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Cannon Films | A máquina de fazer filmes ‘ruins’

A história da produtora que lançava mais de 40 filmes por ano

Sabe aqueles filmes de ação que muitos dos que nasceram em meados dos anos 80 encontravam a rodo nas videolocadoras? Aqueles com Charles Bronson, Chuck Norris, Van Damme e Stallone? Então, por trás de todo sucesso que filmes do gênero tinham por aqui, existia uma produtora que era apaixonada por cinema, mas ao mesmo tempo carregava um histórico de picaretagens, sexismo, machismo e exploração de seus funcionários em uma época na qual as polêmicas ganhavam pouco espaços nas páginas de jornais.

A Cannon Films foi a responsável por muitos filmes de qualidade duvidosa, mas pra quem não tinha muito, qualquer coisa bastava. Era o que acontecia mais ou menos no País quando o VHS era uma das poucas opções de entretenimento que a galera dos anos 90 tinha. Cinema? Até rolava, mas não era tão acessível quanto uma videolocadora. Era possível encontrar uma em cada esquina praticamente. São Paulo, por exemplo, teve milhares e a história delas estão eternizadas no documentário “Cinemagia” lançado em 2017.

A Cannon Films foi uma das responsáveis por tornar a cultura pop no que ela é hoje, afinal de contas, astros como Van Damme ou Stallone só chegaram ao nosso conhecimento por causa dela.

Mas enfim, o que tenho pra contar é um pouco da história de uma produtora norte-americana comandada em seu auge por Menahem Golan e Yoram Globus, dois primos israelenses que saíram de seu país de origem, e foram até Hollywood realizar o sonho de fazer cinema. Bom, no caso realizar o sonho de fazer o que eles chamavam de cinema.

O começo

Cannon Films | A máquina de fazer filmes ‘ruins’
Vontade de matar nunca faltou ao senhor mais destemido do cinema

A Cannon Films foi incorporada em 23 de outubro de 1967 e gerida por Dennis Friedland e Chris Dewey quando eles dois jovens de apenas 20 anos. Eles tiveram sucesso imediato produzindo versões em inglês de filmes suecos de softporn (pornô suave). Em 1970, eles produziram filmes em uma escala de produção maior do que muitos distribuidores importantes, no entanto, à medida que os anos 70 avançavam, uma série de filmes malsucedidos drenou seriamente o capital da Cannon. Isso, junto com as mudanças nas leis tributárias de produção de filmes, levou a uma queda no preço das ações da produtora.

Em 1979, a Cannon Films passava por sérias dificuldades financeiras e Friedland e Dewey venderam a empresa aos primos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus por US$ 500.000. O modelo de negócio dos caras eram basicamente: gastar o mínimo com coisas supérfluas e investir todo o dinheiro arrecadado de investidores e da bilheteria de filmes em mais produções de qualidade duvidosa. O lucro de um determinado título pagava o custo do próximo e assim a câmera rodava.

Daí surgiu o mercado de filmes B de ação. Produções de baixo orçamento, com atores desconhecidos, sem roteiros minimamente elaborados e efeitos especiais toscos que beiravam o absurdo de tão ruins (ou não).

O auge

Cannon Films | A máquina de fazer filmes ‘ruins’
Ninja x soldado norte-americano

“Braddock – O Super Comando” (1984), “American Ninja – Guerreiro Americano” (1985), “O Grande Dragão Branco” (1988), “O Último Americano Virgem” (1982), “Falcão – O Campeão dos Campeões” (1987), “Superman 4 – Em Busca da Paz” (1987), “Stallone Cobra” (1986) e “Mestres do Universo” (1987), são alguns exemplos de filmes produzidos pela Cannon Films.

Hoje em dia muitos chamam de clássicos, mas na verdade se tornaram cults e caíram no gosto da galera por causa da nostalgia. Bom, se era barato produzir esses filmes ou se em alguns casos como Superman e o filme do He-Man, eles gastaram uma grana maior do que estavam acostumados, sua distribuição também era uma mão na roda para emissoras como Globo e SBT que passaram esses filmes a rodo.

