Alegorias cinematográficas | Indo além do óbvio

5 meses atrás ( 25/07/2017 )

Alegoria: Modo de expressão ou interpretação que consiste em representar pensamentos, ideias e/ou qualidades de forma figurada.

A alegoria é um termo greco-romano e ainda é muito usado na filosofia. Por vezes é mais interessante exemplificar uma ideia do que realmente explica-la, pois ao exemplifica-la criamos o conceito de empatia ao ser – visto que é comum nos enxergarmos em metáforas.

Pode-se dizer que um dos principais alicerces da arte é a alegoria, pois ir além do óbvio é conseguir tocar a consciência. Um dos exemplos mais populares é a Alegoria Da Caverna, de Platão:

“No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali. Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder mover-se, forçados a olhar somente a parede do fundo da caverna, sem poder ver uns aos outros ou a si próprios. Atrás dos prisioneiros há uma fogueira, separada deles por uma parede baixa, por detrás da qual passam pessoas carregando objetos que representam “homens e outras coisas viventes”. As pessoas caminham por detrás da parede de modo que os seus corpos não projetam sombras, mas sim os objetos que carregam. Os prisioneiros não podem ver o que se passa atrás deles, e veem apenas as sombras que são projetadas na parede em frente a eles. Pelas paredes da caverna também ecoam os sons que vêm de fora, de modo que os prisioneiros, associando-os, com certa razão, às sombras, pensam ser eles as falas das mesmas. Desse modo, os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.

Imagine que um dos prisioneiros seja libertado e forçado a olhar o fogo, e os objetos que faziam as sombras (uma nova realidade, um conhecimento novo). A luz iria ferir os seus olhos, e ele não poderia ver bem. Se lhe disserem que o presente era real e que as imagens que anteriormente via não o eram, ele não acreditaria. Na sua confusão, o prisioneiro tentaria voltar para a caverna, para aquilo a que estava acostumado e podia ver.

Caso ele decida voltar à caverna para revelar aos seus antigos companheiros a situação extremamente enganosa em que se encontram, os seus olhos, agora acostumados à luz, ficariam cegos devido à escuridão, assim como tinham ficado cegos com a luz. Os outros prisioneiros, ao ver isto, concluiriam que sair da caverna tinha causado graves danos ao companheiro, e por isso não deveriam sair dali nunca. Se o pudessem fazer, matariam quem tentasse tirá-los da caverna.”

Este artigo tem o intuito de indicar algumas alegorias cinematográficas, das quais o autor considera pertinentes, interessantes e proveitosas. Se liga:

Eraserhead (1977)

David Lynch

Confuso, bizarro e atemporal. Eraserhead foi a estreia de Lynch nos cinemas.

Henry é um operário em uma cidade industrial. Ele descobre que vai ser pai de um monstro e precisa lidar com as responsabilidades imprevistas enquanto é atormentado por tudo a sua volta. Lynch não gosta de explicar sobre o que realmente é esse longa e, eu o entendo, pois explica-lo seria descascar toda a sua essência.

Veja também: David Lynch | O Mindfuck do Cinema

Quando Duas Mulheres Pecam (1966)

Ingmar Bergman

A história principal começa quando a enfermeira Alma é escolhida para cuidar de Elisabeth Vogler, uma atriz que surtara em uma de suas apresentações – a tragédia de Sófocles, Electra – e, a partir daí, se isolou do mundo, permanecendo em constante silêncio.

O silencio de Elisabeth se torna um viés para Alma, agora ela finalmente pode mostrar sua verdadeira face, pois finalmente alguém irá escuta-la, e este alguém é um objeto de extrema admiração.

O ser e o querer ser. O arrependimento e o papel feminino matriarcal colocado em debate.

A Face do Outro (1966)

Hiroshi Teshigahara

Um homem com rosto deformado tenta se passar por outra pessoa.

A identidade estética posta em voga em uma fotografia incrível. Baseado na obra de Kobo Abe, A Face Do Outro consegue trabalhar muito bem com a benção e maldição do “não ser” .

Veja também: Semana do Halloween – Noite 4 | Filmes Asiáticos

A Hora Do Lobo

Ingmar Bergman

“A hora do lobo é o espaço entre a noite e a madrugada.
A hora em que a maioria das pessoas morre, em que o sono é mais profundo, em que os pesadelos são reais. A hora em que a gente se sente perseguido pela angústia.
E finalmente, a hora do lobo, é também a hora em que a maioria das crianças nasce.”

Bergman desconstrói aqui o que separa a psique do físico, a ficção da realidade. Assombra com amargura e arrependimento.

O remorso e a perda. A humilhação palpável onde a piada do mundo é você.

O Bebê De Rosemary (1968)

Roman Polanski

Um casal se muda para um prédio com pessoas estranhas. Acontecimentos ainda mais estranhos levam a jovem, que está grávida, a duvidar de sua própria sanidade. Baseado na obra de Ira Levin.

