A desvalorização das mulheres nos quadrinhos
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A desvalorização das mulheres nos quadrinhos

Você sabe o que são “mulheres em congeladores” (Women in Refrigerators)?

Trata-se de um termo usado pelos fãs de quadrinhos para descrever a narrativa comum onde uma mulher é brutalmente assassinada em prol do desenvolvimento da história de um personagem masculino. Em sua extensão, abrange também toda e qualquer violência contra personagens femininas, seja física, psico ou moralmente, sem que aquilo seja necessário para seu desenvolvimento como personagem.

O termo se popularizou na internet por meio do site de mesmo nome criado por Gail Simone em 1999. É uma referência direta à revista Lanterna Verde #54, escrita por Ron Marz, onde Kyle Rayner chega em seu apartamento e encontra sua namorada, Alex DeWitt, morta e estocada na geladeira.

Simone criou o site ao perceber que a maior parte de suas personagens favoritas eram diminuídas, estupradas e/ou assassinadas desnecessariamente. Ela enviou e-mails para diversos autores e artistas da área questionando isso, pois queria entender o motivo pelo qual esse tipo de coisa estava acontecendo. Gail questionou se isso apenas implica que o sexo feminino não era importante na indústria.

A desvalorização das mulheres nos quadrinhos

Esse trope foi criticado por muitos, sendo até mesmo motivo de chacota em fóruns online. Alguns achavam que era extremismo. Outros, apenas coincidência.

Existe sexismo na cultura pop e na indústria dos quadrinhos. Isso não é uma questão a ser debatida.  Durante muito tempo as mulheres não passavam de estereótipos, fetiches e escadas para o crescimento dos personagens masculinos.

O professor Jeffrey A. Brown questionou isso em seu livro “Curvas Perigosas: heroínas de ação, gênero, fetichismo e a cultura pop”, ao apontar que personagens masculinos costumam ter mortes heroicas e retornos gloriosos, enquanto personagens femininas são assassinadas ou irreversivelmente machucadas de maneira fútil e muitas vezes sexualizada.

Ele usa como exemplo a famosa graphic novel “Batman: A Piada Mortal” de Alan Moore, onde o Coringa violenta Barbara Gordon apenas por prazer, o que resulta na heroína ficando presa a uma cadeira de rodas por mais de uma década.

Isso fez com que pessoas ao redor do mundo exigissem que personagens femininas fossem melhor representadas, que fossem mais do que um simples “tesão” para leitores masculinos. Todos se lembram da polêmica capa variante da Mulher-Aranha feita por Milo Manara. Não questiono aqui se a pose era possível, pois isso pouco importa neste caso, questiono a necessidade de expor Jessica Drew em tal pose. É possível encontrar alguma relevância? Ou, para os que apoiam a capa, é apenas isso que a personagem representa?

Estamos em 2015 e essa questão ainda é trazida à mesa em diversas discussões. É realmente necessário ter protagonistas femininas? Podemos ter histórias interessantes onde mulheres sejam o foco? O público feminino de quadrinhos tem algum impacto na indústria?

A resposta é sim, para estas e muitas outras questões. É importante. É necessário.

A desvalorização das mulheres nos quadrinhos

Mulheres são mais do que objetos. Nós importamos. Importamos como pessoas e como consumidoras. No mês de Março, as revistas com protagonistas femininas foram líderes em vendas digitais, e isso diz muito. Nós temos agora a Thor, vendendo mais que sua versão masculina. Nós temos Silk, que foi a revista mais vendida de Março pela Marvel. Temos Lumberjanes, da Boom!Studios, voltada para o público infantil. Nós temos Capitã Marvel e temos Mulher-Aranha.

Leia mais: Personagens femininas lideram as vendas de HQs digitais

A desvalorização das mulheres nos quadrinhos

Lembrando que não são somente as mulheres que são importantes, mas todas as minorias oprimidas. Representatividade importa. Por isso temos Ms. Marvel com Kamala Khan, destruindo barreiras religiosas e culturais. Batwoman, canonicamente e abertamente homossexual. Temos Tempestade, uma protagonista negra. Temos Angela – Assassina de Asgard com sua companheira Sera, que é uma mulher transexual negra.

O nome “Gail Simone” parece familiar? Além de criadora e questionadora deste trope, Simone sabe sobre o que fala, pois trabalha na área. Atualmente ela é a cabeça de Batgirl em uma pegada muito mais jovem e leve. Ela escreveu Aves de Rapina, Deadpool, entre outras coisas. É um grande nome na indústria. Nós temos também Sana Amanat, editora da Marvel e co-criadora de Kamala Khan; Temos Sara Pichelli, co-criadora de Miles Morales, o primeiro Homem-Aranha negro e latino; Kelly Sue DeConnick, responsável pela Capitã Marvel desde 2012 para a Marvel, enquanto escrevia Pretty Deadly e agora Bitch Planet para a Image Comics; G. Willow Wilson, roteirista de Ms. Marvel e co-criadora da Kamala Khan; e Marguerite Bennett, roteirista de Angela – Assassina de Asgard, estão escrevendo A-Force para a Marvel, revista que deve ser a equipe principal da editora após o evento “Guerras Secretas”. As mulheres estão crescendo cada vez mais na indústria.

A desvalorização das mulheres nos quadrinhos

Você pode questionar “Ué, se já tem tudo isso, pra que mais?”

Porque vivemos em uma sociedade onde isto ainda é uma questão e a maioria oprime em vez de ajudar. São pequenas coisas comparadas à imensidão de preconceito que ainda temos que lidar.

A sociedade está longe de ser perfeita, mas se pudermos arrumar as coisas pouco a pouco, nem que seja com um passo de cada vez, chegaremos lá. A grande mídia voltada para a cultura pop tem que ser um exemplo. Crianças aprendem com isso, adultos aprendem com isso. Não digo para ocultarmos o que acontece, mas digo para mostrarmos que existe e o quão errado é.

Nós somos mais que corpos em congeladores. Somos mais que um corpo para o prazer. Somos mais que um simples caso amoroso.

Nós somos Mulheres.

Veja também: Não, a Viúva Negra não é uma vadia!

E aí, curtiu?

Escrito por Charlie Grandchamp

Devoradora de cultura pop que não se importa em levar spoiler. Sonha em ser o cara da locadora. Carteira assinada na comunidade LGBTQ+. Realmente acredita que é a Garota Esquilo.

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