Proibido Ler Entrevista

Kurt Busiek – Celebre 20 anos de Astro City com o criador da HQ

De Conan a Indiana Jones. De Lanterna Verde a Homem de Ferro. De Vingadores à Liga da Justiça (incluindo o incrível crossover entre as duas equipes). Kurt Busiek já viveu, criou, trabalhou e estabeleceu muitos conceitos hoje tidos como fundamentais em séries de revistas em quadrinhos.

Apesar de uma carreira de mais de trinta anos recheada de momentos memoráveis (incluindo alguns prêmios Eisners e Harveys) trabalhando com histórias em quadrinhos, o autor continua se reinventando e recentemente lançou via Image Comics a nova franquia de fantasia chamada “Autumnlands” (resenhada aqui).

Kurt disponibilizou um pouco de tempo para uma entrevista exclusiva e abaixo, o roteirista apresenta “Autumnlands” ao público Brasileiro, além de nos contar sobre a comemoração de 20 anos e sobre o futuro de uma de suas criações mais aclamadas – “Astro City”.

PL: Primeiramente vamos falar sobre “Autumnlands“. Como este é um trabalho em quadrinhos relativamente novo e muitas pessoas aqui no Brasil podem não conhecer, você poderia dar um resumo da trama para quem ainda não teve a oportunidade de ler?

Kurt Busiek: Trata-se de uma vasta série de fantasia épica em um mundo de seres animalescos. Mas eles enfrentam uma crise crescente – a magia está se esgotando, e se ela acabar levará junto toda esta civilização. Então um pequeno grupo de magos e bruxas fazem uma desesperada e perigosa aposta, invocando um feitiço enorme e poderosíssimo para voltar no tempo antes da magia existir, resgatar o chamado “grande campeão” que, segundo suas lendas, “liberou” a magia em seu mundo no início, e trazê-lo ao presente para que ele possa fazer isso novamente.

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Bem vindos a Autumnlands no traço de Benjamin Dewey.

O feitiço é tanto um sucesso quanto um desastre – Eles conseguem o  campeão, mas ele não é nada do que eles esperam, e ao mesmo tempo eles destroem uma de suas cidades flutuantes no processo, se colocando em perigo mortal. Como o campeão e os magos reagem a isso é o início da história da série.

E a longo prazo alguém deverá descobrir a verdade sobre porque o mundo deles está desse jeito, como foi criada a magia e que tipo de segredo está por trás disso tudo. Eles querem consertar as coisas, mas salvar este mundo pode exigir uma mudança mais radical do que qualquer um pode imaginar.

PL: O lindo visual antropomórfico do elenco é a primeira coisa que chama a atenção em “Autumnlands”. Isso foi um conceito estabelecido desde a concepção do projeto ou foi uma ideia incorporada depois?

Kurt Busiek: Oh, eu já sabia que seria tudo antropomórfico desde o início, sim. Esta revista cresceu na minha cabeça partindo de uma vontade de fazer o tipo de coisa que eu adoro em “KAMANDI” sem simplesmente escrever “KAMANDI”. Então brinquei com essa ideia por anos antes de finalmente descobrir como eu poderia fazê-la do jeito que eu gostaria de fazer. Mas as “pessoas animais” estavam lá desde o início. Foi a parte da magia que veio depois…

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O visual antropomórfico de Autumnlands por Benjamin Dewey.

PL: “Autumnlands” mistura perfeitamente o chamado gênero “espada e magia” com um pouco de política e também ficção científica. Ela me lembra um pouco alguns desenhos de aventura da década de 1980 nos quais magia e tecnologia co-existiam e de certa forma faziam um perfeito sentido. Quais foram suas inspirações para criar este tipo de universo?

