Venom (2018)

Um spin-off falho

Quando Venom primeiramente foi anunciado, causou um tumulto considerável entre os fãs tanto do universo cinemático Marvel quanto dos quadrinhos assinados por Todd McFarlane e David Micheline. Afinal, em contraponto a todos os outros longas do expansivo cosmos dos estúdios, este funcionaria como um spin-off desconexo e finalizado em si próprio, exceto, é claro, pelo personagem-título que já deu as caras em Homem-Aranha 3 (2007). As expectativas não poderiam ser maiores: desde a caracterização do anti-herói até as escolhas narrativas, tudo teria possibilidade de adotar um tom inovador e interessante que explorasse com praticidade e de forma orgânica cada um dos elementos – isso sem mencionar o elenco de peso contratado para a obra. Entretanto, o resultado foi muito aquém do esperado e, pelas razões erradas, se tornou uma peça audiovisual risível (por falta de outro adjetivo) e que definitivamente não deve ser levada como algo sério.

Ruben Fleischer, ficando a encargo da direção, já se mostrou competente dentro da indústria cinematográfica ao nos entregar em 2009 seu primeiro trabalho, Zumbilândia (2009). De fato, a história fez bastante sucesso à época do lançamento e deu condições para que o cineasta se envolvesse ainda mais com o ramo do entretenimento. Mesmo com o inevitável esquecimento de seu segundo projeto, Caça aos Gângsteres (2013), seu nome foi colocado em voga novamente com o anúncio de Venom. Já era de se esperar que a irreverência cênica insurgisse como força-motriz das tramas e subtramas, mas a “fluidez” é tão impalpável e insossa que nem mesmo Fleischer parece acreditar muito bem no que faz. Eventualmente, o filme se sustenta apenas pelo crisma de seus personagens e por pontuais sacadas cômicas que, em contrapartida, drenam todo o peso dramático.

O longa gira em torno de Eddie Brock (Tom Hardy), um jornalista investigativo responsável por alguns dos maiores furos de reportagem. Brock pode ser encarado como um justiceiro rebelde cuja missão é desmascarar os podres de companhias e gigantes do ramo empresarial, mesmo que com isso faça inúmeros inimigos e seja forçado a correr riscos desnecessários. Além de lidar com duras escolhas entre o que é certo e o que é fácil, ele divide um noivado prematuro com Anne (Michelle Williams), funcionária da Fundação Vida que, coincidentemente, é o seu próximo alvo como manchete principal. As coisas acabam saindo do controle durante a sessão de Q&A com o CEO da empresa, Carlton Drake (Riz Ahmed) e, no final do dia, ele é demitido e sua noiva acaba o relacionamento após também ser mandada embora.

Entretanto, o trágico panorama muda consideravelmente quando o suposto braço-direito de Carlton, Dora Skirth (Jenny Slate), entra em contato com Eddie e resolve ajudá-lo a expor toda a falta de ética dos laboratórios experimentais. Pelo que tudo indica, o presidente está utilizando humanos e formas de vida alienígenas intituladas simbiontes para criar uma nova raça, realizando fusões indiscriminadas com moradores de rua, prisioneiros e viciados. Mas há um porém: as tentativas se mostram cada vez mais falhas, visto que a compatibilidade não é eficaz e mata tanto o hospedeiro quanto o “parasita” – e, além disso, uma das formas está desaparecida. Durante uma invasão, Brock entra em contato com um dos simbiontes (o anti-herói que empresta nome ao título) e, numa combinação híbrida completa, passa a ter habilidades sobre-humanas.

Até aqui, tudo bem: a narrativa discorre conforma pudemos prever. O problema é justamente a inconsistência tonal do filme em si. Em outras palavras, a obra de Fleischer não sabe em que caminho seguir, optando por uma amálgama confusa de inúmeros clichês e gêneros, como se procurasse uma luz no fim do túnel. O primeiro ato, movido inteiramente pela química entre Hardy e Williams e por um prático carisma próprio dos atores, logo dá espaço a uma aglutinação humorística sem pé nem cabeça desconfortável. A voz do simbionte, também fornecida por Hardy, é interessante e funciona dentro de seu espectro modular sombrio – uma voz grave e gutural, quase majestosa pela imposição cênica -, mas seus diálogos “imprevisíveis” são vergonhosos, por assim dizer.

Nem mesmo Ahmed se salva de cair em suas ruínas formulaicas. Mantendo uma relação híbrida com outro simbionte chamado Riot – o suposto líder do clã cuja missão é devorar os seres humanos e constituir um novo lar na Terra -, cada lacuna dentro do arco é preconizada minutos antes de ganhar forma nas telonas. O tracejar é claro: sua ambição o leva a abrir mão da ética pessoal e profissional para conseguir o que deseja e, no final das contas, se torna aquilo que estava tentando criar. Não é à toa que sua resolução tangencia o melodramático desnecessário e não causa qualquer empatia no público. A conexão entre espectador e filme praticamente inexiste e, quando parece surgir, logo se esvai pelo excesso de rebeldia fílmica.

Era de se esperar que ao menos os efeitos especiais condissessem com o escopo de Venom. Porém, até o trabalho visual é forçado, optando por uma horrenda repaginação do anti-herói extraterrestre falsa e incômoda. Além disso, a fotografia de Matthew Libatique, que acabara de terminar seu trabalho em Nasce uma Estrela (2018), contribui para o choque identitário: em diversas sequências irreverentes, as escolhas de enquadramento, angulação e iluminação adotam uma perspectiva mais sombria e simbólica, desarmonizando com qualquer que tenha sido a ideia do diretor.

Em suma, este é um spin-off que não funciona. Sua concepção e sua premissa podem ter sido as mais humildes possíveis, mas o problema principal está na execução e na falta de solidez artística e narrativa. De qualquer forma, Hardy consegue salvá-lo de ser pior do que poderia ser. Então assista por ele e somente por ele.


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