O Bebê De Rosemary (1968)

Um filme sobre abuso

O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby) é um filme de terror de 1968 dirigido por Roman Polanski.

O longa, que ganhou o status cult, é a adaptação do romance homônimo de Ira Levin. Este post visa analisar a obra em sua essência, ao que equivale-se muito mais no quesito social do que qualquer outra coisa.

Obs: Este post é recheado com Spoilers. Não é uma resenha, mas sim uma analise.

Sem mais delongas, segue a analise:

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

Antes de tudo, gostaria de descrever a personagem vivida pela atriz Mia Farrow, ela passa uma sensação infantil e inocente, certo? Até mesmo moleca. A personagem estudou na igreja e foi ensinada que o mundo é todo feito de flores. Repare também que ela nunca quer ser incomodo – Mesmo quando está com dores, ela fica se segurando e só se solta quando está sozinha.

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

O filme começa com Rosemary Woodhouse e seu marido totalmente felizes, eles estão “iniciando a vida”. Apesar de Guy Woodhouse (John Cassavetes) – o marido – Ser um ator “baixa renda” Rose o apoia totalmente.

Rose sonha em ter filhos com Guy e ser feliz com ele, sendo uma dona de casa – o que, lembre-se, não é um problema, pois nesse caso foi uma escolha dela. O problema é quando ela é serva e nada mais do que isso (e isso você irá entender logo mais).

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Bem, durante o desenrolar conhecemos a filha adotada do casal idoso Roman Castevet  (Sidney Blackmer) e Minnie Castevet (Ruth Gordon), Terry Gionnofrio (Victoria Vetri) – Rose até mesmo a “confunde” com a atriz – Terry seria a futura mãe do filho de Satanás, ela, que era moradora de rua, foi acolhida justamente para esse propósito.

Ao saber da verdade, Terry suicida-se. – Lembre-se que Minnie NUNCA mostra o que havia na carta, nem mesmo a policia lê ao expectador. Ela diz a Rose que a carta de despedida era uma forma de consolação, mas dado ao fato de que ela não é confiável, concluímos isso. Terry preferiu se matar a ser mãe do filho do diabo. É por isso que decidem fazer tudo sem o conhecimento e consentimento de Rosemary.

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

Seguindo:

Ao ser convidada para jantar por Minnie, Rose aceita, deixando claro que precisaria conversar com Guy antes. Mesmo aceitando em seu nome ela ainda lhe deu escolha, pois tudo era feito como um casal. Era realmente tudo, tudo conciliado.

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

Podemos ver sempre que Rose e Guy são dois parceiros no sentido mais literal possível. Mas então o ego de Guy é tocado ainda no jantar e bem, o ego é algo realmente frágil e destrutivo. No outro dia Guy ainda lhe dá a escolha de não ir ter com o casal, é o que ela decide. Foi a última vez em que ela realmente teria uma escolha.

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A partir daí Rose começa a perder sua voz, mesmo conseguindo o que quer, Guy se sente frustrado e desconta isso nela, que por sua vez, se entristece tentando ainda assim apoia-lo, ela chega a chorar enquanto conta ao amigo do casal, Hutch (Maurice Evans), pelo que os dois têm passado. Ela ainda assim, tenta não culpar Guy pelo afastamento.

Além do melancolismo da cena anterior, repare que Rose volta para casa de óculos escuros, talvez uma tentativa de esconder o inchaço causado pelo choro.

Além do melancolismo da cena anterior, repare que Rose volta para casa de óculos escuros, talvez uma tentativa de esconder o inchaço causado pelo choro.

Tudo mudou e o que podemos ver é que ela tenta se agarrar aos momentos bons. Esperando que, por mais abusivo que o relacionamento tenha se tornado, Guy ainda era o homem por quem ela havia se apaixonado. Ela ainda tem de conviver com Minnie e Roman que desde o inicio são totalmente “entrões”.

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Ter filhos se torna a salvação para o casamento já fadado ao fracasso. O sonho se torna muleta para o casamento que é claro não consegue andar sozinho. Guy mostra seu interesse, mas como sabemos, há segundas intenções.

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

Na cena do jantar ~romântico~ podemos ver que Guy não a trata mais como igual, sua mulher amada, mas como uma criança birrenta. Ele não é mais um marido, mas um “pai” autoritário que manda e desmanda nela.

A cena onde ela é drogada e estuprada é marcante, mas mais marcante é o que acontece depois.

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

Guy acorda Rose brutamente exigindo café da manhã, mesmo sabendo pelo que ela passou, ele não sente nenhuma consideração por ela. Rose descobre machucados no corpo e o questiona, ele “admite” ter transado com ela, enquanto ela dormia, como se não fosse nada demais e ainda tem a coragem de por a culpa na bebida.

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

É quando podemos perceber em seu semblante o sentimento de ter sido violada misturado ao “é para isso que eu sirvo, este é o meu trabalho de esposa, não tenho o direito de me sentir assim”. Guy já não a olha nos olhos. Ela se torna um “animal” com uma finalidade. Guy repudia o monstro que cresce em sua barriga e em consequência também a repudia.

