Corra! (2017) | A crítica ácida do ‘terrir’ ao racismo

2 meses atrás ( 19/05/2017 )

Assim que terminei de assistir Corra!, decidi que a resenha precisava se dividir em duas partes. Pois bem: a primeira parte será mais objetiva e sem nenhum spoiler, focada em aspectos mais técnicos; e a outra será voltada aos elementos subjetivos do filme (que podem ou não conter spoilers pequenos e relativamente irrelevantes).

Direção

Dirigido, escrito e co-produzido pelo comediante estadunidense Jordan Peele (roteirista e estrela de Key & Peele, além de membro permanente da MADTv), Get Out! (ou Corra!, como foi traduzido) é um exemplo perfeito de um dos subgêneros do terror/suspense: o terrir, que foi oficialmente inaugurado com A Morte do Demônio (1981) e devidamente consolidado com Reanimator (1985) (embora houvessem representantes que pincelavam um pouco do que viria). Peele consegue o equilíbrio perfeito do terror e da comédia, navegando perfeitamente entre os gêneros com o timming que apenas um ótimo comediante e um excelente diretor de terror têm.

Roteiro

Além de piadas fantásticas, e elementos de homenagem ao terror (e suas incongruências), Peele seguiu o conceito fundamental de roteiros redondos: a arma de Tchekov (segundo o autor russo, se algo é mostrado na narrativa, e “perde-se” tempo, de alguma maneira, focando naquele detalhe, então este algo deverá ser utilizado em algum momento). Sem furos, com grandes tiradas ácidas e cômicas (marcas do comediante estadunidense), a história e todos os elementos que a perpassam, como diálogos e ingredientes de composição de cena, criam algo próximo da ‘narrativa ideal’.

Elenco & atuações

Decidi amarrar um ao outro e comentar a escolha, de maneira geral, de atores e atrizes em relação aos seus papéis: nada foi em vão. Até mesmo o histórico filmográfico do elenco foi pesquisado, e cada pessoa foi encaixada de maneira perfeita (Peele comenta que escreveu algumas personagens pensando nos atores e nas atrizes que as interpretariam). Dito isso, não há nenhuma observação às atuações fora que: incríveis. Os destaques absolutos vão para a brilhante Betty Gabriel (no filme, Georgina) e o ator britânico que protagoniza o longa, Daniel Kaluuya (fãs provavelmente reconhecerão o ator por seu papel no segundo episódio da série Black Mirror, Quinze milhões de méritos).

Fotografia

Corra! é um filme bonito de se ver. Os filtros, as cores, os conceitos, a qualidade da imagem e as escolhas em cena, e no filme como um todo podem não ser um A Árvore da Vida (2011), mas não deixa nada a desejar em relação aos demais filmes não só do gênero,  mais os de natureza mais artística.

Trilha Sonora

Parte original, parte com músicas escolhidas a dedo, a trilha faz questão de se reconhecer enquanto uma obra do terror, intensificando cenas e, na sábia escolha de sua ausência, construindo momentos e aliviando/aumentando a tensão.

Artistas como Childish Gambino, e o equilíbrio entre o sinfônico, o eletrônico e o ancenstral em músicas cantadas e declamadas em swahili (um dialeto da língua Bantu) enriquecem profundamente o lado sonoro da película.

O tesouro da subjetividade (com spoilers).

Sendo claro e objetivo: Corra! é um filme sobre a questão racial, especialmente dos Estados Unidos. Há uma mensagem clara abordada sob os diversos graus de sutileza, humor, terror e storytelling no filme: racismo. É impossível assistir o longa sob outra perspectiva, que faz questão de tratar através da narrativa, de diversos easter eggs e elementos em cena, além de diversas sutilezas propositalmente colocadas ao longo da obra.

Dito tudo isso, é importante dizer: falar racismo e identidade negra não são meus locais de fala. Não sou negro e não vivi a objetificação e a segregação socioeconômica que são o principal alvo das críticas do longa.

1. A linguagem e o comportamento corporal dos personagens brancos, principalmente os pais de Rose (Allison Williams, conhecida pela série Girls), são amostras claras da ansiedade que indivíduos têm esconder seu desconforto racial. Comentários como “eu votei no Obama” (proferido por Dean Armitage, interpretado por Bradley Whitford), são marcas dessa característica na sociedade atual.

2. Peele aprofunda seu talento de roteirista e faz questão de intensificar as provocações que faz na série Key & Peele (um dos exemplos é quando, na série, os amigos percebem que o motivo pelo qual zumbis não os estão atacando é porque são “comedores de carne racistas”), agora com maior liberdade criativa por assumir também as cadeiras de produção e direção.

