Antes de começar a ler a resenha um aviso: Se você não curte as “viagens” de Grant Morrison e acha a maioria das coisas que o roteirista escreve extremamente confusas/pedantes/superestimadas fuja de Pax Americana. Nesta edição de The Multiversisty o autor entra em modo “Full Morrison”. Então não precisa nem ler o resto do artigo se você não tem paciência para seus conceitos e formatos. Falando sério. Dito isto podemos começa a dissecar a obra.
Antes de mais nada sejam bem vindos a Terra 4 do novo Multiverso DC. Um mundo muito parecido com o nosso, no qual os super heróis são usados em um programa governamental de paz mundial pela administração dos Estados Unidos. A trama nesta edição gira em torno do assassinato do presidente Harley, um dos mais populares governantes do país em anos e o responsável pela implementação da força tarefa super-heroica chamada Pax Americana.
A loucura desta edição começa em seu formato. A história é contada em uma ordem cronológica aparentemente regressiva, no entanto logo percebe-se que as cenas
Os personagens e acontecimentos na Terra 4 são claríssimas referências a uma das obras quintessenciais da nossa mídia. Não cabe a esta resenha estragar a surpresa do leitor ao se deparar com cenas e personagens clássicos que são homenageados e/ou corrompidos pela imaginação do autor. No entanto vale ressaltar o uso de uma das HQs mais importantes da história da humanidade para contar esta história.
Os diálogos em Pax Americana, assim como todo o roteiro parte de um pressuposto de que o leitor já sabe quem é quem e o autor não perde tempo algum com explicações e apresentações. Da série The Multiversity, Pax Americana é a revista menos amistosa com seu público. Tudo aqui é intencionalmente jogado na sua cara sem explicação e isso força uma releitura para total compreensão de todo o contexto. Isso pode ser visto como um ponto negativo ou como um incentivo a um aprofundamento do público em suas 38 páginas.
Vamos falar de Frank Quitely então. Esta edição nos coloca a relembrar uma das colaborações mais frutíferas entre roteiro e arte dos últimos anos. Quitely continua o mesmo de Novos X-Men, Grandes Astros Superman e Flex Mentallo. A diagramação do artista nesta edição tem inovações sutis e geniais como a cena de diálogo nas escadas ou o lamento no cemitério que deixam sua marca na mente do leitor e enriquecem demais a loucura do roteiro. O número 8 é um mantra recorrente em quase que todas as páginas da HQ e é ponto central da trama desde seu início. O uso dos quadros para evidenciar o número é feito de maneira brilhante pelo artista. A caracterização desde rostos, cenários (pequenos ou grandes) e vestimentas é perfeita. Quitely alterna sem esforço entre doçura e brutalidade no decorrer da história. A arte choca e emociona a todo o momento. Os ecos fotográficos da obra original homenageada por Morrison em Pax Americana são de extremo bom gosto e em momento algum parecem caricatos ou satíricos. Quitely é perfeito nesta edição.
Pax Americana é uma leitura complicada. Não dá para comparar isso aqui com um Homem-Aranha ou um Batman por exemplo. A HQ é desafiadora e impiedosa com novos e antigos leitores, não muito pelas referências (que são bem claras), mas sim pelo formato e apresentação da história. O sujeito pode nunca ter lido nada da DC e vai ter a mesma dificuldade para “entrar”na história que um leitor de HQ mais experiente. No entanto, após a imersão (que acaba sendo inevitável pela qualidade deste roteiro) a leitura é uma das mais envolventes que o roteirista pôde conceber em The Multiversity. A quebra de formato é estranha e genial como se espera deste autor, as referências e a metalinguagem está lá te fazendo sorrir a todo o momento e a arte é de um bom gosto que raramente se vê no mercado. Pax Americana não é uma leitura para todo mundo, no entanto o mundo precisa de mais coisas como Pax Americana. Se você quiser ter sua mente estuprada completamente, seja bem vindo a Terra 4.


