Detona Ralph (2013)

Uma nostalgia cheia de modernidade da Disney

Os estúdios Walt Disney sempre se respaldaram nas clássicas histórias da carochinha dos séculos XVI e XVII para ao menos dar início ao império cuja extensão, hoje, é inexplicável. Entretanto, a nostalgia literária não é a única a dar as caras no irretocável arsenal, visto que, com a chegada de 2012, a companhia valeu-se de um produto marcante na vida de diversas crianças das décadas de 1980 e 1990 – e que permanece até os dias atuais em diversos parques de diversão: os fliperamas. Dotados de uma variedade incrível de jogos e aventuras, é muito difícil encontrar alguém que não se recorde de comprar as fichas com o dono do estabelecimento e a ansiedade para finalmente pressionar o botão start.

Em uma muito provável homenagem, foi partindo dessas memórias inesquecíveis que Detona Ralph surgiu. A trama gira em torno de um vilão dos games de arcade que empresta o nome para o título, e que está cansado de ser tratado como um antagonista temível, excluído dos outros personagens de seu jogo, principalmente pela falsa modéstia de Felix Jr. (Jack McBrayer), o herói venerado por todos que repara os estragos de seu “inimigo declarado”, por assim dizer. Por essas e outra razões, Ralph (John C. Reilly) parte em busca da única coisa que pode lhe dar um pouco mais de reconhecimento e respeito: uma medalha de ouro. Entretanto, ele só pode conseguir isso em outro jogo, e é exatamente essa ambição desmedida que move o incrível plot do filme.

Primeiramente, devemos mencionar a minúcia do diretor Rich Moore, e de seu mais que competente time artístico em criar um cosmos diferente de qualquer outro que já havíamos visto. Diferente dos sutis easter eggs jogados no universo fantástico da Disney, aqui as referências brotam em todos os lugares. Os três cenários principais já trazem uma carga nostálgica considerável – apenas o game habitado por Ralph e Felix nos traz memórias de Donkey Kong. Porém, conforme a narrativa se desenrola, vemos personagens muito conhecidos fora de sua zona de conforto e humanizados de maneira preciosa e prática, trazendo humor e drama nas medidas certas. Sonic, Dr. Ivo Robotnik, Pac-Man e Bowser, são apenas algumas das faces familiares que nos trazem uma sensação deliciosa e nos envolvem ainda mais, respaldando inclusive a jornada dos protagonistas.

Em uma tentativa fracassada de invadir o recém-instalado Hero’s Duty para conseguir a medalha, Ralph acaba invadindo um outro jogo intitulado Sugar Rush e conhece a rebelde e docilmente irônica Vanellope von Schweetz (Sarah Silverman), que acha o troféu do nosso anti-herói e percebe que também pode mudar sua própria vida com aquele objeto. Acontece que, na mesma medida em que o destruidor personagem deseja um futuro melhor, sua mais nova companheira também quer o mesmo. Vanellope é uma aspirante a corredora que é dotada de uma estranha habilidade: quando em descontrolada animação ou ódio, ela vacila. Em outras palavras, ela é um bug do sistema que por vezes deixa transparecer seus problemas – e, por esse motivo, é rechaçada pelas demais competidoras e pelo próprio Rei Doce (Alan Tudyk), comandante do açucarado mundo.

Estamos lidando aqui com dois outcasts, cujo pertencimento aos respectivos cosmos entra em constante negação. Ao recusarem-se a manter o status quo vigente, eles colocam em ameaça até mesmo o funcionamento de seus games, visto que o proprietário do estabelecimento pode desligar as máquinas e destruí-los para sempre. Entretanto, não podemos deixar de torcer para que eles consigam ao que aspiram, ainda mais com diálogos tão deliciosos quanto os delineados por Ralph e Vanellope. A priori encontrando-se ao acaso e entrando em crise pelo conflito de interesses, os dois percebem que podem se ajudar e acabam construindo laços de amizade que perduram até os momentos finais – e para muito além disso.

A trama travestida pela perfeição gráfica, pelas paletas de cores incríveis e pelo sentimento de infância na verdade esconde um classicismo já visto em inúmeras outras investidas dos estúdios em questão. A jornada do herói, relida e readaptada das mais diversas maneiras, encontra uma perspectiva incrível e paradoxalmente modernizada com toques retrôs. Moore encontra um perfeito escopo para explorar todas as vertentes possíveis da infinidade de jogos do antes e do agora e, para alcançar a maximização desejada, mergulha sem medo em três ambientações distintas e poderosas. A primeira, correspondente a de Ralph, conversa com o vintage; a segunda, da guerreira sem escrúpulos Calhoun (Jane Lynch), traça paralelos com o futurismo e com as produções da nova geração. Essa oposição encontra um meio termo com Sugar Rush e, fixando-se a um ritmo próprio e pautado numa fabulesca arquitetura imagética, abre margens para qualquer que seja a ideia do diretor e de seus colaboradores.

O longa não se resume apenas a um respaldo atmosférico, mas faz bom uso da diversidade de elementos e de tramas para criar ocasiões perfeitas. Seja acompanhado por uma trilha sonora competente ou pelas viradas no roteiro, a animação é muito mais profunda do que aparenta. O maniqueísmo do bem e do mal dá adeus para mostrar as personas, mesmo compostas por meros códigos e algoritmos virtuais, não são movidas por uma unidimensionalidade compulsória e são capazes de mudar. Até mesmo o onipotente Rei Doce faz parte de uma trama muito mais densa e que compõe uma das reviravoltas mais chocantes do panteão Disney.

Detona Ralph marca mais um acerto para o famoso império das animações. Entre uma admirável concepção artística e uma história emocionante, o filme definitivamente será difícil de esquecer – ainda mais com a chegada da aguardada sequência muito em breve.


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