Kurt Busiek: Como disse, eu comecei pelo meu amor por “Kamandi” de Jack Kirby. Então eu estava tentando achar um novo jeito de abordar o que eu gostava a respeito desta série e eu brinquei com diferentes ideias até ler (o romance) “A agonia da Terra” de Jack Vance, e perceber que se eu pegasse essa ideia do “povo animal” e a colocasse neste cenário meio “Vanceano”, todo cheio de rococó e de alta fantasia, cheio de texturas e ornamentos eu teria o resultado que queria na revista.

Então, duas grandes influências foram Jack Kirby e Jack Vance. No meio do caminho, porém, adicionamos outras influências, desde “Terry e os Piratas” (Tira publicada em jornais americanos nas décadas de 1930 e 1940) até “Conan” e outras coisas, até incluindo as revistas do meio do século como “The Saturday evening post” que inspiram essas pinturas em páginas duplas com os textos que nós fazemos geralmente nas páginas 2 ou 3 de “Autumnlands”.

PL: Adoro que  na maioria das edições você utiliza o jovem Dustin como nosso ponto de vista para a história. Isso traz um sentimento forte de espanto e deslumbramento, que acho que é uma marca registrada em muitos dos teus trabalhos. A medida em que a revista avança pode haver alguma mudança de ponto de vista narrativo?

Kurt Busiek: É possível que vejamos as coisas sob o ponto de vista de outra pessoa eventualmente – Eu gosto da ideia de ver a história do ponto de vista de “Goodfoot” (a traiçoeira Raposa que trabalha como vendedora e compradora de mercadorias raras na revista) por exemplo – mas na maioria do tempo, iremos permanecer com Dusty. Ele foi desenhado para ser nossos olhos e ouvidos nesta série. E eu faço a maior parte das minhas mudanças de pontos de vista em “Astro City”!

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O jovem Dusty é nossos olhos e ouvidos no mundo de Autumnlands.

PL: Benjamin Dewey é um verdadeiro achado. Você tinha algum visual específico em mente para este gibi durante a concepção ou o estilo de Ben simplesmente se encaixou na sua visão para “Autumnlands”?

Kurt Busiek: Eu realmente não tinha um visual em mente. Eu sabia que teríamos cidades flutuantes de vime e robes sofisticados e essas coisas, mas ainda não estava decidido em como isso deveria ser apresentado. Então olhamos por aí e vimos muitos artistas diferentes e quando vi algumas artes antropomórficas de Ben, percebi que ele faria um trabalho muito bom. Atualmente, é claro, ele fez de “Autmunlands” um título tão pessoal que fica té difícil imaginar outra pessoa desenhando (ou qualquer outra pessoa colorizando que não seja Jordie Bellaire), mas quando eu estava começando eu não tinha ideia. Mas concordo com você, Ben é um milagreiro e colocá-lo neste título foi uma sorte enorme.

PL: Toda vez que leio uma edição de “Autmunlands” (e acontece na maioria dos títulos que você escreve) tenho a impressão de que você planejou tudo com muita (muuuuuuuita) antecedência ao roteiro daquela edição específica. É como se este mundo já estivesse todo ali já escrito e você estivesse simplesmente tirando algumas fotografias destes eventos e escrevendo elas ali. Esse é seu método de abordagem narrativa ou estou viajando?

Kurt Busiek: Eu gostaria de escrever desta forma.

Mas não, geralmente, eu já sei como é o panorama geral, mas não como esta história específica vai se moldar ou que detalhes deste mundo teremos de estabelecer enquanto contamos a trama. É como se soubéssemos o mapa da estrada, mas não sabemos que cidades estarão pelo caminho, ou o que encontraremos se nós pegarmos um desvio. Então descobrimos muita coisa a medida que vamos escrevendo, o que mantém tudo vivo e envolvente, no entanto algumas vezes fica difícil encaixar tudo isso no espaço que temos…

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Astro City completa 20 anos na edição 26. Capa de Alex Ross.

PL: A edição número 26 do volume atual de “Astro City” celebra os 20 anos de publicação da série. E nós voltamos ao sonho do Samaritano mostrado na primeira edição da revista. Como este sonho evoluiu através do anos?

