O Pagador de Promessas (1962) | Virtuoso pioneiro do cinema nacional

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Em 2019, o cinema brasileiro esteve em foco com o lançamento de “Bacurau”, o excelente e original longa de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Desde “Central do Brasil” (1998), de Walter Sallers, o cinema nacional não ficava tão em voga no mundo.

Obviamente, é animador ver o País bem representado no cenário mas, tão injusto quanto a premissa que não há filmes nacionais bons, é assumir que “Bacurau” seja pioneiro nas boas produções.

Importante ressaltar que é indiscutível a excelência técnica e artística de “Bacurau”, o qual já é um marco na trajetória cinematográfica nacional. Porém, o filme vem na linha sucessória de grandes produções do cinema brasileiro.

Um dos nomes que integra esta lista de predecessores é “O Pagador de Promessas”, filme de 1962, com roteiro e direção de Anselmo Duarte – que também foi ator e dirigiu produções como “As Pupilas do Senhor Reitor” (1961), “Um Certo Capitão Rodrigo” (1971) e “Independência ou Morte” (1972). O elenco é composto por atores e atrizes notáveis como Glória Menezes, Othon Bastos, Norma Bengell e Antônio Pitanga (pai da atriz Camila Pitanga).

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Inspirado na peça homônima de Dias Gomes, “O Pagador de Promessas” recebeu a Palma de Ouro em Cannes, venceu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cartagena (Colômbia), bem como, o Prêmio Golden gate nas categorias Melhor Filme e Melhor Trilha Sonora (por Gabriel Migliori) no San Francisco International Film Festival. Não obstante, em 1963, concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

O filme traz uma narração linear sobre a trajetória do interiorano Zé do Burro em busca de pagar uma promessa feita para salvar a vida de seu melhor amigo, o burro Nicolau. Na companhia de sua esposa Rosa, o protagonista faz uma peregrinação até a igreja de Santa Bárbara, em Salvador, carregando uma cruz de madeira. 

Os créditos iniciais mostram a longa caminhada do casal e as intempéries enfrentadas por eles – com poéticas cenas em visão-de-pássaro alternadas com ‘contra-plongèe’ – até a chegada em Salvador. A história segue nos diversos percalços encontrados por Zé do Burro para realizar sua promessa: ao saber que a promessa foi feita num terreiro de Candomblé, o padre proíbe sua entrada na igreja. 

A partir deste ponto, desenvolve-se o tema central da trama: o preconceito com religiões de matriz africana, bem como, o caráter doutrinador-dominante do cristianismo católico quanto à prática de evangelização compulsória, herdada do período colonial. O discurso do padre, e demais membros do clero, oscilam entre condescendência e punitivismo, de forma a submeter o protagonista aos dogmas da Igreja Católica.

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Mesmo após ser acusado de heresia, Zé do Burro se mantém firme à promessa e esta resistência traz uma repercussão que incorpora novos elementos à narrativa. Religião é o ponto principal em “O Pagador de Promessas“, entretanto, também estão presentes temas como traição, oportunismo, sincretismo e diferenças sociais. 

Quando os relatos da tal promessa corre a cidade e atinge o frenesi, os jornais locais e até mesmo canais de televisão acampam na escadaria da igreja. Zé do Burro é entrevistado mas tudo que diz é distorcido, atribuem um viés ideológico e usam para fins políticos. As manchetes são feitas de forma a apresentá-lo ora como transgressor, ora como messias – uma pouco sutil ilustração do sensacionalismo midiático.

A medida que a história encaminha-se para a conclusão, o impedimento torna-se uma disputa entre povo na defesa de Zé do Burro e os representantes da Igreja de Santa Bárbara. É impossível desassociar este arco final cenário sócio-cultural da classe dominante elitista versus as a população desfavorecida e subjugada. Neste momento, a promessa de Zé do Burro deixa de ser individual para tornar-se uma causa coletiva, na sequência ápice do filme.  O final é trágico, alegórico e carregado (literalmente) de simbologias. 

A referência mais óbvia é a própria história de Cristo, aqui representado pelo protagonista, com seu carisma, bondade e o simbolismo de sua morte como expurgo e remissão. 

É absolutamente interessante a construção do personagem de Zé do Burro (interpretado por Leonardo Villar), sua fé é genuína mas não extrema. Ele é mostrado com uma doce ingenuidade e simplicidade. Percebe-se nele uma lucidez, provavelmente atribuída à honestidade – o espectador pode sugerir que seria mais fácil que Zé Burro fingisse ceder ao padre para cumprir sua promessa, mas não. Isto faz dele um personagem carismático e envolvente, como assim é descrito Jesus Cristo nas escrituras cristãs.

Todavia, uma leitura mais poética e significativa seria ver a cena final como ela é: o povo tomando o que lhe pertence, entrando na igreja e conduzindo Zé do Burro ao cumprimento da sua promessa. A população unida vencendo a classe dominadora que a submete. Sendo assim, Zé do Burro não seria o salvador mas a personificação de um ideal de resistência e coragem de seguir seus princípios.

Em “O Pagador de Promessas” há um retrato intenso da cultura nacional, com ênfase para tradições nordestinas e afro-brasileiras embaladas pela atmosfera suburbana, sem caricaturas ou estereotipação. Quase não há cenografia, a maior parte do filme se passa na própria escadaria da Igreja de Santa Bárbara. Este tipo de encenação in situ remete ao teatro, traz um sentimento orgânico e intimista.

Os elementos cinematográficos são utilizados para impelir a narrativa. Em especial, trilha sonora, posicionamento de câmeras e a fotografia, pela direção do britânico H. E. Fowle, causam imersão na mesma medida que dão o tom dramático do filme. Cada frame foi pensada exatamente como ela é para que houvesse completa expressão do que aquele momento representa visual e sensorialmente. 

Assistir ao “O Pagador de Promessas” é ter contato com um clássico do cinema nacional e internacional. Mais que uma referência, um alicerce do audiovisual brasileiro.

Em 2011 foi lançada a graphic novel de “O Pagador de Promessas”, baseado no texto original de Dias Gomes e adaptado por Eloar Guazzelli.