Veja também: O Bebê De Rosemary (1968) | Um filme sobre abuso

The Babadook (2014)

Jennifer Kent

A trama gira em torno de uma família que, seis anos após a morte do pai/marido, ainda sofre com as consequências da perda. Amelia tem um filho pequeno chamado Samuel, um garoto que sonha diariamente com um monstro terrível. Ele costuma assustar outras crianças, criar armas de defesa pessoal e não dá sossego algum para a mãe.

Uma alegoria sobre lidar com traumas e depressão.

Veja também: The Babadook (2014) | O terror que se alimenta da mente

Bedevilled (2010)

Jang Cheol-soo

O machismo como ideologia repassada de geração em geração por homens e mulheres. A falta de empatia e a falsa necessidade masculina.

A sobrevivência pelo medo e parasitismo. O abuso descarado sem consequências, por conta da “benção do nascimento”.

Homens são deuses de mentira, idolatrados. Um terror Sul-Coreano sobre vingança e a traição da sororidade.

Boneca Inflável (2009)

Hirokazu Koreeda

Uma sex doll adquire consciência e passa a sofrer por isso.

A descoberta, a objetificação da mulher e tudo que há de belo na inocência. O humano, vazio, solitário e podre.

Veja também: Boneca Inflável (2009) | A Amaldiçoada Consciência Humana

Perfect Blue (1997)

Satoshi Kon

Mima Kirigoe é uma ídolo pop que decide deixar a banda para se dedicar à carreira de atriz. Alguns fãs ficam descontentes com a repentina mudança de carreira, pois Mima, sendo um ídolo pop, é vista como uma menina inocente e angelical.

Conforme avança em sua nova carreira, Mima mergulha em um intenso drama psicológico no qual fantasia e realidade se confundem colocando em dúvida sua ética moral.

A idealização do individuo e o fanatismo doentio. O leque multifacetado de atuações.

Veja também: Semana do Halloween – Noite 2 | Animações para desgraçar a cabeça

O Homem Duplo (2006)

Richard Linklater

Em um futuro próximo, uma droga, a “Substância D”, altamente viciante e de origem desconhecida passa a ser investigada pela agência “Novo Caminho”, que para a tarefa, infiltra um agente entre um grupo de viciados. Embora seja um tempo em que tudo o que se faça seja vigiado, filmado e gravado, a identidade do agente é preservada pela tecnologia que, através de uma roupa, altera a fisionomia e a voz do indivíduo.

Drogas, dependência química, politica, desconfiança e transtorno de personalidade.

Acordar Para A Vida (2001)

Richard Linklater

Um sonho lúcido interminável com argumentos filosóficos, psicológicos e poéticos.

Veja também: Waking Life (2001) | Uma espiral onírica e filosófica

Paprika (2006)

Satoshi kon

Atsuko Chiba trabalha como cientista de dia e de noite, usando o codinome Paprika, como detetive de sonhos que atua em DC Mini, lugar em que presta auxílio psiquiátrico.

O limiar entre sonhos e realidade. O psicológico, tratado de forma real e inteligível.

A autopsia da consciência.

O Quarto De Jack (2015)

Lenny Abrahamson

A Alegoria Da Caverna pelos olhos de um garotinho. Entre a crueldade doentia e a inocência infantil.

Baseado na obra de Emma Donoghue.

Equilibrium (2002)

Kurt Wimmer

Em um mundo sem emoções, não há violência, nem guerras, pois não há ódio, inveja, ganância, orgulho e muito menos ciúmes. Em um mundo sem emoções, mesmo que este seja terrivelmente cruel, não sofreremos, pois não sentimos nada. Vale a pena viver assim?

Veja também: Equilibrium | Ação e poesia

O Demônio De Neon (2016)

Nicolas Winding Refn

Jesse é uma jovem de 17 anos que acaba de chegar a Los Angeles. Dona de uma beleza natural impressionante, ela tenta a sorte como modelo profissional e, conforme vai ganhando notoriedade, passa a ser alvo da inveja e fascínio alheio.

Com um visual fascinante, O Demônio De Neon é uma alegoria sobre a perfeição estética e os padrões da moda, onde o belo é divino – mesmo quando vazio – onde a fissura pela perfeição apodrece a alma.

O Palhaço (2011)

Selton Melo

O palhaço Benjamin faz parte de uma geração de palhaços, por isto sua vida sempre foi o Circo e nada a mais. Cansado e frustrado, Benjamin tenta mudar o seu destino, tornando-se um cidadão comum.

Trabalhando com o arquétipo da individualidade e a fuga da hereditariedade, O Palhaço utiliza referencias como o dilema de Pagliacci – Opera de Ruggero Leoncavallo – sobre um palhaço deprimido que faz a alegria de todos enquanto anula a própria.


Das alegorias mais conhecidas pelo grande público, irei apenas citar algumas:

  • Laranja Mecânica (1971)
  • 2001: Um Odisseia No Espaço (1968)
  • O Show De Truman: O Show da Vida (1998)
  • Matrix (1999)
  • O Labirinto Do Fauno (2006)
  • Clube Da Luta (1999)
  • Vanilla Sky (2001) * Vanilla Sky é um remake. O original, Preso na Escuridão (1997) é também recomendável.

Conhece algum filme interessante que não tenha aqui? Fique a vontade para indica-lo nos comentários.


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