Enfim, um Batman dos nossos tempos
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Enfim, um Batman dos nossos tempos

Uma análise profunda passado e presente do Homem-Morcego no cinema

A arte e o entretenimento, seja lá as distinções que traçamos individualmente entre um e outro (ou mesmo se alguém considera não haver distinção) sempre são um reflexo dos tempos em que estão inseridos. Isso ocorre naturalmente e às vezes de forma absurdamente sutil, como o advento do gênero noir explorado em cada um dos seus contextos.

Nos anos 40 e 50, por exemplo, explorou o pessimismo e os jogos de luz e sombra influenciados pelo cinema alemão. Quando o gênero foi resgatado na nova Hollywood, a partir dos anos 70 passou pelas explorações da máfia e da corrupção policial. Nos anos 80, agregou conceitos futuristas e o medo da automatização da vida, como em “Blade Runner” (1982), com o preto e branco dando espaço às luzes fortes de neons. Já nos anos 90 trouxe o pessimismo social frente ao consumismo, como “Clube da Luta” (1999) e “Se7en – Os Sete Crimes Capitais” (1995), em que todo o ponto do antagonista é provar a decadência ante os pecados capitais.

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Enfim, um Batman dos nossos tempos

E com o Batman não seria diferente, com a própria tradição noir sendo uma grande referência nas narrativas do personagem desde seu desenvolvimento nos quadrinhos até, finalmente, no cinema. No mesmo cinema em que, inclusive, teve diversas facetas  por diferentes diretores e atores de diferentes tempos. E assim foi: Adam West invocou a ficção e a sátira dos anos 60 com a infantilização predominante por conta da censura, Tim Burton trouxe o lado sombrio explorado na época por meio de Michael Keaton como seu protagonista durante o final dos 80 e começo dos 90, até que Clooney e Kilmer deram vida ao exagero e excesso do restante da década.

Exagero tão ingrato que, inclusive, congelaria o personagem até que ele tivesse sua próxima chance durante os anos 2000, com o realismo do Batman proposto por Christopher Nolan. Na época, as adaptações de quadrinhos agiam de forma muito mais sutil e sóbria do que o que vemos hoje. Mesmo o Homem-Aranha e o Superman, que nunca abandonaram o vermelho e azul, tinham tons mais escuros.

O Batman, contudo, seguiu a tradição do preto retirando até a famosa elipse amarela do uniforme e deixando seu morcego praticamente indistinguível do resto do uniforme. O conflito dessa vez era com o terrorismo pós 11 de Setembro, encarnado principalmente nas figuras de Ra’s al Ghul, Coringa, Bane e Thalia. Já o Batman de Ben Affleck, apesar de nunca ter sido explorado em filme solo, trouxe a nostalgia oitentista em sua estética totalmente baseada no Batman de Frank Miller e toda a construção geopolítica que Zack Snyder tentou (mesmo que superficialmente) fazer, além de tentar estabelecer um universo cinematográfico com os devidos exageros do gênero.     

E o Batman interpretado por Robert Pattinson e dirigido por Matt Reeves não poderia ser diferente. A construção do personagem e sua jornada tem muito a dizer sobre as discussões recentes e os novos desafios do personagem nos anos 20.

O grunge, o gótico e o noventista

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Nos últimos anos, para quem teve olhos para assistir, uma tendência de nostalgia oitentista invadiu a cultura pop. Como citado acima, o Batman de Ben Affleck também foi um expoente, tal como “Stranger Things”, o retorno de “Star Wars”, “Blade Runner 2049” (2017), “Caça-Fantasmas” (2016) e infindáveis exemplos. Isso inclusive se refletiu bastante na moda, com coturnos e calças mom brotando aqui e ali. 