Se um filme fazia sucesso como “Indiana Jones – Os Caçadores da Arca Perdida” (1981), os primos Golan e Yoram lançavam “As Minas do Rei Salomão” (1985), que era uma cópia super barata do filme estrelado por Harrison Ford.

Cannon Films | A máquina de fazer filmes ‘ruins’
Queda de braço era um ótimo tema para ser representado em um filme na cabeça dos caras

Se filmes de tipo “exército de um homem só” como “Rambo 2: A Missão” (1982), era o arrasa quarteirão em bilheteria da vez, eles apareciam com um “Comando Delta” (1986). Ou seja, os primos israelenses sempre tinham como ocupar um espaço diante de uma audiência que segundo eles eram ávidas por filmes do gênero.

E assim comandaram de certa forma os anos 90 e alimentaram um mercado que ninguém tinha coragem de explorar.

+ Veja no vídeo abaixo como eram os filmes promocionais que a Cannon Films fazia à época.

Homem-Aranha

Você sabia que os direitos de Homem-Aranha e Capitão América já foram da Cannon Films em meados dos anos 80? Golan e Globus concordaram em pagar à Marvel Comics US$ 225.000 durante o período de opção de cinco anos, mais uma porcentagem das receitas do filme. Os direitos seriam revertidos para a Marvel se o filme não fosse feito até abril de 1990. A Marvel e a Columbia acabariam lançando o primeiro filme do super-heróis com o diretor Sam Raimi em 2002, após os direitos terem sido recuperados.

A despedida

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Chuck Norris x Satanás

Em 1990, Golan saí da Cannon Films e assume 21st Century Film Corporation, enquanto Goblus continuaria tocando a produtora até 1994, quando saiu o último filme, “Perigo Mortal” estrelado por ninguém menos que Chuck Norris.

Depois disso, Golan continuou produzindo e dirigindo filmes até sua morte em 8 de agosto de 2014. Enquanto Globus é o presidente da Globus Max, que tem interesses na produção e distribuição de filmes e dirige uma rede de cinemas com 140 salas em Israel.

A exposição

Cannon Films | A máquina de fazer filmes ‘ruins’
O documentário está faz parte do primeiro volume da coleção Cannon Films, até então nunca lançado no País oficialmente

O documentário “Electric Boogaloo: A História Nunca Contada da Cannon Films” (2014), dirigido e escrito por Mark Hartley, lançado no País pela 1Films no primeiro volume da coleção Cannon Films, conta em detalhes e de forma muito transparente como era dinâmica e o modo de trabalho do de Golan e Globus.

Pra você ter noção de como esses caras eram bem loucos, em um ano eles lançaram mais de 40 filmes. Enquanto os estúdios como Warner ou a Columbia, por exemplo, lançavam no máximo seis por ano. Coisa de louco, né?

Com pouco mais de 90 minutos, o documentário ainda conta como foi o início das produções em Hollywood, na qual a maioria delas continham nudez, cenas de ação mal elaboradas e muita explosão. Será que foi daí que Michael Bay se inspirou? Fica aí o questionamento. Além disso, ainda expõe o machismo, o sexismo, exploração e picaretagens que os primos praticavam em nome da sétima arte.

O legado

Pós término de relação dos irmãos e a vida caminhando para cada um, o cinema não deixou de produzir filmes semelhantes aos que eram feitos pela Cannon e muito menos pararam de lançar produções com exércitos de um homem só. “Invasão à Casa Branca” (2013), a franquia “Mercenários” e filmes como “O Protetor” (2014) e a trilogia “John Wick”, são alguns exemplos.

Se você se interessou em conhecer tanto o documentário “Electric Boogaloo: A História Nunca Contada da Cannon Films” quanto os filmes que bombaram da produtora, clique aqui e garanta as coletâneas lançadas pela 1Films.

E aí, curtiu?

Escrito por Bruno Fonseca

Jornalista, apaixonado por quadrinhos, filmes, séries e retrogames. Espero que você alcance o sétimo sentido em todos os âmbitos da vida.

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