Uma era de ignorantes e quadrinhos politicamente incorretos

Certamente ninguém me conhece por aqui. Meu nome é Pablo Sarmento, mas pode me chamar de “Pab” e esse é meu primeiro artigo para o Proibido ler. Espero que você goste dessa coluna, que pode voltar a aparecer aqui em outros momentos do mês, ano, século.

Estava relutante em escrever sobre um tema delicado, mas o que venho acompanhando na internet nos últimos meses têm me deixado cada vez mais irritado. Parece que estamos vivendo uma era de ignorantes que acham que quadrinhos devem apenas atender aos desejos deles. Infelizmente parece que essa raiva exacerbada está extrapolando os limites dos quadros e indo para lugares bem ruins do mundo.

Relatos sobre o “Comicsgate” pipocam o tempo inteiro, um grupo de leitores que contesta o “politicamente correto” ou na visão deles “incorreto”, dentro das HQs. Essas pessoas se tornaram um vírus para os leitores de quadrinhos, eles afastam o público novo da mídia, reclamam de representatividade, de diversidade, atacam artistas e movem muita grana para incentivar alguns dos seus artistas defensores favoritos das suas causas (olá, Ethan Van Sciver). Um espiral de ódio, alimentado por mais ódio tornando a vida de muitos leitores e artistas um caos.

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O louco de tudo isso, é como essa galera tem ganhado força depois das eleições tanto as brasileiras quanto as norte-americanas. Artistas como Dave Sim, que era visto como genial, caiu na armadilha de achar que a liberdade de expressão é poder ser preconceituoso, misógino, racista, homofóbico ou transfóbico, assim como alguns artistas acham que a sua solução simplista para resolver os problemas é a melhor, como é visto em séries do quadrinhos do Brasil e do EUA. A piada acima de tudo e a ignorância acima de todos deveria ser o lema deles, pois constantemente reforçam ideias retrogradas e que não se encaixam mais em um mundo onde a diversidade é regra.

Algumas pessoas vão dizer que devemos nos calar e deixar eles gritarem em um lugar escuro, porém eu tenho a visão totalmente diferente, devemos gritar tão ou mais alto que eles. O motivo é só porque não devemos deixar que as pessoas tenham qualquer tipo de contato com esse tipo de ideia. Quadrinhos devem ser feitos para quem esteja afim de ler. Leitores devem se sentir representados e, ao folhear as páginas, sentir abraçado dentro desse novo mundo.

Nada é mais gratificante que ler relatos de meninas que brilham os olhos ao ver as páginas da Capitã Marvel ou da Mulher Maravilha, por exemplo, ou uma criança negra ao ver Miles Morales em uma posição de destaque, em ver um Superman asiático, casais gays e pessoas transgênero em posições heroicas. Esse parece ser um caminho sem volta para a DC Comics e Marvel Comics. Em um mundo ideal, isso deveria ter acontecido desde Action Comics #1, em 1938.

HQ “X-Men: Deus ama, o homem mata”

Em nenhum momento vou aceitar que existam leitores de heróis que dizem amar X-Men e não entendem que lá é discutido o racismo, que amantes do Capitão América digam que Nazismo é aceitável e que não vai ler a Miss Marvel Kamala Khan ou Lanterna Verde Simon Baz porque eles são muçulmanos. Isso é inaceitável! Não vivemos mais no tempo de Fredric Wertham (escritor de “A Sedução do Inocente”) em que os heróis devem ser padronizados ou que assuntos não podem ser debatidos, e você deve tem que ter um selo regulamentador na capa do seu gibi. Hoje existem liberdades e elas devem ser respeitadas, pois o mundo mudou.

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Vale deixar claro que as pessoas que dizem que existem leis, morais e bons costumes, reclamam das pessoas terem liberdades e vão até o fim por conta das suas regras limítrofes e atrofiadas para manter o mundo dentro de um padrão besta. Quer que ficamos calados vendo o mundo ruir! Os quadrinhos foram um tipo de contracultura, transgressor e para falar de pessoas que lutam pelos mais fracos. Aquele S no peito do Superman ainda representa esperança, o lema “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades” hoje é mais poderoso e “Wakanda Forever” é um grito ainda mais forte. Lutar e não esmorecer é o que os nossos gibis ensinam e vão ensinar. Hoje não existe mais espaço para heróis milicianos, executores, matadores e dotados de um glamour anti-heroico. Não se combate um corruptor se corrompendo.

Finalmente, esses ignorantes que gritam contra gibis, estão atrás dos seus conservadores e padronizados quadrinhos politicamente corretos, uma nova geração busca suas vozes e incomodar com os seus quadrinhos politicamente incorretos.

Vamos resistir contra tudo isso!


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