HQ do Dia

À Deriva

O mundo quando você completa 18 anos é uma porcaria. Você ainda é adolescente e se vê em meio a escolhas que podem permear a sua vida por muitos anos. É a incerteza de não saber o que está certo, o medo de não saber lidar com o dia seguinte, a palavra mal falada que pode tirar um futuro brilhante. Você é moldado durante 15 anos em escolhas para se tornar o melhor dos melhores e ser o cristal diferenciado do mundo. Essas incertezas estão na cabeça de qualquer pessoa quando chegamos nessa idade, mas poucas pessoas traduziram ela tão bem quando Bryan Lee O’Malley no gibi “Á Deriva”.

O quadrinho “Á Deriva” foi lançado em 2002 e é o primeiro grande trabalho de O’Malley publicado pela Oni Press nos Estados Unidos e recentemente lançado no Brasil pela Geektopia. O gibi conta a história de Raleigh, uma garota que acredita que sua alma foi roubada por uma gato. Um fato curioso, porém o gatilho para falar de problemas que os adolescentes de todo mundo vivem. A pressão por se tornarem perfeitos em um momento cheio de incertezas.

Ao abrir a HQ é perceptível o traço bastante rústico do autor canadense. Ele ainda não tem toda a técnica e o traço limpo que o fez conhecido em “Scott Pilgrim”. O trabalho por ser tão visceral deixa ainda mais latente o quanto esse gibi tem de potência em sua mensagem. Falar sobre ansiedade, problemas psicológicos, de confiança é sempre difícil, mas ele deixa tudo simples e faz com que muita gente se sensibilize com o texto. O que me marcou em “Á Deriva”, é que a história pode ser facilmente reconhecida em pessoas que passaram pela transição da adolescência para a fase adulta no início dos anos 2000.

Ao analizar Raileigh, percebemos uma garota com uma desilusão amorosa, pais separados, sem problemas financeiros na vida e muito potencial, uma adolescente normal para o padrão daquela época, ao mesmo tempo no contexto é talvez o momento que nos sentimos sem confiança ou identidade. Ela se depara com três colegas de escola que estão em uma trip de carro entre o EUA e o Canadá e acaba embarcando na viagem para tentar encontrar algo novo. Durante a jornada,  ela descobre que não é a única pessoa que tem falhas e que até os novos amigos que está admirando também tem medos e problemas na vida.

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Durante a leitura de “Á Deriva”, vamos nos deparando com vários questionamentos da personagem. Algo relevante para nossa vida e como lidamos com toda a pressão dessas mudanças, isso sempre me remete ao Emocore – que aconteceu durante as décadas de 1990 e 2000 (nos EUA) -, quando o tom de questionamento sobre como lidar com depressão, desilusões, medos e inseguranças, subiu. Hoje se reflete em grande parte das pessoas que estão com 30 anos. Quando O’Malley abre a caixa de pandora no forma de gibi, ele está alertando que estamos todos sendo talhados para viver um mundo de sonhos e muitos de nós podemos nem sair da casca.

É incrivelmente e desgraçadamente louco o quanto esse gibi me fez lembrar de momentos da minha vida e hoje enxergo que muito da pressão que fiz para alcançar um sucesso profissional, me fez abrir mão de outras experiências. Somos uma geração que vive a síndrome do Peter Pan em que não sabemos ao certo quando somos adultos, crianças ou adolescentes. Vivendo um mundo entre telas e tentando fazer com que nossas vidas sejam perfeitas.

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O que me leva ao ponto: essa geração, da qual faço parte, é uma das que mais lida com problemas e transtornos psicológicos por conta da dificuldade de conseguir criar uma identidade. Um grande turbilhões de emoções que nos joga de uma lado para outro, sem a chance de defesa.

Bryan Lee O’Malley conversa demais com essa geração “antes dos 2000”, pessoas que tiveram um pouco mais de estrutura e pais que jogavam todas suas expectativas nas costas dos filhos. Quanto de nós já ouvimos “Eu quero que meu filho seja modelo quando crescer”, “ele pode ser jogador de futebol” ou “vai ser médica”. No fim das contas, a pessoa por diversos motivos não atinge o objetivo que foi talhado por terceiros e vive uma vida de tristeza, ou até pior, atinge e não é feliz porque nunca perguntaram se era isso que ela queria. 

“Á Deriva” deixa uma mensagem positiva em suas páginas. Pular em um mar de incertezas pode ser estranho e ruim, sua alma pode ser roubada por um gato e nem sempre o que foi quebrado precisa de concerto. Você pode viver e encontrar um salva-vidas para te tirar desse lugar. Pessoas que te entendem, lugares onde você está seguro em um mundo possibilidades. A sensação de liberdade e de se sentir vivo é muito mais poderosa. São perspectivas que mudam tudo dentro da cabeça. O’Malley entende isso e esse quadrinho é incrível por essa mensagem.

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