Em 1937, o historiador James Laver comentou na revista Taste and Fashion um estudo sobre o ciclo da moda. Sua tese ficou conhecida como a “Lei de Laver”, que diz que a variação de idade e distanciamento da época de criação de cada estilo afeta nossa percepção e gosto sobre as mesmas. Praticamente 50 anos à frente, Sir Roy Strong retoma a ideia escrevendo para o The Times. Identificou-se que músicas, peças de roupa, modismos e tantas outras camadas sociais reproduzem um valor nostálgico a cerca de 20 ou 30 anos anteriores, retomando tendências e temas do passado. Isso, é claro, também está presente no cinema.

O período está associado a uma “troca” completa de gerações, podendo tanto ter referências a um complexo de Édipo em uma busca das novas gerações sobre o que foi moda para seus pais ou até mesmo um medo do futuro e uma visão segura em cima do passado. Uma insegurança que se reafirma em frases como “no passado era melhor”.

Sendo assim, essa mesma perspectiva nos ajuda a entender o fenômeno do retorno dos anos 80, um balde cheio para a reutilização de conceitos da cultura pop, e como agora nós estamos muito mais próximos da nostalgia dos anos 90: Sandy & Junior retornaram, “O Rei Leão” (1994) foi resgatado há pouco tempo em um live action duvidoso,  o boneco Chucky tem sua própria série, “Matrix” e Pânico” também retornaram. Isso por si só já é viés de confirmação desse ciclo mercadológico.

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Se7en – Os Sete Crimes Capitais

Nos anos 90 também tivemos “Se7en – Os Sete Crimes Capitais”, citado diversas vezes de forma bastante aberta como uma das maiores referências para o clima de mistério em “The Batman”. A Gotham gótica foi transposta não apenas por Tim Burton no começo da década, mas também aproveitada magistralmente para a televisão em “Batman: The Animated Series”, apresentando a atmosfera investigativa, as ruas caóticas e o céu vermelho de Gotham para uma nova geração, que enfim seria a dominante décadas depois no consumo de todo o material envolvendo o Homem- Morcego.  

O filme de Matt Reeves tem um clima pesado, dramático e melancólico como suas referências. Ele não tem respiro ao retratar a opressão sentida pelo protagonista em uma cidade tomada pela corrupção e simbolicamente explorada em um primeiro momento coberta por máscaras de Halloween. O título da primeira composição de Michael Giacchino, “Can’t Fight City Halloween”, torna ainda mais clara a sensação do Batman ao dizer que sente que não tem certeza se está fazendo diferença.

O longa mostra a tensão de uma ópera ou um enterro, a trilha repleta de graves e com o Batman em meio a um mistério que o faz rever suas próprias motivações e métodos, enfim temas abordados na animação “Batman – A Máscara do Fantasma” (1993), um longa derivado da série noventista. E, falando em Giacchino, uma referência clara às ideias propostas por Reeves foi Something in the Way, do Nirvana. 

Não por coincidência, Pinguim e Mulher-Gato fazem suas estreias nesse filme. Ambos os personagens foram abordados em “Batman: O Retorno” (1992), com uma associação quase que instintiva entre essas figuras que reforçam o imaginário animalesco em cima da mitologia do Batman. O Charada, por outro lado, é resgatado de “Batman: Eternamente” (1995), de Joel Schumacher. Além da ambientação, a própria caracterização de Robert Pattinson com uma franja longa, jeito introspectivo e maquiagem borrada ao tirar a máscara remetem à cultura emo, enquanto o grunge poderia ser associado à sua retratação de raiva e angústia. 

Mas já se falou demais dos anos 90, e “The Batman” não se sustenta apenas em nostalgia. Ele consegue, por meio desses artifícios estéticos e narrativos, apresentar algo novo.

