HQ do Dia

Black Hole

Eu conheci Charles Burns ao contrário. Digo, em vez de ler a primeira obra dele lançada por aqui, Black Hole, eu acabei começando por “Sem Volta” que foi lançada um tempo depois. Não que isso tenha atrapalhado alguma coisa, mas me fez criar uma admiração muito grande pelo trabalho do autor. E eu só falaria de “Sem Volta”, depois, claro, de conhecer esta obra prima. 

Se no passado tivemos Art Spiegelman com o perpetuoso Maus, hoje foi possível ter obras como Black Hole. E isso aconteceu pelo simples fato de a revista de Spiegelman, RAW, servir como veículo para as histórias de Burns chegarem às mãos dos apaixonados pela arte sequencial. Black Hole foi publicada ao longo de dez anos – entre 1995 e 2005 -, e dividida em 12 volumes. Faturou prêmios como nove Harvey Awards de melhor artista e um Eisner de melhor álbum em 2006. Além do prêmio de obras fundamentais do Festival de Angoulême, É mole? Imagina o saco que era concorrer com este cara ao longo desses anos? Mas, não podemos esquecer que estamos falando de Black Hole e, só por ser ela, todos os canecos que Charles Burns levou pra casa são devidamente merecidos.

Black Hole retrata a rotina de alguns adolescentes no final da década de 1970, a fase dos hippies tinha acabado, o “paz e amor” tinha ficado para trás, mas o sexo livre e desprotegido ainda fazia parte da cultura dos jovens de Seattle. Ninguém tinha muito objetivo na vida, todo mundo com os hormônios à flor da pele causados pela puberdade, era basicamente, beber, usar drogas, ouvir música ruim e encontrar alguém que estivesse na mesma vibe em uma festa e se atracar ali mesmo. Artifícios para tentar dar vida a uma vida que, naquela época, parecia para eles um tanto tediosa. Entre toda essa intensidade, uma doença misteriosa pairava sobre os jovens, era transmitida pelo sexo e causava deformações pelo corpo. Algumas era possível esconder por baixo das roupas, outras ficavam tão expostas que os infectados se autoexilavam do convívio com a sociedade. Dentro desse escopo estão quatro jovens: Chris, Rob, Keith e Eliza. E a trama vai mostrar como cada um deles reagem de forma diferente aos aspectos e efeitos da doença.

Charles Burns entrelaça a vida desses personagens de um jeito que pouco se vê nos quadrinhos, principalmente os de horror. É uma forma de te prender de um jeito agoniante à vida deles. Fazendo com que você imagine pelo menos um pouco a sensação de tudo o que aqueles jovens estão passando. Sem pudor, sem risadinha, sem floreios, é realmente preto no branco. E muito, mas muito sangue frio para transpor em uma narrativa, um jeito diferente de mostrar como a AIDS – em seu período de descoberta e também de epidemia – causava na vida de quem fora contaminado por ela. Burns leva a cada página um uso muito complexo do preto, tornado a arte um elemento principal de imersão, para desgraçar a sua cabeça com cada desfecho da jornada dos personagens. 

Black Hole é aquele tipo de quadrinho que você termina de ler e não consegue dizer nada logo em seguida. O impacto é tão grande, que demora algumas horas para absorver tudo o que Charles Burns contou em 363 páginas.

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