HQ do Dia

Dois irmãos

É impossível atualmente falar sobre HQ nacional sem mencionar Fábio Moon e Gabriel Bá. A dupla de artistas são símbolos incontestáveis da nova cara dos quadrinhos nacionais – uma identidade própria que ao longo dos últimos anos se consolidou e vem gerando frutos diversos e muito diferentes dos quadrinhos mainstream. A dupla no entanto ganhou mais destaque internacional após o lançamento do graphic novel autoral Daytripper da Vertigo. Em 2015 os artistas finalmente lançam a aguardada adaptação do romance de Milton Hatoum chamado Dois Irmãos publicado pela Quadrinhos na Cia.

Dois Irmãos como pode-se imaginar conta a história dos irmãos gêmeos Omar e Yaqub descendentes de Libaneses que sãoDoisIrmaos separados aos treze anos de idade após uma traumática briga por causa de uma moça. Enquanto Omar permanece na Manaus do período pré-Segunda Guerra, Yaqub é mandando para o Líbano durante o conflito. A história se passa (em sua maior parte) quando Yaqub retorna ao Brasil e a trama lida com as consequências desta separação abrupta e violenta para toda a família. O roteiro apesar de transitar por flashbacks eventuais e avançar no tempo ocasionalmente é bem linear e calcado na obra original. Os diálogos são excelentes explorando muito bem sotaques, maneirismos e expressões típicas da região. Há um cuidado extremo com as vozes de cada personagem e cada frase escrita em balões tem peso e dão cara a quem as profere. A narração em caixas de texto no decorrer da trama é feita por um terceiro personagem que também faz parte do contexto da história e é um outro destaque muito positivo da adaptação, aos poucos o narrador vai revelando sua relação com esta família o que torna a descrição dos acontecimentos muito pessoal e intrigante. O ritmo narrativo de Dois Irmãos é firme e intenso – ponto para os autores que conseguiram transpor a obra literária sem tornar a adaptação monótona e cansativa. Em muitas páginas você vai ver pouco diálogo, no entanto as cenas tem impacto e carregam a história sem carecer de explicações muito elaboradas. Tudo é minimalista neste roteiro. Se algo está escrito ou é mostrado é porque há uma razão muito forte para ter sido feito. Além disso tudo temos dois personagens centrais cativantes, complexos e problemáticos. Omar e Yaqub não são opostos no sentido de que um é o “bom” e o outro é o “mal” e aí jaz a beleza da obra original preservada na adaptação em quadrinhos. Ambos irmãos são humanos, falhos e por vezes serão egoístas, perderão o controle e serão eventualmente uns filhos da puta como todos nós já fomos algum dia de nossas vidas.

A arte em Dois Irmãos segue a linha minimalista do roteiro. O traço é fortemente influenciado por tiras de cartunistas nacionais, mas com muita ênfase na apresentação dos cenários. Manaus é mostrada neste conto com simplicidade mas muitos detalhes (Parece uma descrição ambígua, mas é assim mesmo). Há uma evolução significativa dos ambientes no decorrer da história, assim como nos personagens e o pano de fundo acaba tendo tanto impacto visual quanto os próprios protagonistas. Quanto a caracterização do elenco, não se deixe enganar pelo traço aparentemente simples. As expressões faciais e a fotografia em cada cena em Dois Irmãos é muito bem pensada. Tanto nos momentos de ternura quanto nos de terror os autores sabem exatamente como evocar este tipo de emoção no leitor em seus quadros e fazem isso usando os recursos aparentemente limitados do preto e branco chapado. Cada personagem tem algo marcante visualmente – um olhar, uma marca, um detalhe no cabelo, uma silhueta ou algo que faça você inconscientemente guardá-lo no coração. Dois Irmãos tem uma identidade visual fortíssima e tudo a ver com o roteiro proposto.

Dois Irmãos é uma obra extremamente envolvente. Por vezes desconfortável, por vezes angustiante, mas nunca monótona ou desfocada. O roteiro é muito firme e conciso. Os personagens são vibrantes, marcantes e transitam por áreas cinzentas a todo momento. Os diálogos são muito bem trabalhados e cada um dos atores tem sua voz. O cenário é vivo e “transmorfo” como deve ser em obras que atravessam as barreiras do tempo na sua narrativa. A arte é peculiar, precisa e sensível às necessidades do roteiro. No geral a graphic novel é uma leitura com uma fluidez incomum para uma obra de 232 páginas e é recomendada não só para leitores com preferência por quadrinhos mais adultos, mas para qualquer fã de uma boa história ambientada no nosso país.

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