Velhos temas dando espaço a novos desafios

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Inevitavelmente, por se tratar de um personagem de mais de 80 anos – e com cerca de 60 de suas aparições mais relevantes em outras mídias -, o Batman tem os seus lugares comuns. A história de origem que Matt Reeves sabiamente decidiu não recontar é um exemplo disso. Apesar de no cinema nunca termos visto uma visão moderna abertamente detetivesca, já vimos suas dinâmicas das mais clássicas. O Charada faz charadas, o Pinguim é um mafioso, Gordon é o bom policial, Mulher-Gato é uma femme fatale de cabo a rabo… 

Mas essa reimaginação do personagem busca trazer alguns pontos bastante relevantes, a questão é termos a compreensão de que muito do que foi estabelecido foi para superar velhas barreiras. Bruce Wayne, por exemplo, foi minimizado e reimaginado, não mais sendo uma máscara de playboy, mas sim uma personalidade sufocada perante a entidade do verdadeiro protagonista, o Batman.

E o próprio vigilante, inclusive, resolve neste primeiro filme boa parte das questões que seu antecessor de jornada mais completa, o Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, resolveu em sua trilogia. Isso está longe de ser uma comparação de qualidade entre as obras, e isso é cedo, pois Matt Reeves ainda tem um longo caminho em seus próximos passos, mas é curioso pensar que em um filme ele tratou de algumas similaridades possivelmente bem propositais à trilogia antecessora.

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Como em “Batman Begins” (2005), por exemplo, o Batman de Robert Pattinson é obrigado a enfrentar a máfia e a corrupção de Gotham e ainda é limitado por certo amadorismo. O Charada, por sua vez, representa a mesma nova forma de enfrentamento psicológico e provocações interiores que o Coringa representou em “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2008) e, em seu último ato, toma ares de terrorismo tão megalomaníaco com seu plano de inundar a cidade para que seus seguidores despejem os poderosos quanto Thalia e Bane com o cerco de Gotham e a ameaça da bomba em “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012), com direito a uma Mulher-Gato querendo fugir da cidade sitiada e decidindo ajudar nosso herói. Inclusive, outra faixa da trilha sonora do filme “Meow and You and Everyone We Know”, lembra em algum nível as insinuações de tema da Selina Kyle desenvolvido pelo Hans Zimmer. Pode conferir.

Em ambas as construções, o Batman atua ao lado de quem é importante para ele e entende que seu símbolo não pode representar vingança. O personagem entende que pode ser mais, se tornando efetivamente um sinônimo de esperança para o povo da cidade. Não mais uma criatura da noite temida até pelas vítimas e perdido na própria sensação de insuficiência, mas um sinal de que Gotham tem um protetor. A diferença é que Christopher Nolan parou por aqui. Matt Reeves decide começar, à sua própria maneira e com suas regras, onde o último diretor terminou. É quase um resumo espiritual, dadas as proporções.  

Mas novos tempos também são sinônimos de novas dificuldades, ou o enfrentamento de novas perspectivas da realidade. A trama apresenta questionamentos bastante modernos em cima desse universo. Uma parte do público, por exemplo, tem dificuldades em lidar com um dos questionamentos sociais mais fortes em cima do morcego, que é: ele é mesmo um rico que acha que bater em pobre vai resolver a criminalidade?

É uma crítica que cada vez mais é presente nas discussões do personagem. Com a polarização crescente e as cobranças de posicionamento incansáveis da modernidade, uma parte dos fãs prefere ir contra essa maré e reafirmar os ares da ficção na resolução da violência do Batman, enquanto outra prefere trazer um julgamento até real demais para um personagem de quadrinhos. O ponto é que quando essas questões sociais surgem no filme, elas não surgem desvalorizando o personagem ou reafirmando sua insignificância contra o crime. Mas ela chega de fora, chega como acontece na realidade: em perspectiva.

É a perspectiva de Bella Reál, política com teor de ativismo social, que mostra a falta de filantropia do Senhor Wayne. É a perspectiva de Selina Kyle, que inocentemente crítica o branco ricaço e privilegiado Bruce Wayne na frente do Batman, que evidencia como Bruce seria citado em uma visão crítica ao acúmulo de riqueza. É a perspectiva de Edward Nashton, um extremista psicótico que vê na exposição e no extermínio a solução para o mundo, que nos abre os olhos para o fato de que, mesmo que com limites, o Batman o ajudou a cumprir com seus objetivos e o motivou.

