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HQ do Dia | Tokyo Ghost #1

Rick Remender é um autor imprevisível. A cada novo trabalho do roteirista não sabemos o que esperar tanto em termos de premissa quanto em qualidade das histórias. Após a desastrosa saga “Eixo” na Marvel e o recente tie in de Guerras Secretas “Hail Hydra”, o autor volta seus esforços para seus trabalhos autorais na Image Comics e em colaboração com o ilustrador Sean Gordon Murphy lança este mês esta “Tokyo Ghost”.
“Tokyo Ghost” é um título em quadrinhos de ficção futurista que cai na categoria “distópico”. No ano de 2089 a sociedade se tornou um amontoado de consumidores de entretenimento inútil e prazeres sintéticos.
A primeira edição do gibi se passa nas Ilhas da Nova Los Angeles – cercadas por águas tóxicas e povoadas por uma população “dormente” por conta do uso contínuo de entretenimento (que na história é mostrado de maneira extrema como um tipo de droga), o território é governado por mafiosos representados pela corporação de entretenimento chamada “Flak Corp”.
hq-do-dia-tokyo-ghost-12Os protagonistas são o casal Debby Decay e Led Dent. Ambos fazem parte de uma espécie de força policial controlada pela Corporação Flark. As missões da dupla consistem em manter a população sob controle da Corporação. Debby é uma das poucas pessoas (talvez a única) não viciadas em entretenimento de toda a Ilha e tem uma visão clara e objetiva da situação em que se encontra. Em oposição a seu amante, Led – um brutamontes recluso e mudo. Tão intoxicado e adormecido pelo “feed” de entretenimento descartável que lhe é apresentado 24 horas por dia, que acaba se tornando a arma perfeita nas mãos da corporação. A relação entre os dois é a mesma entre um viciado em algum tipo de dependência química e a pessoa que o ama. É difícil entender os dois lados sem ter algum tipo de experiência própria, e este acaba sendo o tema pessoal mais evidente na edição de estreia da revista.

O roteiro de Remender é bastante abrupto, louco, sarcástico e acelerado. Guiado pelas caixas de voz de Debby Decay, a princípio é um pouco confuso para o leitor “entrar” de fato neste universo através deste artifício. Isso se deve à linguagem com alguns maneirismos da personagem e o ritmo frenético do roteiro, no entanto com o passar das páginas, a leitura acaba se tornando mais fácil e no final da edição já temos conforto suficiente até para retornar ao início e reler a história toda de maneira mais clara. Se por um lado a relação entre os protagonistas é forte, conturbada e rica desde a primeira edição, o pano de fundo de “Tokyo Ghost” fica devendo em conteúdo e em termos de sustentação narrativa cai na armadilha do “distópico genérico”. Além da premissa de que a população é formada por um bando de zumbis consumistas assistindo um monte de vídeos do “Youtube” 24 horas por dia, não há nada que diferencie este universo da enxurrada de futuros decadentes que apareceram nos quadrinhos nos últimos dois ou três anos. Há ação e violência o tempo todo nesta estreia, tudo isso encharcado com uma ácida e descarada crítica social aos nossos costumes modernos. No entanto, toda esta urgência e cinismo não tem sustentação (ainda) de um contexto geral mais sedimentado, como é visto em algumas outras publicações do gênero.
O que falta ao roteiro de Remender em “pano de fundo”, sobra na arte de Sean Murphy. Cenários, cenários e mais cenários. Em quase todas as páginas de “Toky Ghost” nota-se claramente o cuidado na elaboração visual deste universo. Murphy chega ao ápice do detalhismo em sua carreira, sem fugir de seu estilo arrojado e da fotografia contemporânea de seus protagonistas. Os conceitos visuais não são um primor de originalidade, mas a apresentação é impactante do início ao fim. Os protagonistas são únicos e o roteiro acelerado e por vezes meio “sem rédeas” de Remender ganha coerência e nitidez nas páginas desta edição de estreia. Em termos de design novamente o artista nos dá uma amostra do potencial criativo que tem para criação e representação visual de referências à ficção contemporânea.
Não dá pra negar que “Tokyo Ghost” é uma série muito promissora. Por mais que este universo ainda careça (e muito) de conteúdo para se tornar algo único, o conceito proposto por Rick Remender é interessante e pode render boas histórias. Tratar o nosso atual vício em conectividade e informação descartável como uma verdadeira droga debilitante é uma crítica um pouco óbvia, mas que ainda não foi explorada com muita intensidade nos quadrinhos. Com um elenco pequeno e cheio de problemas emocionais, muita ação e uma arte diferenciada, o gibi pode vir a se tornar uma excelente leitura nas edições futuras. No entanto, a estreia ainda fica devendo.

E aí, curtiu?

Escrito por Igor Tavares

Carioca do Penhão. HQ e Videogames desde 1988. Bateria desde 1996. Figuras de ação desde 1997. Impropérios aleatórios desde 1983.

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