Heresias, Cigarros e Morte

Resenha – O tarô niilista pós-apocalíptico (SEM SPOILERS!)

No primeiro trabalho de Jefferson Pereira (um dos redatores da casa), nos deparamos com um novelo embaraçado do que parecem ser várias linhas, mas que no final é um único (e longo) fio por onde toda a história é perpassada. O “trabalho” do leitor é puxar as curvas, trazer pedaços do novelo para longe do emaranhado a fim de desfazer a aparente confusão – que se manifesta de maneira técnica e no enredo.

Em cada parte somos apresentados de maneira aparentemente solta a um novo pedaço do todo, que não tem necessariamente uma sequência linear em relação ao trecho anterior e provavelmente não se liga (imediatamente) ao que virá. Conforme se avança na massa de fio, as partes vão se encaixando aos poucos, os nós vão sendo um a um desfeitos em relação aos personagens, quem eles realmente são e o que aconteceu com eles – e a distopia talvez seja um reflexo da dualidade de cada criatura no livro (e vice-versa).

O personagem central é o perturbado Abraham (Abe, para os íntimos), um jovem policial que, dentre suas idas e vindas à terapia, ao plano de suas próprias lembranças e suas andanças pelo mundo real, tenta encontrar com algo que deseja ardentemente: sua morte. No entanto, diante do momento crucial do suicídio, Abe nunca consegue seguir em frente, e ao fazer isso, ele tem de viver mais um dia diante do inferno que é o mundo sem sua falecida amada, Sara. Numa descida sem fim por um mundo sombrio cheio de alucinações e referências, muito do que é realidade é questionado – e ficamos em dúvida se aquilo que vemos é real ou se é um reflexo da decadência do policial.

Heresias, Cigarros e Morte Resenha - O tarô niilista do pós-apocalipse (SEM SPOILERS!) (5)-min

Ao avançar na leitura, percebi um padrão interessante que pode ser levantado em comparação à história e aos personagens: um tarô. Embora não tenha sido proposital, a maneira como tudo se delineia página a página, traz muito dos contornos das lâminas do baralho. Abe parece tirar (e vivenciar) carta após carta, e segue numa espécie de processo determinado em relação a si mesmo e ao mundo (que talvez não passe de um reflexo pessoal).

Ao longo do livro, Abraham, o personagem central, amargurado, desiludido e sempre voltando ao mesmo ponto (ao da solução suicida), vagueia entre O Louco, perdido de maneira alienada no próprio sofrimento, em busca de uma paz que ele não consegue dar a si mesmo (a cada proximidade de tentativa de suicídio, ele volta atrás), nem encontrá-la em qualquer outro lugar (seu grande amor, Sara, que está morta).

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O Pendurado, disposto a se sacrificar para desfazer a podridão de dentro de si (e talvez ao seu redor), mas sempre com o peso inconstante do Louco. Os Namorados, com a grande carga do amor que perturba Abe com a paz perdida (Sara), e os diversos antagonismos e dualidades com que ele tem de lutar (o paraíso dos “bons”, a podridão dos “maus”; a vida e a Morte; sanidade e insanidade). O prédio do nosso personagem central tem muito da A Torre, um arcano também conhecido como “A casa de deus”, que traz dentro de si a fragilidade da existência, o desmoronamento dos valores humanos e traz uma espécie de ironia com a inexistência divina no mundo – ainda mais do lado “podre” da cidade.

Finalmente temos A Morte, uma personagem real dentro do livro, que traz não tão somente o encontro contínuo de Abraham, mas o significado místico da carta e sua relação com o forte niilismo do enredo: o destino rumo ao nada, o renascimento rumo ao absoluto e o fim necessário – que Abe não encontra definitivamente, mas a toda e cada vez que ele se depara com uma imagem distorcida e alucinada de si mesmo e de suas memórias.

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O toque herético do livro não vem apenas da possível comparação com o místico, mas com a utilização de passagens e referências bíblicas, que carregam de acidez e ironia o cenário distópico pós-apocalíptico (num apocalipse que pode ser relacionado ao fim do mundo do próprio Abe quando sua amada morre) de um plano dividido entre os bons (merecedores) e os maus, que revelam pouco a pouco não uma podridão moral, mas uma conexão muito maior com a vida do que poderia se imaginar. A cada menção bíblica não pude parar de pensar se era mais u modo de representar o afastamento do próprio Abraham daquilo que era considerado “sagrado” em aceitação ao mundo ao seu redor.

O livro, num enredo transposto do que seria uma HQ, ganhou uma espécie de repaginação diferenciada, na qual o ritmo dos acontecimentos não é mais o dos desenhos nas páginas, mas dos tropeços sem fim de um homem que não para de caminhar rumo à sua própria perdição.

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Heresias, Cigarros e Morte é o primeiro trabalho de Jefferson, e vale a pena ser conferido com atenção por quem gosta de boas histórias com várias referências, momentos (muito) engraçados, situações que beiram o surreal e de tudo aquilo que desafia a nossa percepção de mundo, bem e mal.

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