O Escaravelho do Diabo (2016)

Quando a superficialidade parece suficiente

O cinema nacional tem evoluído muito bem desde a retomada do cinema novo até os dias atuais. Eu sou apaixonado pelo nosso cinema e vou além, eu bato palmas cada vez mais para quem se aventura em produzir algo por aqui. Podem falar o que quiser, podemos ter a ajuda de quem for, mas ainda é muito difícil entregar um produto ligado a sétima arte no Brasil.

Por isso  a minha condição de julgar uma obra é a parte menos importante em relação a todos que estão envolvidos nela. Minha condição fica na sustentação de um reflexo do que determinada obra contribuiu para os envolvidos diretamente ou indiretamente com ela e para a sociedade.

Recentemente eu consegui assistir a tão aguardada adaptação de “O Escaravelho do Diabo“, filme baseado na obra de Lúcia Machado de Almeida publicada na década de 50 e que de lá para cá, foi incluído na Coleção Vaga-Lume e passou por uma série de reedições – nas minhas contas foram praticamente 27 – o que fez com que muitas gerações tivessem contato com a obra. Você com certeza já ouviu falar da Coleção Vaga-Lume, inclusive fizemos uma matéria bem bacana relembrando vários títulos de sucesso lançadas por essa coleção. Além de ter ouvido falar você pode ter lido, se não leu, um conhecido seu o fez e assim vai.

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O Escaravelho do Diabo segue a mesma premissa da obra de Lúcia, um serial-killer está varrendo os ruivos da pequena Vale das Flores, mas antes de matar cada um deles, o assassino envia um escaravelho para a vítima e dali em diante, a vida dela estará com os dias contados. O longa parte do ponto de vista do garoto Alberto Maltese (Thiago Rosseti), garoto de 12 anos que sofre de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade, mais conhecido como “DDA”, e tem uma relação de admiração pelo irmão, Hugo Maltese (Cirillo Luna), para aonde o irmão vai ele segue na cola. A mãe de Alberto está viajando e o máximo de contato que ele tem com ela é via Skype. Justamente por isso, ele é tão apegado ao irmão mais velho que nem sempre tem paciência para aturar a hiperatividade do moleque. Num dia qualquer como todos os outros, Alberto vai encher o saco do irmão em seu quarto quando avista uma caixa preta que o irmão recebeu misteriosamente, quando Alberto abre a caixa descobre que dentro dela  tinha um escaravelho.

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Sem saber muito de quem enviou e sem se preocupar com isso, Hugo resolve dar o escaravelho de presente a Alberto, sem saber que a partir daquele momento seus dias estariam contados. Numa manhã comum, Alberto acorda para ir a escola e percebe que Hugo não tinha acordado ainda, ao chegar no quarto do irmão para ver se estava tudo bem, Alberto encontra o irmão morto com uma espada fincada em seu peito. É a partir daí, que a trama começa a andar e o assassino em série começa a riscar ruivo por ruivo do mapa de Vale das Flores. Com a ajuda do delegado Rubens Pimentel (Marcos Caruso), Alberto viverá um verdadeiro agente do CSI até descobrir quem foi o assassino que matou seu irmão e que está passando o rodo nos ruivos da cidade.

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Como qualquer obra adaptada, o diretor Carlo Milani tomou algumas liberdades que não condiz com o livro. Como por exemplo, o próprio Alberto que no livro não tem 12 anos e sim quase a mesma idade do irmão e é um estudante de medicina. A cidade se chama “Vista Alegre” em vez de “Vale das Flores” e outras tantas coisas que só quem leu o livro vai perceber quando for assistir ao filme. Isso atrapalha o filme? Depende muito da sua expectativa em relação a ele.

