Para Sempre Alice (2014)

Um retrato sensível do Alzheimer

“Para Sempre Alice” é o filme que rendeu o Oscar de melhor atriz para Julianne Moore e que retratou o Alzheimer com maestria e sensibilidade. O roteiro, baseado na obra de mesmo nome da autora Lisa Genova, aborda a vida da protagonista no trabalho e na família, antes e depois de ser diagnosticada com a doença.

A história da Doutora em linguística, formadora de opinião científica – Alice Howland (Julianne Moore), casada com um grande biólogo Dr. John Howlande (Alec Baldwin) pesquisador especializado em câncer, mãe de três filhos inteligentes e bem sucedidos: Lydia (Kristen Stewart), Tom (Hunter Parrish) e Anna (Kate Bosworth).

Alice é uma mulher incrível e com uma mente brilhante, que vê sua vida mudar completamente no auge de seu sucesso. Aos 50 anos, começa a esquecer coisas simples como nomes de objetos, receitas, endereços, nomes e etc. Durante uma das muitas palestras que costuma ministrar, percebe algo errado – uma palavra lhe falta, como se lhe fosse roubada.

Para Sempre Alice | Um retrato sensível do Alzheimer

Inicialmente, toda essa “confusão” é atribuída ao estresse do trabalho e à menopausa. Entretanto, a situação de Alice piora, fazendo-a esquecer de viagens e seminários importantes, ou até mesmo se perdendo a poucos quarteirões de casa. Só então, ela toma a iniciativa de ir ao neurologista – acreditando estar com um tumor – ela é surpreendida com o diagnóstico de Alzheimer precoce. E o pior ainda está por vir, ela descobre que o gene é herdado de seu pai e que seus filhos podem ser afetados futuramente.

Quando somos introduzidos à trama dos diretores Richard Glatzer e Wash Westmoreland, fica claro que estamos diante de um filme sobre perdas irreparáveis, e não somente sobre a brutalidade da doença – como é possível ver em inúmeros filmes que abordam de forma agressiva os portadores do Mal de Alzheimer. Sendo assim, não espere um filme que te faça chorar por horas a fio. Alice não é um dramalhão, tampouco um filme que lhe deixa com pena da personagem principal.

Para Sempre Alice | Um retrato sensível do Alzheimer

Essa é uma história sobre como o Alzheimer faz você desaparecer diante de si mesmo, a ponto de fazer o público se colocar no lugar da personagem principal. Vemos os pedaços de Alice desaparecendo e sua mente brilhante se apagando, enquanto suas mãos estão amarradas – sempre testemunhando sua força de vontade surpreendente. É impossível não admirar a mulher sugada pelo Alzheimer.

Em uma das cenas mais marcantes – embora todas tenham uma dose generosa de sensibilidade – Alice discursa sobre o Alzheimer, parafraseando a poetisa Elisabeth Bishop:

“A arte de perder não é nenhum mistério. Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perdê-las não é um desastre.” A própria Alice complementa: “Eu não sou uma poetisa. Sou uma pessoa vivendo no estágio inicial de Alzheimer. E, assim sendo, estou aprendendo a arte de perder todos os dias. Perdendo meus modos, perdendo meus objetos, perdendo sono e, acima de tudo, perdendo memórias”.

Para Sempre Alice | Um retrato sensível do Alzheimer

Não existe melhor introdução ao filme e a doença do que essa abordagem. O discurso escrito pela própria Alice – com muita dificuldade – nos mostra o decorrer da história. Através da professora brilhante e bem sucedida, tanto na vida profissional como pessoal, vemos a perda de todas as lembranças que fazem da vida uma conquista e constroem uma identidade. Vemos o que o Alzheimer faz com uma vida.

A caminho da debilidade, Alice esbarra no irritante racionalismo de seu marido, que foca em seu trabalho para não assistir o desaparecimento da pessoa que ama. Um lado que pode ser visto como insensível, se não analisarmos o que o homem sente em relação à degeneração de sua mulher. Também é possível ver a tristeza, gravidez e decepção de sua filha mais velha, Anna, e a força vinda de onde ela não esperava, Lydia Howard a filha mais nova e “rebelde” que se aproxima da mãe no momento mais difícil de sua vida.

Para Sempre Alice | Um retrato sensível do Alzheimer

Esse filme, não pode e nem deve ser lembrado apenas por uma atuação laureada. Em comparação a outros filmes da lista dos indicados ao Oscar de melhor atuação (Garota exemplar, por exemplo), ou até de alguns que ficaram de fora, mas mereciam indicação (Cake), “Para Sempre Alice” é muito mais sensível do que dramático, e isso é o que mais divide opiniões. Afinal, Julianne Moore não dramatiza tanto.

Confira também as resenhas de:  Cake | O sabor amargo da perda e Garota Exemplar – Uma história distorcida e sombria de um relacionamento

O filme é veloz, e em nenhum momento o espectador se sente entediado, é interessante e triste assistir o degradar da vida de Alice em belas imagens e em suas memórias. Sendo muito mais cognitivo do que dramático – assim como a protagonista – em seus poucos minutos de duração, com personagens cruciais e cenários crus, o Alzheimer é retratado com sutileza, sem malabarismos ou grande trilha sonora. Não espere Julianne Moore aos prantos o tempo todo.

Para Sempre Alice | Um retrato sensível do Alzheimer

Você é devorado delicadamente durante o decorrer da trama e assim sucessivamente da doença. O longa mostra o lado do doente, da família, e não somente a doença. Portanto, concluo que Julianne Moore mereceu levar o Oscar para casa – partindo do ponto de vista de que é muito mais fácil retratar um personagem com câncer terminal, por exemplo, do que um personagem com uma doença degenerativa, o que nesse filme foi feito com maestria e sem exageros.

Veja também: Top 10 – Julianne Moore | Muito além de um Oscar

Para Sempre Alice | Um retrato sensível do AlzheimerMostrando a vulnerabilidade e a luta de quem esquece de tudo que confirma a própria existência, o longa é feito para ser visto além dos olhos, assim como o próprio Alzheimer. Alice é construída por Julianne Moore, para ser lembrada além de seu esquecimento. Uma lição de moral em forma de sétima arte, que te ensina a ver as pessoas que desaparecem na doença, e que caem no esquecimento do senso comum e do cinema. “Para Sempre Alice” é sobre o Alzheimer e sobre a arte de reaprender a ser o que se é – diariamente – até que você se esqueça por completo da própria existência.


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