Martyrs (2008)

O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)

A indústria cinematográfica se comporta de uma maneira bem específica, ainda mais levando em conta a dominação que o cinema estadunidense passou a exercer a partir do início da Guerra Fria. Uma forma de compreender esse comportamento é notar, por exemplo, o caminho em que determinados gêneros seguem e quais são as fórmulas, lugares comuns e temas ali contidos (como os “novos clichês” dos filmes de herói, que são, na verdade, a repaginação de uma estrutura bem conhecida).

Interpretações e temáticas novas sob o julgo e a influência de, principalmente, elementos culturais distintos são fundamentais para quebrar modelos. Até mesmo dentro do mainstream a quebra é trazida geralmente através do estranho ou do aproveitamento de algo (até então) desconhecido, como foi com O Exorcista, O bebê de Rosemary, O Iluminado, etc. Dentro dessa linha de pensamento há a influência (e os remakes) do cinema (da imagética em geral, na verdade) japonês no horror e no terror.

Esse primeiro parágrafo é fundamental para entender o porquê de, mesmo sendo ocidental, o terror e o horror gauleses são tão especiais. São amostras como REC (2007), produção espanhola, e Martyrs, produção francesa, que mostram como é possível escancarar um conjunto de imagens, símbolos e elementos culturais e históricos a fim de dar um novo significado a histórias de gêneros específicos, como o horror.

Há quem diminua o (chamado) pornô tortura pelo excesso de violência aparentemente desnecessária, que não carrega nada consigo além o desejo de alimentar o sadismo de um nicho muito específico. A grande questão é que o gore nunca foi só gore, o sangue nunca foi só sangue e os gritos não foram apenas gritos. Claro, há exceções. Existe o filme que é o meio e o fim de si mesmo, e ainda assim há o seu valor.

Dentro dessa condição a França tem nos presenteado com o nascimento (renascimento?) de seu próprio subgênero, um brutalismo cheio de metáforas focado nos demônios interiores da sociedade ocidental e, principalmente, europeia. O santíssimo/profano quarteto do horror francês atual (Ils, 2006, A L’Interieur, 2007, Martyrs, 2008 e Frontier(s), 2007) confirmou a qualidade das produções voltadas ao gênero, e apesar de não serem as primeiras amostras concretas do tipo, certamente são as mais importantes das últimas décadas.

Martyrs (2011) O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)
Escrito e dirigido por Pascal Laugier (O Homem das Sombras, 2012), estrelado pela marroquina  Morjana Alaoui (The Myth of Hopelessness, em pós-produção) e pela francesa Mylène Jampanoï Martyrs (Além da Vida, 2010), Martyrs é um longa em dois arcos (chamemo-nos de Vingança e Tortura) que, apesar de mais ou menos dividirem o filme em duas partes, torna tudo mais compreensível e palpável.

As atuações, sem exceção, desde as atrizes principais aos coadjuvantes, é acima do normal. O principal destaque fica, sem dúvidas, para as duas protagonistas, que conseguem se expressar de maneira incrível até mesmo pela respiração e pelos olhares. A química entre as duas é inegável (Morjana e Mylène se tornaram boas amigas durante o longa e mantêm contato até hoje), e desde cenas de ação, que demandam esforço físico e reações corporais, são realizadas com primazia. Além disso, o longa tem três estrelas a serem destacadas: a maquiagem, os efeitos práticos e o design de som.
Martyrs (2014) O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)
As maquiagens retratam o gore de maneira extremamente realista, sem receio de expor os machucados e as marcas de tortura, aparecendo em foco com bastante iluminação sem nenhuma falha, sempre com quantidades realistas (e não menos assustadoras) de sangue. Os efeitos do filme são todos práticos, desde a utilização de armas de fogo, até os momentos mais dramáticos, que utilizam do jogo de luzes e do bom posicionamento das câmeras, além da raiz do que há de mais fundamental no cinema, como cabos, plataformas, pólvora e tubos de ar.