O Escaravelho do Diabo | Primeiras imagens da adaptação cinematográfica

Mas um ponto importante a ser observado é a abordagem que o diretor levou em consideração quando decidiu adaptar essa obra. Por se tratar de um conto que pertenceu e fez muito sucesso numa coleção de literatura infanto-juvenil, Milani optou por tentar a abordagem desse mesmo público. Por esse motivo, temos um protagonista com a mesma idade do público alvo do filme. Sim, O Escaravelho do Diabo não é um filme feito para agradar aos mais saudosos, que hoje são adultos como eu, mas sim, apresentar uma história repaginada para uma nova geração sem perder a essência do legado que a autora deixou. Isso foi um erro? Depende do ponto de vista, se você assistir ao filme esperando que ele vai te trazer a mesma sensação que você teve ao ler o livro, vai acabar se decepcionando. Mas se você assistir ao filme sabendo que se trata de um produto voltado para o publico infanto-juvenil, o longa passa a ter mais sentido. Foi com essa expectativa que eu fui até a sala de cinema do circuito SPCine, ver como ficou um filme nacional adaptado de um livro que fez a cabeça de muita gente por aqui.

O Escaravelho do Diabo | Primeiras imagens da adaptação cinematográfica

Thiago Rosseti está muito bem como Alberto Maltese, a cada cena que passa do longa você percebe que ele fica mais a vontade em cena. Bruna Cavalieri, que interpreta Raquel, a garota ruivinha, também está muito bem. Milani criou um elenco mirim que não deixa a desejar. Mas está no núcleo adulto do filme, o alicerce da narrativa.

O Escaravelho do Diabo | Primeiras imagens da adaptação cinematográfica

Trazer atores experientes como Marcos Caruso, Jonas Bloch, Celso Frateschi, Augusto Madeira, Thogun Teixeira e Lourenço Mutarelli – mantém o desenvolvimento da trama e a conduz com um pouco mais de segurança. São esses profissionais que transmitem a confiança que os mais novos precisam para continuar dando o melhor de si em cada cena. E são eles também que trazem um ar de qualidade e seriedade ao filme, não deixando ele bobo ou infantil demais.

O Escaravelho do Diabo | Primeiras imagens da adaptação cinematográfica

Mas existe alguns problemas que deixam o longa um pouco aquém do que ele poderia ser. Alguns planos muitos longos, ou ações do próprio Alberto que não condiz com a idade dele. Por exemplo, ora ele é tratado como infantil demais e em outro momento, ele parece muito mais adulto do que sua idade conseguiria permitir. A motivação do vilão, no caso o assassino, demora a ser revelada e o fato dele também não meter muito medo é um dos problemas que chama mais a atenção dos adultos. Já o suspense, eu acredito que funciona em algumas partes, eu realmente queria saber quem era o vilão e por qual motivo ele carregava essa obsessão pelos ruivos, mesmo com toda a enrolação que citei anteriormente. Mesmo assim, ao mesmo tempo que sentia essa vontade, eu também achava que era um suspense típico de  folhetim.

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Gostei muito do habitat do vilão e um pouco também, da atuação de Lourenço Mutarelli que eu já tinha visto sob outro ângulo em “Que Horas Ela Volta (2015)“. A maquiagem usada no personagem e os escaravelhos da sua “casa” também estão muito bem.

O Escaravelho do Diabo não é um filme ruim, mas poderia ter sido algo um pouco mais trabalhado e aprofundado. Eu entendo as limitações do longa, também entendo as limitações da narrativa e de adaptação. Só não entendo por qual motivo acharam que a superficialidade era suficiente para conquistar milhões de adolescentes e pré adolescentes. Sendo que esse mesmo público está cada vez mais ávido por coisas mais profundas e com uma complexidade mais interessante.

Tomara que O Escaravelho do Diabo não caia no esquecimento como aconteceu com outras obras adaptadas, como Memórias Póstumas de Braz Cubas (2001) e Capitães da Areia (2011).

O Escaravelho do Diabo estreou nos cinemas em 14 de abril de 2016.


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