Kurt Busiek: Isso é basicamente sobre o que é a história. Eu não fiquei pensando sobre o que o Samaritano estava sonhando durante esses anos, mas quando percebi que nosso aniversário de 20 anos estava chegando, eu estava falando com Alex (Ross – o artista das capas de Astro City) sobre o que deveríamos fazer em termos de história. Ele disse que deveríamos focar no Samaritano e eu comecei a pensar “Hey, como será que são os sonhos dele atualmente?”.

Então tive que resolver isso. Ele fez amizades, desenvolveu novas estratégias para se ajustar, mas ele ainda está focado em sua missão o tanto quanto pode, então comecei a pensar sobre sonhos estressantes e a história cresceu a partir daí.

PL: Apesar das técnicas do time criativo tenham naturalmente mudado durante os anos, “Astro City” se manteve fiel a sua proposta inicial. E a cada mês ainda temos abordagens frescas sobre esta mesma premissa. Então qual é o segredo em manter este caminho fértil por todos estes anos?

Kurt Busiek: Eu não sei se há um segredo. Eu somente tenho tantas ideias para histórias que nunca é um problema ter algo para colocar no gibi. Ainda existem esboços de histórias que fiz na época em que estávamos apresentando a ideia do título para a editora que ainda não fizemos. Mas iremos fazer.

De qualquer forma, se conseguíssemos fazer “Astro City” mensalmente durante este tempo todo, estaríamos ultrapassando a edição número 240, ao invés de estarmos nos aproximando da centésima edição da revista. Então não posso afirmar estar trazendo ideias todo o mês. Mesmo assim, nós só continuamos a contar histórias e misturamos o tipo de histórias que gostaríamos de contar e esperamos manter as pessoas interessadas.

E atualmente, nós somos mensais, e os prazos podem ser desgastantes às vezes, mas mesmo assim não temos problemas com material para as histórias. Parece que eu não consigo escrever os roteiros tão rápido quanto me ocorrem as ideias para as histórias…

PL: É muito bom ler uma série contínua na qual os personagens envelhecem de fato e tem de conviver com o peso do tempo. É mais fácil escrever este tipo de história como de “Quarrel” e “Crackerjack” agora em 2015?

Kurt Busiek: Eu teria escrito de forma diferente dez anos atrás, sim. Quando planejei focar nesses dois personagens e no seu relacionamento, o roteiro não envolvia nada dessa coisa de envelhecer, porque achei que chegaríamos nessa história muito antes do que a fizemos (o arco envolvendo os dois personagens foi publicado este ano). Mas o tempo passou, e eu fiquei doente muitas vezes, o que nos atrasou, e eventualmente eu percebi “Cara, eles estão ficando muito velhos para serem acrobatas. Se pretendemos contar essa história é melhor chegarmos lá logo!”.

Então comecei a trabalhar na história e percebi que o fato deles estarem envelhecendo deu a narrativa uma dimensão totalmente nova e poderosa. Não é algo que você vê os super heróis fazerem geralmente. Alguns deles já são apresentados como velhos, mas você realmente não os vê envelhecendo enquanto vão vivendo. Então foi bom ter a oportunidade de explorar isso também.

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Parte do imenso elenco de Astro City, no traço de Alex Ross.

PL: Eu sou frequentemente perguntado por novos leitores por onde começar a ler “Astro City” e geralmente digo que eles podem pegar qualquer início de arco da série antiga ou da nova e entender a trama por causa da maneira em que você alterna entre as histórias. Agora que estamos vivendo a era dos títulos mais “amistosos para novos leitores”, como você equilibra os roteiros para não deixar o título se tornar hermético?

