É impossível atualmente falar sobre HQ nacional sem mencionar Fábio Moon e Gabriel Bá. A dupla de artistas são símbolos incontestáveis da nova cara dos quadrinhos nacionais – uma identidade própria que ao longo dos últimos anos se consolidou e vem gerando frutos diversos e muito diferentes dos quadrinhos mainstream. A dupla no entanto ganhou mais destaque internacional após o lançamento do graphic novel autoral Daytripper da Vertigo. Em 2015 os artistas finalmente lançam a aguardada adaptação do romance de Milton Hatoum chamado Dois Irmãos publicado pela Quadrinhos na Cia.
Dois Irmãos como pode-se imaginar conta a história dos irmãos gêmeos Omar e Yaqub descendentes de Libaneses que são
A arte em Dois Irmãos segue a linha minimalista do roteiro. O traço é fortemente influenciado por tiras de cartunistas nacionais, mas com muita ênfase na apresentação dos cenários. Manaus é mostrada neste conto com simplicidade mas muitos detalhes (Parece uma descrição ambígua, mas é assim mesmo). Há uma evolução significativa dos ambientes no decorrer da história, assim como nos personagens e o pano de fundo acaba tendo tanto impacto visual quanto os próprios protagonistas. Quanto a caracterização do elenco, não se deixe enganar pelo traço aparentemente simples. As expressões faciais e a fotografia em cada cena em Dois Irmãos é muito bem pensada. Tanto nos momentos de ternura quanto nos de terror os autores sabem exatamente como evocar este tipo de emoção no leitor em seus quadros e fazem isso usando os recursos aparentemente limitados do preto e branco chapado. Cada personagem tem algo marcante visualmente – um olhar, uma marca, um detalhe no cabelo, uma silhueta ou algo que faça você inconscientemente guardá-lo no coração. Dois Irmãos tem uma identidade visual fortíssima e tudo a ver com o roteiro proposto.
Dois Irmãos é uma obra extremamente envolvente. Por vezes desconfortável, por vezes angustiante, mas nunca monótona ou desfocada. O roteiro é muito firme e conciso. Os personagens são vibrantes, marcantes e transitam por áreas cinzentas a todo momento. Os diálogos são muito bem trabalhados e cada um dos atores tem sua voz. O cenário é vivo e “transmorfo” como deve ser em obras que atravessam as barreiras do tempo na sua narrativa. A arte é peculiar, precisa e sensível às necessidades do roteiro. No geral a graphic novel é uma leitura com uma fluidez incomum para uma obra de 232 páginas e é recomendada não só para leitores com preferência por quadrinhos mais adultos, mas para qualquer fã de uma boa história ambientada no nosso país.
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