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HQ do Dia | Guerras Secretas #6

Esta semana marca o início da “Nova e Completamente Diferente Marvel”, iniciativa de reformulação completa de toda a linha de quadrinhos da editora com mudanças em times criativos e premissas, novos títulos, rotatividade de personagens e franquias… Enfim, um “novo universo”. A iniciativa, segundo a editora, é uma consequência direta dos eventos mostrados em sua atual saga / evento chamado “Guerras Secretas” que ainda está bem longe de terminar e tem sua sexta parte publicada também esta semana.

Em “Guerras Secretas”#6 o autor Jonathan Hickman dá um de seus famosos “saltos temporais” no roteiro e nos leva para três semanas depois do confronto entre os sobreviventes das duas balsas das Terras 616 e 1610. Alguns membros da Cabala de Thanos (incluindo o próprio Titã Louco) foram subjugados pelas forças do deus Destino e seus Barões, mas mesmo assim o reino instável de Victor Von Doom esfarela por seus dedos com o surgimento de rebeliões e do misterioso “Profeta” que vem arrendando um exército através do Mundo de Batalha. Durante a história vemos diversas forças antagônicas planejando, tramando e se organizando contra o monarca Latveriano enquanto sua própria família (na forma da genial Valeria Richards) tem dúvidas quanto às decisões de Destino.

O salto temporal de três semanas nesta sexta edição torna-se uma faca de dois gumes perigosos para o roteirista àGuerras-Secretas-6 medida que o leitor realmente não tem detalhes específicos de eventos muito importantes que ocorreram neste intervalo de tempo. O autor omite detalhes importantes sobre o destino de figuras cruciais para a trama como Thanos, a Capitã Marvel, Corvus Glaive e Proxima Midnight. Ao mesmo tempo este salto temporal mantém a inércia da história que corria risco de entrar em modo de exposição. Não entrando em muitos detalhes sobre as consequências da batalha na edição número 4, Hickman foca nos alicerces da queda do império de Doom, revela as origens da família real do Mundo de Batalha e ainda explora os dois lados da personalidade de Reed Richards. Se por um lado a história perde um pouco de consistência pela falta de alguns detalhes, por outro o roteiro é injetado com uma dose fortíssima de ímpeto narrativo.

Bem diferente de seus trabalhos mais recentes nos Vingadores e principalmente na saga “Infinito”, Hickman tem um cuidado extremo com os diálogos e vozes do elenco em “Guerras Secretas”. Repare em personagens com menor participação como Bentley 23 ou mesmo os Homens-Aranha em seu tom casual e faça um comparativo com as vozes pesadas e o tom sisudo de Apocalipse ou do próprio Thanos. Há uma diferença enorme de personagem para personagem e mesmo em cenas curtas isso marca o leitor. Esse cuidado mostra uma evolução gritante na maneira como o autor trata elencos grandes. Ainda sobre Thanos, o Titã tem um dos papéis de mais destaque nesta edição em particular. Apesar de seu cativeiro (que não sabemos se é intencional ou involuntário), a curta cena na qual o psicótico cósmico dá as caras é uma das peças de diálogo mais emotivas de toda a saga até o momento. E estamos falando de um personagem extremamente frio que normalmente é retratado de forma unidimensional na editora.

A arte de Esad Ribic continua com a mesma consistência das edições anteriores. Vale lembrar que este é um elenco enorme, esta é uma saga com locações muito esquisitas e temos um roteiro com mudança de cenas o tempo todo. E o ilustrador consegue um trabalho uniforme e equilibrado em todas as passagens. Nas internas em particular, o uso de quadros em close, sem dar muito foco aos cenários de fundo é uma estratégia válida para valorizar as expressões de quem está falando no momento. Isso não quer dizer que o artista se furta em desenhar cenários. Repare nas panorâmicas no chamado “Projeto 42” ou na ilha de Agamotto. Sim temos cenários, mas o visual limpo das páginas facilita muito o entendimento do roteiro e valoriza os personagens, que muitas vezes tem participação reduzida. A caracterização continua sendo o forte do artista. Isso pode ser observado principalmente nas cenas com personagens de realidades diferentes como os Homens-Aranha e os dois Reed Richards. A fotografia na cena do cativeiro de Thanos é de uma sensibilidade incrível e culmina em um clímax de extremo bom gosto fechando a edição do jeito que o fã de super heróis gosta.

“Guerras Secretas” #6 leva consigo o fardo de seu salto temporal inesperado. É perfeitamente compreensível o uso desta ferramenta narrativa neste caso, tendo em vista a quantidade absurda de tie ins da saga que poderiam facilmente explicar tudo o que aconteceu nestas três semanas entre esta edição e as anteriores. Infelizmente, a Marvel não se planejou em cobrir este intervalo de tempo em outra publicação e talvez isso nunca aconteça. De qualquer forma a história contada por Hickman não pode ser penalizada por conta da falta de planejamento da editora. Temos aqui um desenvolvimento de personagens principais muito interessante; uma caracterização soberba de Victor Von Doom, Reed e Valéria Richards e do improvável Thanos; diálogos com muita personalidade e uma arte das mais bonitas em sagas Marvel nos últimos 10 anos. “Guerras Secretas” se mantém no topo como uma das sagas mais consistentes da editora na última década. Isso tudo apesar de sua premissa absurda, uma total desorganização no campo editorial da empresa e o excesso de tie ins e publicações relacionadas.

ACOMPANHE TODAS AS RESENHAS DE GUERRAS SECRETAS:

Guerras Secretas #1

Guerras Secretas #2

Guerras Secretas #3

Guerras Secretas #4

Guerras Secretas #5

E aí, curtiu?

Escrito por Igor Tavares

Carioca do Penhão. HQ e Videogames desde 1988. Bateria desde 1996. Figuras de ação desde 1997. Impropérios aleatórios desde 1983.

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