3. No início de Corra!, quando um personagem negro está caminhando através de um bairro tipicamente branco e de classe média alta, notamos a inversão proposital das relações raciais estereotipadas: não é o herói branco que caminha por um bairro barra pesada.


Visivelmente desconfortável e com medo, o personagem percebe que está sendo seguido por um carro branco e tenta ignorá-lo até que um homem usando um elmo de cavaleiro (guardem esse detalhe) o ataca.


A cena é interessante não só pela construção do desconforto, mas pela maneira como ela pode ser desconstruída: em 2012, Trayvon Martin, um jovem negro, foi assassinado nos EUA enquanto atravessava um bairro tipicamente branco e rico ao caminho de casa. Além disso, a maneira como a personagem é atacada é extremamente simbólica: um mata-leão (igual ao que matou Eric Garner em 2014).


4. Seja no carro branco, no elmo que faz referência aos Cavaleiros do Ku Klux Klan, ao excesso de branco na (spoiler) revelação de como Rose realmente é no final, etc. Um bom exemplo é essa cena onde o azul de Chris e o listrado em vermelho e branco de sua namorada formam a bandeira estadunidense.


5. A sequência musical do título é uma composição de Michael Abels chamada Sikiliza Kwa Wahenga, que significa (em Swahili), Ouça seus ancestrais”, referência à escravidão e a identidade racial. Na letra, que tem segundo Peele, uma identidade “distintivamente negra”, partes dizem “irmão, irmão, há algo de errado, corra!”

6. O estereótipo do “negro gentil”, muito utilizado por praticamente todos os meios de entretenimento, em que uma personagem negra, homem ou mulher, aceitam sua condição de submissão, são gentis apesar de não serem bem tratados e aceitam a exploração e a objetificação que lhes é imposta. (Spoiler) Mais tarde no filme, descobrimos que as personagens em questão foram meio que lobotomizadas, e que a consciência de uma pessoa branca foi inserida em seus corpos – o que aprofunda a alegoria: por trás do (estereótipo midiático do) negro gentil, há a pessoa branca lhe impondo comportamento.

7. A crítica ácida ao argumento de “nem todo o branco” (nem todo branco é racista, nem todo branco segrega, etc).

8. As roupas que Chris usa sempre o colocam como um “outsider” até mesmo visualmente quando diante dos demais.
9. O Sunken Place, ou “esquecimento”, segundo Peele, é uma alegoria para a falta de representatividade de personagens negros/as no gênero de terror (ao menos aqueles/as que não são prontamente assassinados/as).


Além disso, como praticamente toda alegoria de dois e até três níveis do filme, o “esquecimento” é um paralelo ao aprisionamento em massa da população afroamericana, assim como as terríveis condições de segregação trabalhista e ‘geosocial’, que já foram mais de uma vez descritas como “análogas aos efeitos e prática da escravidão nos tempos modernos”.

10. O celular é um dos elementos bem importantes da trama: é através dele que Chris captura e reverte, mesmo que momentaneamente, a situação de violência velada contra outro personagem. Aqui a alegoria é como incidentes motivados por questões raciais, principalmente envolvendo a brutalidade da polícia tem sido cada vez mais capturados através das câmeras dos celulares. Os aparelhos no filme não são apenas instrumentos de narrativa.


11. (Spoiler) Em um dado momento em que os personagens estão aparentemente jogando bingo, o que está acontecendo é literalmente um leilão pelo corpo de Chris, e a cena inteira se passa como no leilão de um escravo.

12. Além de todo o contexto racial e a crítica às questões já mencionadas no texto, o filme faz questão de homenagear diversos de seus antecessores, seja no terrir, na comédia ou no terror. Várias das cenas referenciam momentos clássicos da cinematografia do horror, como os de O Bebê de Rosemary (1968), Laranja Mecânica (1971), e A Noite dos Mortos Vivos (1968).

Finalmente

Corra! é uma das pérolas do chamado novo terror, de onde figuram ótimos filmes como A Invocação do Mal, excelentes como Martyrs (2008), e clássicos contemporâneos como A Bruxa (2015). Com roteiro incrível, atuações fantásticas e detalhes extremamente bem pensados, não é a toa que o longa se tornou um dos filmes mais aclamados dos últimos tempos. Sem dúvidas merece cinema!


Gostou? Tem mais:


© 2017 Proibido Ler | Feito com Wordpress - Desenvolvimento por Dk Ribeiro & Baruch Vitorino