The Last of Us Parte 2 | O ódio que você semeou te trouxe algo de bom?

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Após jogar o aguardadíssimo jogo da Naughty Dog e disparado o melhor jogo do ano de 2020 até agora, muitos pensamentos flutuaram pela minha mente: um review do jogo por escrito, talvez em vídeo sem muita edição, mas a verdade é qualquer forma que eu imaginei para tentar falar do jogo seria imprópria, pois não abrangeria tudo e provavelmente teria gente mais qualificada que eu para falar. Mas quando concluí a jornada de Ellie, eu não pude deixar de me questionar sobre toda a raiva que guardamos dentro de nós, seja por coisas que falamos ou fizemos e até mesmo pelas que não falamos ou deixamos de fazer. No fim de tudo, valeu a pena guardar isso dentro de nós?

[O texto a seguir contém spoilers do Jogo The Last Of Us Parte 2, se você não quiser arruinar a experiência de jogo, pode ir lá zerar e depois volta aqui pra ler.]

Durante a primeira parte do vasto mundo de TLOU, nós vivemos como Joel, um homem amargurado pelo modo como a vida dele entrou em uma espiral descendente junto como mundo como conhecíamos. 20 anos dentro de uma realidade em que a sociedade entrou em colapso pelos fungos que transformaram a humanidade em monstros o tornaram apenas um sobrevivente, sem sentimentos ou compaixão.

Nesse sentido Ellie funciona como um momento de virada para o personagem. Primeiro como uma chance de sair do mundo caótico em que vivem, através da cura que a imunidade dela poderia trazer. Mas, ao passar um ano do lado daquela garota, o sentimento paterno que morreu junto com sua filha 20 anos no passado, volta aparecer em Joel e, pela primeira vez em duas décadas, ele passa a viver novamente ao invés de ser apenas um sobrevivente.

Ellie é quase que um passaporte, uma cara livre da prisão de banco imobiliário. Naquele momento todo o ódio e crueldade que Joel havia cometido desde que o mundo foi pro saco teria uma justificativa, na vida de Ellie estava a redenção do homem mau que ele havia se tornado.

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The Last of Us Parte 2 | O ódio que você semeou te trouxe algo de bom?

Se eu não escrever meu livro de memórias agora, significa que todo o dano que eu sofri não é um dano positivo. É só dano! Eu não tirei nada dele e, em todos esses anos, eu sofri por nada.” – Diane Nguyen

Mas quando confrontado com a possibilidade de que Ellie precisaria morrer para que uma cura fosse feita, Joel vê cair por terra qualquer tipo de “construtividade” (com o perdão do neologismo) em meio ao modo como ele viveu até ali. A redenção de um homem ruim deveria vir através da morte de mais uma inocente. Como ele poderia lidar com o peso disso somado ao fato de que perderia uma segunda filha, por mais relutante que ele tenha sido em admitir isso durante toda a jornada do primeiro jogo?

A decisão de salvar Ellie em detrimento do restante da humanidade foi egoísta, mas foi algo que qualquer um dos que jogaram o primeiro jogo fariam sem pensar duas vezes. Ao entrar no corredor do hospital eu me vi pela primeira vez esquecendo que eu estava jogando um videogame e apenas estava desesperado para que eu chegasse a tempo de salvar a vida de quem eu amo, independentemente da quantidade de vidas que eu teria que tirar para que isso acontecesse.

Mesmo tendo feito o certo, nem mesmo Joel conseguia lidar com o fato de que ele jogou a humanidade em um poço sem fundo e sem esperança de cura, apenas pelo fato de que não existiria vida para ele sem Ellie. Nos últimos 20 anos ele já estava morto, mas reaprendeu a viver graças a ela. Ele não estava disposto a abrir mão dessa sensação novamente.

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The Last of Us Parte 2 | O ódio que você semeou te trouxe algo de bom?

“Se um dia eu te perdesse, eu certamente me perderia.” – Pearl Jam

Claro que Joel não contava com a própria perspectiva de vida de Ellie, que via no próprio sacrifício a chance de dar um valor à própria vida. Depois de perder todos que ela amava, a cura era a chance de um mundo em que as pessoas não precisassem temer uma infecção ou perder entes queridos para os infectados. O sofrimento dela sim seria um dano positivo. Ali ficava bem claro que Ellie não era Joel.

Mas, como tudo na vida, seja ela a nossa ou a do mundo apocalíptico de Last Of Us, nada sai como nós planejamos e a conta das atitudes de Joel chegou. Sorrateira e cruel na forma de uma pessoa destruída por dentro. Seu nome era Abby e nela havia algo que somente o próprio Joel poderia entender.

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The Last of Us Parte 2 | O ódio que você semeou te trouxe algo de bom?

“E eu escutei, por assim dizer, o barulho do trovão. Uma das quatro bestas dizendo: ‘Venha e veja’. E eu vi e contemplei, um cavalo branco.” – Johnny Cash

Se até aquele momento Ellie não tinha as mesmas ambições de que sua figura paterna, a vingança da morte de Joel pelas mãos de uma estranha invasora lhe dava razões para cruzar o país em busca de vingança.

