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HQ do Dia | The Sandman: Overture #5

Chegamos à quinta e penúltima parte do passeio de Neil Gaiman J.H. Williams III pelo reino dos sonhos. A mini série que começou a ser publicada em Outubro de 2013 pela Vertigo nos mostra as aventuras de um jovem Sonho enfrentando um desafio de proporções desastrosas: Uma Estrela Insana que ameaça destruir todas as mentes do universo com sua loucura. A proporção desta ameaça põe o personagem em contato com praticamente todo o elenco clássico de Sandman no decorrer da história e nos mostra novas caras na forma dos progenitores do protagonista. Nesta edição, após o confronto com a Estrela, Oneiros se vê preso em um buraco negro de negação da existência e escuridão. É aí que somos apresentados a mãe de Sonho, Noite.HQ do Dia | The Sandman: Overture #5

Assim como fez na quarta edição de Overture com o Tempo, Gaiman veste conceitos abstratos e grandiosos como o da Noite ou Escuridão em uma roupagem familiar e pessoal. O autor brinca o tempo todo com as relações familiares entre Sonho, sua mãe e o restante de sua família em um dos diálogos mais inteligentes e divertidos de toda a mini série. Noite, apesar de sua imensidão e magnitude é uma mãe assim como a sua e tudo que ela quer é proteger seus filhos, mas isso tem de ser feito do jeito que ela quer – quem nunca passou por uma situação dessas? Gaiman, através de um diálogo curto, simples e totalmente inteligível explora as relações entre Delírio, Desejo, Destino Sonho como se estes conceitos etéreos fossem de fato membros da mesma família, com temperamentos, agendas e motivações distintas e conflitantes. Mas a história não fica somente nesta DR familiar entre Sonho e Noite. Enquanto isso, a ameaça da Estrela Insana destrói o universo e o impagável Gato (uma das encarnações de Sonho) tenta salvar o que pode no meio deste caos. Além disso ainda sobra espaço para presenciarmos finalmente o encontro entre dois opostos: Sonho e Destino. Novamente Gaiman usa e abusa das alegorias familiares para apresentar este importante coadjuvante na mitologia de Sandman e o usa como ferramenta para alavancar o clímax final da próxima edição de Overture. Analisando friamente a quinta edição é a mais direta e movimentada de Overture até o momento. Apesar dos diálogos predominarem, temos transições entre situações, uma subtrama na forma do Gato e da personagem Hope e todo um pano de fundo envolvendo os Perpétuos. Gaiman ao mesmo tempo em que explora as relações familiares entre este elenco com maestria, dá movimento e fluidez a história e toca em pontos importantes sobre o que cada um dos personagens representa na mitologia da obra.

A arte de J.H. Williams III no decorrer de toda esta mini série já é um dos trabalhos mais bem executados de toda a sua carreira em quadrinhos. Mesmo que você não seja fã da mitologia de Sandman vale a pena pegar qualquer uma destas cinco edições e folhear as páginas, pois tratam-se de obras de arte sequencial que merecem ser apreciadas. Nesta quinta edição de OvertureTerceiro brinca com o conceito da Noite, mostrando o reino da escuridão com enquadramentos vaginais e cores acolhedoras e sombrias. O artista entende perfeitamente a sensação de conforto e aprisionamento de Oneiros nos domínios de sua mãe e isso se reflete na caracterização da personagem e principalmente no layout das páginas nesta sequência. Da mesma forma acontece na presença de Destino. A representação do personagem infecta as páginas da revista e transforma abruptamente a apresentação das sequências em um verdadeiro livro de histórias. Saímos então da envolvente e acolhedora escuridão para o nítido e claro destino. São sequências totalmente opostas, mas igualmente abstratas que só poderiam ser colocadas em um papel desta forma por um artista do nível de Williams III.

Overture #5 já é a edição mais movimentada da mini série. Vamos de um buraco negro até o pós-vida e atravessamos o reino do destino tudo na mesma edição até chegar ao fim de tudo. Ao mesmo tempo em que o autor escreve um conto com o escopo “maior que a vida”, coloca estes conceitos em representações de fácil entendimento e explora relações familiares que podem se relacionar a qualquer pessoa. Quem nunca conheceu uma mãe cabeça dura e protetora como Noite? Ou um irmão certinho e metódico como Destino? O autor realiza o casamento perfeito entre o palpável e o abstrato em uma história que fica a cada edição mais fácil de ler e entender, mesmo para novos leitores. Em momento algum deste número o devaneio toma conta da leitura e temos uma história e não um amontoado de diálogos sem propósito. Com uma arte magnífica e diálogos deliciosos Overture é leitura recomendada não só para fãs da obra de Gaiman ou da arte de Williams III, mas para qualquer leitor que se interesse por um história com sensibilidade artística, sem pedantismo ou enrolação.

Leia todas as resenhas da saga “The Sandman: Overture”:

The Sandman: Overture #1
The Sandman: Overture #2
The Sandman: Overture #3
The Sandman: Overture #4

E aí, curtiu?

Escrito por Igor Tavares

Carioca do Penhão. HQ e Videogames desde 1988. Bateria desde 1996. Figuras de ação desde 1997. Impropérios aleatórios desde 1983.

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