Missão Impossível – Efeito Fallout (2018)

A Redenção de Ethan Hunt

É um fato dizer que Missão: Impossível tornou-se uma das franquias mais rentáveis do cinema contemporâneo, e ainda que date desde o final do século passado, consegue satisfazer em uma plenitude quase certeira um público fiel às impossíveis e perigosas aventuras de Ethan Hunt. Além disso, o compilado de filmes faz questão também de mencionar a série da década de 1960 da qual é inspirada, buscando elementos nostálgicos do gênero de espionagem ao mesmo tempo em que repagina, relê e moderniza as tão aguardadas cenas de ação e as reviravoltas inesperadas – em sua maioria. E ainda que tenha começado de uma forma medíocre, por assim dizer, é impressionante observar a evolução do universo criado por Bruce Geller até culminar em mais uma emocionante aventura com Missão – Impossível: Efeito Fallout.

Ethan (Tom Cruise) parece mergulhar constantemente em uma maré de azar, e no sexto filme da franquia não poderíamos esperar algo diferente. Após uma fracassada missão para recuperar três esferas de plutônio que seriam utilizadas para ocasionar um extermínio em massa na Ásia e no Oriente Médio, o agente da IMF e seus parceiros são forçados a enfrentar as consequência do que poderia ser o prenúncio do fim do mundo. A premissa é epopeica, por assim dizer, mas conversa com inúmeras outras investidas narrativas que trazem como pano de fundo o resguardo da humanidade. O que o público procura aqui, além das obrigatórias cenas de ação, é uma história que fuja um pouco do convencional e nos forneça uma nova perspectiva – e é a partir daí que Christopher McQuarrie, retornando para a franquia após Missão Impossível – Protocolo Fantasma (2011), esboça o seu plano.

McQuarrie dá o tom da obra com uma incrível cena inicial que já abre margens para o retorno de personagens quase esquecidos nos títulos anteriores – e que também funcionam como um presságio do que está por vir. Não é surpresa que Michelle Monaghan retorne como Julia, ex-esposa de Ethan que dá respaldo para seu arco de redenção, e Sean Harris, como Solomon Lane, um ex-agente anarquista da IMF que se alia com um novo grupo muito perigoso conhecido como Os Apóstolos. Ambas as figuras não são desperdiçadas em nenhum momento e carregam momentos de glória tanto para roubarem os holofotes quanto para permitirem uma clara e aplaudível evolução do nosso protagonista.

Diferente dos primeiros longas-metragens, Missão – Impossível: Efeito Fallout se afasta da megalomania exacerbada e vale-se de vários outros elementos para comporem o microcosmos. Cruise, ainda carregando seu imortal carisma – é sério, seu espírito parece nunca envelhecer -, divide grande parte das cenas com outros dois nomes muito bem-vindos, ainda mais para a estética que estamos procurando. Henry Cavill insurge como August Walker, falso aliado da CIA que é mandado para supervisionar a segunda missão de recuperação do plutônio, enquanto Rebecca Ferguson também volta para encontrar uma resolução digna de sua personagem Ilsa Faust, ex-agente do MI6.

Os deslizes poderiam existir em todos os lados, ainda mais considerando o extenso número de personagens que também traz as graças de Alec Baldwin e Angela Bassett. Entretanto, McQuarrie, também responsável pelo roteiro, dispõe-se de um tempo considerável (mais de 140 minutos) para orquestrar pequenos momentos de glória para cada uma das criações, ao mesmo tempo em que desenrola um pano de fundo majestoso. Talvez o problema maior seja a repetição e a duração das sequências de ação, que conversam entre si pelas coreografias e pelos propósitos semelhantes, ou seja, preencher algumas lacunas e tachar, definitivamente, a obra como um filme de ação que não mede esforços para criar uma crescente catarse nos espectadores. Do mais, tudo funciona do jeito que nos é apresentado, sem buscar alguma mensagem muito mais profunda (ainda mais porque esse nem é seu objetivo).

Ethan atravessa o planeta inteiro na procura por aliados, cometendo gafes e acertos que são esperados para a continuidade da complexidade de seu personagem. Cruise, como supracitado, faz um incrível trabalho principalmente pela química que cria ou mantém com seus colegas de cena – até mesmo o improvável encontro entre ele e a Viúva Branca (Vanessa Kirby), responsável pelas negociações do mercado negro de armas da Europa e filha de Max (aquela do primeiro filme que realiza inúmeros acordos com o herói). Ambos trazem expressões ambíguas para as telonas à medida que trocam entre si algumas alfinetadas e diálogos surpreendentemente inteligentes que refletem a total falta de escrúpulos e caráter de ambas as partes.

Se o filme consegue superar as expectativas quanto ao desenrolar da história, não consegue se desvencilhar dos clichês, inclusive no tocante ao terceiro e último ato: como podemos imaginar, Hunt e sua equipe conseguem salvar o mundo de uma explosão nuclear nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, levando a audiência a um estado de catarse máximo antes de colocá-la numa angustiante paz. Seria interessante ver uma perspectiva mais original, ainda que não prezasse pelo caos e pela destruição; entretanto, ainda nos moldes formulaicos de obras do mesmo gênero, tudo é satisfatório e nos deixa prontos para mais uma aventura.

Missão – Impossível: Efeito Fallout tem grandes chances de ser considerado a melhor entrada da franquia – e não é por falta de motivos. Ainda que os deslizes existam e falte um pouco de exploração de seu incrível potencial, McQuarrie e Cruise são os principais nomes a brilharem na produção, seja pelas referências e investidas clássicas que emulam o próprio universo, seja pelo mergulho emocionante ao qual somos apresentados.


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