Kurt Busiek: Eu espero que através de boas histórias. Toda vez que você conta uma história, você tem que mostrar aos leitores quem são os personagens, sejam eles personagens completamente novos como Marissa Cowper, ou personagens antigos e já estabelecidos como Quarrel e Crackerjack. Se eu estivesse escrevendo uma série contínua com um grupo singelo e fechado de protagonistas, isso poderia se tornar complicado, porque relembrar os leitores edição após edição sobre os personagens quem é quem, quando você sabe que a maior parte do público já sabe quem eles são, pode se tornar uma obrigação. Mas em “Astro City” nós sempre mudamos de personagem para personagem, então fica fácil para mim lembrar, “Ei! Tenho que introduzi-los de maneira clara!”.

Se você assistir muitos programas de TV episódicos ou ler séries de livros, você verá os autores ali fazendo isso também – eles lembram o público quem são estes personagens e quais são suas relações no primeiro ato, porque podem haver novatos chegando pela primeira vez para experimentar esta história. E, na maior parte do tempo, essa apresentação é feita fazendo os personagens agirem como eles são, e fazer coisas que demonstrem quem eles são e como se sentem em relação aos outros. É parte do trabalho.

Não é algo que eu considero difícil; Eu fico um pouco incomodado que existam outros quadrinhos que não se incomodam em fazê-lo. Então se eu pego algo para ler no início de um arco de história e eu não souber quem são aqueles personagens ou o que está acontecendo, eu vou largar aquele título novamente. Contar uma história para um público envolve fazer inícios adequados, atrair o leitor para a história. E fazê-los perceber sobre quem eles estão lendo é uma parte disso.

CrackerJack e Quarrel

Em Astro City podemos ver heróis como CrackerJack e Quarrel envelhecendo com o tempo.

PL: Todos os fãs tem seu personagem favorito em “Astro City”, mas estamos todos intrigados sobre o Homem Quebrado (tradução livre para o original “Broken Man”) e como ele conecta todas aquelas histórias. O que você pode nos dizer sobre o futuro da série e este misterioso personagem?

Kurt Busiek: Não muito! Eu posso te dizer que ele é bem importante, mas não quero revelar muita coisa. Ele não é inteiramente racional (e é isso que o torna “quebrado”), mas ele tem ciência de uma ameaça bastante real e está fazendo o seu melhor para detê-la. Se ele vai conseguir, bom, você terá de ler para saber.

Mas aprenderemos mais sobre ele e sua missão com o tempo.

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O insano Homem Quebrado no traço de Brent Anderson.

PL: Apesar de você ter afirmado muitas vezes que tem uma ideia de como seria um final para “Astro City” (e que está lentamente direcionando a história para ele), parece que essa série poderia continuar para sempre. Você concorda?

Kurt Busiek: Bom, não para sempre, pois eventualmente, Alex, Brent e eu iremos todos morrer. Mas em teoria, claro. “Astro City” é um cenário, é um lugar. Em teoria, você poderia tratá-la comoo universo Marvel ou DC, e fazer 30 ou 60 títulos mensais sobre os personagens. Mas isso não é o que queremos fazer, então parece apropriado terminar com isso alguma hora com algo que tenho o sentimento de um final.

Apesar de nós podermos sempre voltar e fazer mais histórias depois se quisermos. É a nossa revista. Quem poderia nos impedir?

PL: Eu noto que algumas vezes você conta histórias muito interessantes sobre a indústria de quadrinhos na sua conta no Twitter. Você já considerou escrever essas histórias e lançar em um livro ou algo do tipo?

Kurt Busiek: Não realmente. Eu sou interessado na história dos quadrinhos como leitor, e uso isso como combustível para as minhas histórias, mas não estou interessado em escrever um livro de história. Não é isso que me motiva a gastar meu tempo. Se eu tivesse tempo para fazer algo desse tipo, eu provavelmente usaria esse tempo para criar mais histórias.

Eu amo escrever histórias.


Gostaríamos de agradecer imensamente Kurt Busiek pode ceder um pouco de seu tempo para esta entrevista.

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