Martyrs (2008) O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)
O som, no geral, é uma obra de arte por si só. Em determinados momentos por mais que em cena existam armas sendo disparadas, pessoas gritando ou quaisquer outros barulhos do gênero, a camada sonora que é trazida ao primeiro plano é a do ambiente. Ouvimos o canto de pássaros, o cricrilo dos grilos e o som das folhas e do vento durante cenas violentas ao ar livre, e o silêncio metálico com zumbidos da estrutura elétrica quando dentro de construções. Fora isso, a sonoplastia é primorosa. Tudo tem seu devido impacto e sua tridimensionalidade e, como em um bom filme de horror, é uma das almas do filme. Até mesmo a presença ou a ausência (durante longos períodos de tempo) de trilha sonora desempenha um papel crucial na construção do enredo e da tensão do longa.

Martyrs (2015) O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)
Várias das sequências são filmadas sem cortes, em um só take, com precisão e realismo milimétricos, o que garante à produção um ar muito mais fluido e palpável. O posicionamento das câmeras e os cortes e passagens são tão naturais que só percebemos a mudança de ângulo e a (longa) continuidade de determinada sequência assim que ela está prestes a acabar.

Martyrs (2016) O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)
Embora não figure enquanto um destaque tão fundamental no filme, a fotografia não é menos importante nem impressionante. Variando entre tons mais frios e mais quentes, dando atenção a determinadas cores e aproveitando de elementos em cena que possam puxar sentimentos e as várias metáforas do filme, a fotografia consegue captar com primazia, em conjunto com a iluminação e a cinematografia, tudo de ríspido, cruel e ao mesmo tempo sensível que Martyrs tem a intenção de passar.

Martyrs (2008) O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)
O enredo foca na história de duas garotas e uma sequência de abusos físicos e psicológicos focados na tortura. Uma das garotas, Lucie, fugiu de um galpão após ser torturada por meses, e é encontrada desorientada no meio de uma estrada, de onde vai para um hospital especializado a fim de ser tratada de seus traumas e machucados. Lá ela conhece Anna, com quem depois de muito tempo consegue estabelecer uma duradoura amizade. A saída das garotas do hospital se dá na busca de Lucie por vingança e na de Anna de cuidar e controlar sua amiga, que é assombrada por uma criatura fruto de sua experiência.

Martyrs (2017) O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)
Apesar de sim, ser um filme com muito sangue, muita tensão, ação e tortura, Martyrs evoca temas extremamente sensíveis em relação à sociedade ocidental e tabus muito específicos, como o abuso físico e psicológico e seus efeitos. Demônios internos são apresentados a todos os momentos como elementos da trama através de criaturas palpáveis, personagens e das ações de cada um/a. Em termos individuais, como com Lucie, há a representação crua de como algo extremo pode mudar o comportamento humano.

Martyrs (2012) O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)
Os efeitos do abuso são extensamente trabalhados ao longo do longa, tanto enquanto voltados a indivíduos, como a grupos específicos (crianças, mulheres, negros, estrangeiros) e a terrível relação histórica que a Europa tem com isso. Ainda hoje a sociedade escolhe de maneira arbitrária a quem voltar seus olhos e de que maneira tratar determinadas fatias da população principalmente no que diz respeito à violência, suas causas e efeitos – assim como suas motivações.

Martyrs (2018) O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)
Um ponto fundamental do filme é a transcendência, é a descoberta do outro lado, que se manifesta dentro de uma névoa de alívio físico e espiritual cheio de críticas às instituições políticas e religiosas ocidentais. Tudo é passível de realização desde que haja um “bom motivo” por trás.

Martyrs (2010) O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)
Martyrs
é uma obra prima contemporânea de um horror cruel e real, cheio de metáfora e mergulhado em um brutalismo próprio à nova leva de incríveis produções francesas do gênero. Não assista o filme como uma apresentação de slides do gore, mas como uma história triste cheia de debates e figuras de linguagem.

Martyrs (2013) O brutalismo das metáforas do novo horror francês (review sem spoilers!)

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