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abusoO Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

Ao saber da gravidez, o trio toma conta da situação dela como grávida, quando Minnie liga para o Dr. Abe, ela tem uma conversa paralela com ele que dá a entender que esperam que a gravidez diabólica tenha dado certo.

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

A primeira coisa que o Dr. Abe Saperstein (Ralph Bellamy) faz é garantir a sua ignorância, afinal de contas como ela poderia saber que há algo errado se não a deixarem? Conhecimento é poder. Sem poder, é mais fácil aceitar o cabresto. “Ele sabe o que é melhor, devo confiar e não fazer perguntas”.

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

Rose vai se anulando ao que antes era somatória e, por mais que o longa seja considerado um terror, é algo muito mais interno, o terror não é para o expectador, mas para ela, que a todo momento sente dores insuportáveis enquanto vai ficando mais e mais raquítica, apenas obedecendo tudo o que o trio manda.

Guy a trata como nada mais nada menos que lixo e sempre quando contrariado, ele se mostra bruto, cortando todo tipo de questionamento.

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Ela se sente cada vez mais feia e repulsiva. Após se confrontar com seu reflexo ela tenta mudar sua situação, tomar o controle. É quando ela começa a planejar a festa e para de tomar o suco.

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Na festa, Rose decide confrontar o marido finalmente, é quando ela não aguenta mais e finalmente recebe apoio das amigas. Ela “bate o pé” e então a dor para. Afinal de contas, por que a dor parou? Isso não era para acontecer, tanto que Guy fica preocupado, ele sabia a dor que ela sentia e o motivo para isso. E ele fazia parte. Ao pensarmos nisso, concluímos que o mal era infligido. Rose então era torturada pelo “bem maior” – O filho.

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

Bem, desde o começo podemos perceber que ela e o bebê estão interligados, tanto que ao se descobrir grávida, Rose coloca o colar com a tal raiz-de-tânis, raiz essa que aparentemente é agradável ao demônio. Quando ela decide tomar as rédeas da sua situação, o bebê a aceita como mãe e a sincronia se completa.

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Rose é inteligente e o maior erro da seita foi subestima-la. Assim que ela obteve conhecimento imediatamente ela foi ligando todos os pontos e iniciou sua fuga.O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

A fuga tinha tudo para dar certo, porém ela é tratada como louca – Provavelmente por ser mulher, e entenderemos o porque logo a frente – Ela desesperadamente foge do marido e de toda a seita, mas seu primeiro médico, Dr. Hill, prefere dar confiança a Guy. Sim, o papo de seita pode ser realmente estranho, eu mesmo não acreditaria muito. Mas era óbvio que havia algo errado, principalmente por ela fugir temendo pela vida do filho – E o próprio doutor “concordou” com esse pensamento.

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Guy não tem escrúpulos, é um covarde egoísta, um abutre carniceiro. O maior vilão de todo o filme. Ele tem medo do que Rose carrega, isso pode ser visto por sua mudança de comportamento. Quando Rose o faz tocar sua barriga ele imediatamente tira sua mão. Ele não participa nem um pouco, nem mesmo para com o nome da criança.

O Bebê De Rosemary (1968) Um filme sobre abuso

Guy passa a dormir de pijamas, o motivo que Rose dá a isso é que ele possui uma marca da seita, porém mais tarde descobrimos que não há nenhuma. Conclui-se então que Guy sente total repulsa e se protege com as vestes. Ele não quer correr o risco de toca-la.

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O Bebê de Rosemary é muito mais do que um filme fantasioso, é uma história sobre relacionamento abusivo. Era atual para sua época e infelizmente ainda é. Guy possui o perfil de um homem admirável – Afinal de contas, ele é um ator – Mas descobrimos que ele é o pior lixo que permeia por entre a sociedade.

Ele só pensa em si mesmo e quando faz com que sua parceira pense o contrário, na verdade é em seu próprio beneficio.

O longa me lembra muito síndrome de Estocolmo, afinal de contas Rosemary estava sim, presa. Presa dentro de um falso sentimento de vida feliz enquanto não mais possuía controle sobre si.

Esse sentimento era o que fazia com que ela relevasse tudo a sua volta e obedecesse seus carcereiros. Após todo o desenrolar abusivo, a única alternativa que restou a Rosemary foi aceitar a sua situação como mãe do filho do diabo.


Bem, essa é a essência do que pude perceber no filme. Há muito mais do que isso afinal de contas o roteiro foi muito elaborado. A verdade se revela o tempo todo em detalhes tão mínimos que chegam a ser imperceptíveis – Como por exemplo, o fato de estarem sempre tocando Rose, como se a segurassem, tomando as rédeas e controlando-a – Por esse motivo é muito importante assistir O Bebê De Rosemary ao menos duas vezes.

Dado todos os fatos, deixo aqui o fechamento: Não se deixem anular por ninguém, se você está em um relacionamento onde acaba se anulando pelo outro, há algo errado. Não sejam prisioneiras (os) e se livrem das correntes o mais rápido possível, pois quanto mais o tempo passa, mais fortes elas ficam. não sejam mais uma Rosemary e não aceitem Guys na vida de vocês.

Veja também: Sons Of Anarchy e Hamlet | Uma analise profunda e comparativa entre as duas obras


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