E, sinceramente, colocar vozes metalinguísticas em forma de personagens está longe de desvalidar o Batman. Não só isso, como essas perspectivas o engrandecem. Se discutir o ego do personagem e sua forma de sentir-se ele mesmo dentro de um traje de morcego é válido, então permitir que Gotham seja cada vez mais profunda e com vozes divergentes também enriquece o trabalho narrativo.

Não à toa os asseclas do Charada serem figuras tão fanáticas quanto ele surgidos dos confins da internet, foi uma saída muito mais relevante para esses tempos do que a formação de quadrilha que o vilão explorava em outras eras do personagem, bem como o próprio Charada é uma má interpretação do Homem-Morcego. Afinal, se todo o ponto do filme fosse uma argumentação narrativa do porquê o Batman é datado, teríamos de dizer adeus ao personagem. E essa tá longe de ser a realidade. 

Se em exemplos audiovisuais modernos como “The Boys” e “O Pacificador”, somos postos frente a frente com a bizarra relação entre os superseres e a mentalidade supremacista (também debatida por grandes autores nos quadrinhos como Will Eisner e Alan Moore) e mesmo assim os super-heróis seguem firmes e fortes, é porque eles conseguem ressignificar e superar essas narrativas. 

Se uma adaptação do Homem-Morcego se dispõe a tratar da problematização da violência e discutir o que seu símbolo tem para oferecer à sociedade moderna, é porque existe uma proposta de jornada para o tema. Pela primeira vez, por exemplo, vemos Bruce Wayne no cinema lidando com uma visão desacreditada por uma guerra de narrativas de seu pai.

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Thomas Wayne em “Coringa”

Em “Coringa” (2019) tivemos uma desconstrução até mais audaciosa de Thomas Wayne, é verdade, mas agora é hora de ver como o Cavaleiro das Trevas lida com os pecados do pai e uma condição assumidamente neuroatípica herdada de sua mãe, que certamente não foram citados nesse primeiro filme para desaparecer depois, mesmo que no fim não seja necessariamente uma vilanização de Thomas, mas sim uma nova diferenciação das outras abordagens cinematográficas do legado do Batman até então.  

Vale dizer, inclusive, que esse Batman está longe de ser o herói mais refinado e de moral inabalável que por vezes é nos quadrinhos. Aqui, pelo contrário, a mesma faceta de intransigência por vezes é retratada como obsessão. E obsessão é um bom tema explorado pelo personagem, que se reflete bastante no heroísmo desconstruído de moral ambígua do noir.

Muitas vezes duvidoso, violento, traumatizado e – por que não? – desequilibrado. Como vimos, a figura desse Batman pode ser tão cega por seus objetivos quanto até mesmo com momentos em que é um stalker, observando Selina à distância e sendo retratado com uma linguagem cinematográfica que, por vezes, nos faz de fato entrarmos na cabeça e na visão do personagem, com isso inclusive sendo um paralelo frequente com o vilão Charada. A obsessão em Selina é, inclusive, reafirmada quando Bruce Wayne confunde uma acompanhante qualquer de Falcone e espera que seja algum dos disfarces da Mulher Gato. 

No dia em que o Batman e tantos outros super-heróis não conseguirem se renovar perante as novas gerações que de alguma forma criticam alguns traços de sua tradição, aí sim talvez será o fim da renovação desses mitos. Até lá, vamos ver o que pode ser explorado com a ótica das novas realidades.  

E aí, curtiu?

Escrito por Diego Muntowyler

Marketing digital durante o dia, escritor durante a noite. De ficção a conteúdo nerd, acredito na palavra como arte e é hora de parar de engavetar as coisas. Que a Força esteja com você.

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