HQ do Dia

Meu Amigo Dahmer

Há alguns meses nós noticiamos aqui que a Darkside também publicaria histórias em quadrinhos. Meu Amigo Dahmer foi a primeira publicação das coleção de graphic novels que será lançada pela editora especializada em literatura de horror e fantasia.

A obra é escrita e desenhada por Derf Backderf, chegou a vencer o prêmio Revelação no Festival de Angoulême em 2014 e até virou um filme nas mãos do diretor Marc Meyers, mas o autor já sinaliza de antemão que a adaptação não ficou boa. Meu Amigo Dahmer demorou 20 anos para ficar pronta e conta história de um dos dos mais notórios serial killers dos Estados Unidos.

Em 288 páginas nós conhecemos a trajetória do psicopata Jeff Dahmer quando este ainda era um aluno do ensino médio. Derf foi seu colega de turma nos anos 1970, e conviveu com o futuro “canibal de Milwaukee” com uma intimidade que Dahmer talvez só viesse a compartilhar novamente com suas vítimas. Juntos, Derf e Dahmer estudaram para provas, mataram aula, jogaram basquete. Os dois tomaram rumos diferentes, e Derf só voltaria a saber do amigo pelo noticiário, anos depois. Em 1991, os crimes de Jeffrey Dahmer vieram à tona: necrofilia, canibalismo e uma lista de pelo menos 17 mortos, entre homens adultos e garotos. O primeiro assassinato teria acontecido meses após a formatura no colégio e tudo isso foi contado de forma criteriosa pelo autor.

Em Meu Amigo Dahmer você vai sentir como a negligência de adultos, professores, pais e até dos ditos amigos podem causar na vida de alguém que sofre de uma série de problemas psicológicos. Dahmer foi um adolescente como qualquer outro, tinha seus problemas familiares, queria se sentir incluído nos grupinhos escolares, jamais quis se sentir sozinho, mas tudo que acontecia na sua vida era mais ou menos ao contrário. Ele não era o típico loser da high school, ela era mais estranho que isso. Era pior do que ser invisível, realmente ninguém o notava. E quando eu falo de ser pior que um invisível, é que isso não se limita apenas aos colegas da escola, mas também a professores e todos os adultos a sua volta. Ninguém realmente dava um puto pra ele. Mas tudo muda quando o próprio Dahmer passa a imitar ataques epiléticos da própria mãe na escola ou a imitar o ritmo da fala e as convulsões de pessoas que têm paralisia cerebral. “Amigos” como Backderf, por exemplo, passa achar isso engraçado e chegam até a fundar um fã clube de Dahmer. Ele se torna o mascote da turma, dos não muito melhores que ele da escola de Revere.

Isso pode até parecer só uma brincadeira de escola e Dahmer realmente nem se importava tanto. Backderf e seus amigos até criaram um dialeto chamado de “dahmerismos”, usado em diversas ocasiões e até para os desenhos que circulavam dentro de Revere. Isso é uma das trocentas coisas que o autor cita em sua obra. Ela não chega a ser catártica, mas sua narrativa cria um mistério que você não consegue explicar, você não sente empatia por Dahmer, você sente pena, o autor chega a dizer isso no prefácio, mas com o passar do tempo toda a certeza que você tem é que ele esteve certo nessa afirmação. Porém, fica aquele gostinho de negligência, não só da parte dele, mas também de todos a volta de Dahmer. Como pode um adolescente que demonstra notórios sinais de problemas com sua personalidade não ser visto? Cadê os professores? Cadê os pais desse cara? E os amigos? Cadê todo mundo?

A narrativa de Derf tenta responder a tudo isso. Ela mostra o choque que foi conviver com essa história desde a adolescência até a fase adulta onde o próprio autor recebe a noticia da prisão de um assassino em série dentro de uma redação onde ele trabalhava.  Acaba descobrindo que esse cara foi seu colega de classe – lembrando que esse é o nome certo para essa HQ – “Meu COLEGA Dahmer” -, pois AMIGO ninguém ali foi. Nem ele, nem todos do fã clube Dahmer.

Talvez essa história sirva como um pedido de desculpas por parte do autor, pois a todo momento em sua obra, ele tenta se eximir de alguma responsabilidade. Muito disso, ele deixa claro que nos anos 70 ninguém se importava com certas coisas. Ou que na década de 70 era bem diferente do que era agora. É como se ele tivesse remoído a história por 20 anos ou como se esse passado tivesse assombrado a sua vida por todo esse tempo. Mas infelizmente isso não fica muito claro, vai da interpretação de cada um. Ao meu ver, ele foi apenas um espectador que uniu uma série de fatos para contar a trajetória melancólica de um protagonista que desde a infância já demonstrava o que seria no futuro.

O traço de Backderf é limpo e sua narrativa também é prazerosa que te faz querer devorar a graphic novel em poucas horas. A leitura não cansa, mas a cada página que passa você vai sentindo um certo incomodo. É a emoção que a história causa e não é uma leitura leve, ela é pesada, pode até causar náuseas dependendo de quem lê. Porém, ao mesmo tempo, é uma leitura que desperta uma discussão e vários pontos de reflexão, principalmente no momento onde Dahmer salta no abismo. Você percebe tudo que aconteceu e todas as coisas que fizeram ele chegar onde chegou. É certo botar a culpa nisso? Não! Mas de certo modo explica um pouco de tudo.

Com um acabamento que só a DarkSide sabe dar a suas obras, a HQ contém uma infinidade de extras que vão desde a rascunhos de produção até a fragmentos de entrevistas, de cenas deletas e outros adendos.  

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