verdade, nas cenas em que Chris inicia seu romance com Taya (Sienna Miller) e descobre a sua vocação no serviço militar, as linhas de diálogo são carregadas de falhas no sotaque – que melhora logo depois.

Clint Eastwood apressa bastante o primeiro ato de Sniper Americano, com auto-nomeados momentos Sniper Americano | A necessidade de auto-afirmação americana“importantes” do cronograma da vida de Kyle, sem estabelecer um fluxo real. Há uma velocidade preocupante com que o diretor retrata a vida pré-guerra do atirador – num momento vemos seu pai levando-o para caçar e logo depois ele está se casando com Taya. Eastwood não é um diretor sutil – não tenho certeza se ele algum dia foi – mas sua produção recente carece de delicadeza. Esses obstáculos habituais dificultam o início do filme, tornando-o melodramático e até mesmo um pouco desleixado.

Então, repentinamente, alguma coisa mudou. Bradley descobre a melhor forma de retratar Kyle, tratando-o não como um “Capitão América”, mas como um “irmão mais velho” – uma figura que representa segurança e compaixão para os soldados aterrorizados. Ele está encarregado de proteger seus irmãos, e os homens se sentem mais seguros sabendo que Kyle está olhando por eles, como um anjo da guarda em silêncio – e isso nos ajuda a entender melhor o que leva Kyle a voltar para o campo de batalha quando ele está em casa com sua esposa e filho.

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Entretanto, como uma história documental, o filme é significativamente equivocado. Para efeitos dramáticos, vemos apenas um único helicóptero americano – atirando um único míssil – durante todo o filme. O resto dos combates no Iraque são “atirador vs atirador”, o que torna a guerra muito mais poética e justa do que ela realmente é. Na verdade, não há presença maciça do exército, tampouco bombardeio aéreo mostrado, porque Eastwood criou uma atmosfera irreal de que o Iraque de Kyle era o que um dia foi o velho-oeste para ele – e para isso, criou um adversário igual a Kyle e seus amigos. Historicamente, muitas vidas foram perdidas no Iraque, mas Sniper Americano faz o conflito parecer com o Vietnã em um ambiente urbano deserto.

O mesmo vale para muitos outros elementos do filme, em que Eastwood ignorou diversos fatos que não se encaixam em seu plano de montar o perfeito-novo-herói-americano. Kyle tem algumas dúvidas emocionais, mas não entendia nada sobre política. Ele mata de bom grado e com orgulho, até que ele decide que tinha feito o suficiente (os pedidos constantes de sua esposa para que ele parasse foram completamente ignorados).

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Finalmente Eastwood, que foi extremamente detalhista com as vidas que Kyle tirou, decidiu não explorar o momento em que a sua própria vida foi tirada (ATENÇÃO: SPOILER! Selecione para visualizar). Embora haja algum significado lá, a verdadeira essência do filme é tentar justificar para as famílias que perderam entes queridos nas guerras promovidas pelos EUA, que apesar de sua dor, essas vidas perdidas não foram em vão – foram pela pátria, pelo bem maior ou o que quer que seja. Preenchendo assim a necessidade de auto-afirmação do país para com seu povo e enviando a mensagem aos americanos de que tudo vale a pena, mesmo que não haja nada lá para ser mostrado.


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Por Louise


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