Alta Fidelidade (2000) | Você tem um pouco de Rob Gordon nas veias

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Eu nunca tinha entendido por que eu gostava tanto de “Alta Fidelidade”. Depois de rever o filme, acho que entendi um pouco. O longa acompanha Rob Gordon (John Cuzack), interpretado por John Cusack, enquanto ele passa por uma crise dos 30 anos e, no meio do fim de um relacionamento, resolve nos contar quais foram suas piores decepções amorosas.

Eu detestava Rob Gordon. Na verdade, eu ainda detesto. Ele é babaca e, mesmo se menosprezando em vários momentos, consegue ser prepotente. Ainda assim, existe alguma coisa nele que faz com que a gente, eu pelo menos, se identifique com seus dramas. Ele acha que o mundo gira em torno de seu umbigo. Todas as desgraças acontecem com ele e só com ele. Mesmo que seja difícil de admitir, acho que todo mundo é um pouquinho assim.

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Alta Fidelidade (2000) | Você tem um pouco de Rob Gordon nas veias

Gordon luta para manter um relacionamento em que nem ele mesmo sabe o porquê. Claro que com o andar da narrativa, a gente percebe que ele realmente gosta de sua ex, a Laura, mas durante a história, Gordon está preocupado em saber porque está sendo rejeitado e como evitar isso do que realmente com o que aconteceu no relacionamento deles. Ele é dono de uma loja de discos e trata seus clientes como inferiores porque acha que seu conhecimento sobre músicas, filmes e livros é superior ao deles. Ele e seus funcionários estão o tempo todo brincando de “top 5 alguma coisa”. Como se a vida fosse um eterno ranking.

É uma história cheia de “E se…” como a vida também é. Se tratando de ficção, a gente consegue ver a história por vários ângulos e possibilidades, como quando Rob enfrenta seu “rival” e somos apresentados a vários cenários que poderiam ter acontecido, para na realidade não ser nenhum deles e Rob não fazer o que quer.

Alta Fidelidade (2000) | Você tem um pouco de Rob Gordon nas veias

Enquanto ele vai se aprofundando nas histórias de seus relacionamentos fracassados e percebendo que nem sempre as coisas aconteceram como ele havia fantasiado, eu parei para pensar quantas vezes já não fiz isso também. Supus o que a outra pessoa teria pensado e porque ela teria agido como agiu. Tudo para se encaixar na minha narrativa. Na história em que eu sou a perdedora e não a babaca.

Montamos histórias em nossas cabeças para suprimir a realidade de nossos atos, erros e fracassos. Aumentamos pontos e vírgulas. Enaltecemos quem queremos e diminuímos quem nos é menos interessante. Como Rob faz em diversos momentos.

Alta Fidelidade (2000) | Você tem um pouco de Rob Gordon nas veias

E continuamos errando. Como quando ele está tão feliz porque sua ex ainda não transou com o novo namorado, pois para ele isso é muito importante, e acaba saindo à noite para transar com uma cantora descolada apenas porque ele pode. Mas Laura, sua ex, não podia, ele sim. Em sua narrativa fazia sentido, mesmo fazendo dele um perdedor. Gordon poderia chorar por não estar no relacionamento com a pessoa que gostaria ao mesmo tempo que podia fazer o que quisesse porque ele não era o vilão da história. Gordon assume ser um babaca, mas não se considera o vilão.

Nunca nos vemos como o vilão de nossas vidas. A culpa é dos outros, sempre dos outros.

É interessante e fundamental para o funcionamento do “Alta Fidelidade” que seja Rob nos contando a história. Diretamente. Quebrando a quarta parede. Ouvimos dele a versão de sua história e estamos com ele quando toma os tapas na cara da vida mostrando que não, o mundo não gira em torno de seu umbigo.

Não, ele não é o herói trágico de todas as histórias. Mas principalmente, estamos com ele quando percebe seus erros e finalmente conseguimos entender, porque ele quer tanto continuar no relacionamento com Laura e o que ele está disposto a fazer.

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Alta Fidelidade (2000) | Você tem um pouco de Rob Gordon nas veias

Rob Gordon está longe de ser um herói, mas também não é um vilão. É uma pessoa, que como todas as outras (em diferentes níveis), temos egoísmo e um estranho prazer em ser a vítima.

Eu poderia falar sobre a trilha sonora espetacular que “Alta Fidelidade” tem, uma das melhores que já vi. Poderia falar das atuações de Jack Black, Lisa Bonet e Iben Hjejle. Poderia falar sobre a direção incrível que o filme tem. Mas não consigo parar de pensar em como todo mundo tem um pouco de Rob Gordon nas veias.