Nesse momento o jogo nos ajuda a entender como Joel, mesmo morto, havia chegado onde chegou. Ellie faz o que precisa fazer para conseguir seu objetivo final, que é a vingança. A cada morte de um dos WLF, mais um passo em direção ao abismo que levou seu pai pelo mesmo caminho de solidão e endurecimento da alma.

Mas Ellie jamais poderia chegar nesse patamar. Enquanto Joel representava alguém que tinha perdido tudo, ela representava alguém que nunca teve nada. O sacrifício em busca de uma cura não sacrificaria nada porque para ela a sua vida não tinha valido a pena até então. Mas, mesmo em sua busca por vingança que a leva para um lado sombrio, ela é lembrada a todo momento das coisas que valem à pena. O amor e a amizade começaram a fazer parte da vida de Ellie e naquele momento havia muito que ela podia perder ao contrário do primeiro jogo.

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“Estamos conversando à toa, eu não sei o que dizer. Direi de qualquer maneira: Hoje é outro dia para encontrar você. Se afastando, estarei vindo pelo seu amor, ok?” – A-Ha

E, por mais que, tenha sido um choque para qualquer jogador naquele momento. Quando TLOU2 te pega pela mão e obriga com que você jogue com seu algoz, no exato momento em que a protagonista do jogo está sob a mira de uma arma, ao concluir a jornada, você entende o porquê.

A primeira vez que atravessei o corredor do hospital dos Vagalumes em Salt Lake City, eu estava disposto a fazer o que fosse necessário para sair com quem eu amava vivo de lá. Pela segunda vez eu esperava a mesma coisa, mesmo sabendo que quem eu gostaria de salvar estava morto na mesma sala em que Ellie foi salva.

Abby viveu uma boa vida, mesmo tendo nascido no mundo já destruído pelos infectados. Ela teve o amor puro e o amor romântico, ela tinha a esperança de um mundo melhor pelas mãos do próprio pai. Ao tirar isso dela, Joel criou uma cópia de si. Por passar tempo demais combatendo os monstros, ele se tornou um deles.

E, por mais longa que tenha sido a jornada de Abby dentro do jogo, você ainda quer que Ellie se vingue. É até ofensivo que o jogo faça com que controlemos a ex-vagalume diante da protagonista real do jogo, dando a entender que nossa “vilã” sairá viva.

Mas ao estender a misericórdia mais uma vez, Abby mostra que ela não só é Joel, sem tirar nem pôr, mas que ela também encontrou sua redenção em outra vida, com o pequeno serafita Lev. Não havia porque matar Ellie, mesmo com todo o sofrimento que ela causou em sua vingança pessoal.

Mas a lembrança da morte de Joel continua a assombrar Ellie, mesmo quando o jogo parece caminhar para um fim. Em um aparente epílogo na fazenda, a vida dela ao lado de Dina e seu filho é tranquila e serena. Um final digno se não fosse pelos pensamentos que assombram a protagonista.

Quando ela parte mais uma vez em busca de vingança, Dina deixa bem claro do que ela estará abrindo mão para satisfazer uma pendência pessoal e sem sentido. Mas ainda assim ela vai. É incompreensível para qualquer outra pessoa o sentimento de raiva dentro do peito de Ellie, ela não pode pedir que ninguém compreenda.

Mas, quando chegamos ao confronto derradeiro, ainda assim ela hesita. Por que nós nos arrastamos até a Califórnia em busca de vingança? Por que deixamos Abby sair impune mesmo com a imagem de um Joel rendido e espancando aparecendo a toda hora na nossa mente? Por que, depois de tudo isso, nós não conseguimos nos livrar desse ódio? E, com um flashback de cortar o coração, nós entendemos o porquê.

Depois de dois anos nutrindo uma mágoa por tê-la salvado, Ellie está disposta a tentar perdoar Joel, mas isso jamais se concretizou por conta de sua morte. Os pesadelos não estavam lá pela crueldade no assassinato dele ou por Abby ter tirado a figura paterna de sua vida. Ellie sente raiva dela mesma por não ter perdoado Joel, por não ter conseguido admitir que ela era feliz tendo ficado viva, mesmo que isso custasse a vida de milhares de pessoas.

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“Eu acho que nunca vou conseguir te perdoar por isso…, mas eu queria tentar” – Ellie

No fim das contas a jornada que The Last Of Us nos mostrou foi sempre sobre o ódio que nós sentimos e como superá-lo. Como perceber que nada daquilo nos agregou absolutamente nada. E a jornada do perdão sempre é algo pessoal, por isso o primeiro jogo termina no momento em mentimos para Ellie e agora encerramos quando vemos ela indo buscar a vida que ela abriu mão por conta da raiva que sentia de si mesma.

Parafraseando outra grande obra que me ensinou sobre o quão nocivo é esse sentimento que muitas vezes carregamos com a gente: “O ódio é bagagem. A vida é curta demais para estar com raiva o tempo todo”.