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HQ do Dia | Chrononauts – Resenha Completa

Chrononauts é a mais recente criação do premiado escritor Escocês, Mark Millar. Na história somos apresentados a dois amigos cientistas – Corbin Quinn e Danny Reilly. Os dois gênios tentam ser os pioneiros na viagem no tempo e a mini série em quatro partes publicada via Image Comics descreve esta primeira aventura temporal do Doutor Quinn que literalmente surta com as infinitas possibilidades oferecidas por uma ferramenta tão útil como um traje que lhe permite transitar pela quarta dimensão. No universo de Chrononauts a viagem no tempo é um evento científico e cultural altamente significativo com acompanhamento intenso da mídia e com direito a coletivas de imprensa e transmissão ao vivo da primeira viagem. Então quando o principal ícone cultural e científico associado a esta prática revolucionária resolve tirar proveito de sua invenção descaradamente é lógico que existem consequências bem perigosas e divertidas.

Se você leu Guerra CivilKick AssSuperman: Entre a foice e o marteloSuperiorKingsman – o Chrononautsserviço secreto provavelmente já está familiarizado com o métodos de trabalho deste roteirista: Conceitos relativamente simples, mas um pouco mais “fora da caixa” e uma abordagem direta em termos de roteiro sempre sustentada por personagens originais muito carismáticos e diálogos divertidos e de fácil assimilação. Chrononauts tem tudo isso, mas  na verdade é algo bem fácil de descrever. A HQ é uma alegoria em forma de aventura sci-fi que traveste um conto muito simples, mas que toca temas profundos como amizade, egoísmo e erros do passado. A viagem no tempo em si não é descrita e nem esmiuçada através de método científico e divagações físicas (que podem sim ser interessantes). O tema é uma ferramenta narrativa que transforma o cenário o tempo todo e põe o roteiro em movimento. Somente isso. O grande problema é que por mais que este tipo de história de aventura baseada em “bromance” e referências à cultura pop (que são sutis, mas numerosas e bem pontuadas) seja legal de ler, o roteiro não consegue disfarçar uma série de limitações claras. O roteiro de Chrononauts não consegue atingir a profundidade que alguns de seus temas exigem. Ok, talvez não seja a intenção do autor. Não há nada errado com isso, mas se a parte a viagem temporal não tem profundidade e apelo tampouco tem a parte pessoal e de desenvoilvimento de personagens e relações. Isso torna tanto a premissa quanto o desenvolvimento raso. O roteiro de Chrononauts não consegue nos surpreender em quase nenhum momento. Portanto você sabe na segunda edição mais ou menos como tudo vai terminar e por mais que torça para que Millar “apronte uma das suas” e te surpreenda com alguma coisa esdrúxula, a surpresa nunca chega. Sobra então um roteiro de aventura bem escrito e movimentado em um estilo “montanha russa”? Sim. Divertido? Com certeza. Contudo esta história não tem nada além disso.

Já a arte do senhor Sean Gordon Murphy é um caso completamente diferente. O ilustrador tem um desafio aterrorizante neste roteiro de Mark Millar. A quantidade de cenários, elementos de cena, ação, conceitos manjados que PRECISAM ser apresentados de forma original e principalmente o ritmo de quadros muda o tempo todo tornam Chrononauts uma tarefa ingrata para qualquer artista. Isso tudo tornaria a mini série um verdadeiro pesadelo gráfico para um artista que simplesmente estivesse pegando este trabalho de maneira oportunista para se promover e ganhar uns trocados às custas de um escritor aclamado como Millar. Não é o caso aqui e isso transparece claramente em todas as edições de Chrononauts. O empenho em buscar referências gráficas com acurácia e precisão de Murphy é louvável. A caracterização e design do elenco não foge de seu estilo meio “rabiscado”, mas tem personalidade, carinho e um cuidado de um verdadeiro criador. O ritmo acelerado do roteiro é exposto de forma irretocável pelo ilustrador e a todo momento o leitor sente a interação entre escritor e artista por conta das inúmeras referências visuais nos quadros. Murphy novamente entrega um produto de alto nível em termos gráficos sem em momento algum comprometer seu estilo único de fazer quadrinhos.

Chrononauts é um tributo de Mark Millar às histórias de ação e aventura protagonizadas por uma dupla de personagens masculinos. (PONTO) Esta é sua maior virtude e também seu único defeito. Por focar muito em uma premissa que não é nem um pouco original embrulhada com uma embalagem menos original ainda (a viagem no tempo) o autor correu o risco de produzir algo divertido, bem feito, saudosista, porem raso. E foi exatamente o que aconteceu aqui. Apesar disso a leitura em momento algum torna-se enfadonha, pedante ou infantil. Muito longe disso. Estamos lidando com um roteiro movimentado, bem construído e envolvente, mas novamente simples e que em momento algum vai te surpreender. Sean Murphy por sua vez aproveita o imenso desafio que é uma história abarrotada de referências visuais diferentes e nos mostra muito de seu talento e versatilidade com ilustrador. Tudo neste roteiro conspira contra o artista e o sujeito olha na cara do perigo, ri e nos mostra porque é um dos profissionais mais competentes do mercado sem em momento algum fugir de seu estilão mais “rock `n roll” de desenho. Isto tudo torna a mini série uma obra que tem seu valor sim, no entanto é preciso ter cuidado com as expectativas para que não haja decepção ao final de sua leitura.

Conheça mais sobre Mark Millar em nossa entrevista exclusiva com o escritor:

PROBIDO LER ENTREVISTA | MARK MILLAR

E aí, curtiu?

Escrito por Igor Tavares

Carioca do Penhão. HQ e Videogames desde 1988. Bateria desde 1996. Figuras de ação desde 1997. Impropérios aleatórios desde 1983.

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