Entrevistamos o maior colecionador de HQs dos X-Men do Brasil

Colecionador de alguma coisa sempre tem o costume de dedicar algumas horas do dia, da semana ou do mês praticando o garimpo com o objetivo de ampliar o que se coleciona. Seja livros, vinis, cd’s, moedas, histórias em quadrinhos e etc. Com uma certa frequência eu dedico algumas horas do meu dia na busca de alguma HQ que me interesse em aplicativos como OLX e Mercado Livre.

Certo dia praticando a arte do garimpo,  eu me deparei com um anúncio que tinha o seguinte título: “Coleção Completa Revistas Em Quadrinhos X-men”. A curiosidade bateu e  fui ver a descrição do anúncio, o cara estava dizendo que tinha todas os títulos dos X-Men lançados no Brasil, absolutamente TODOS, desde a número 01 lançado pela editora Abril em 1988, ainda em formatinho, até o último e mais recente número que está hoje à venda nas bancas. Eu pensei: SENSACIONAL!

Minha primeira atitude foi enviar um e-mail para esse cara pedindo uma entrevista ao PL para contar um pouco da sua história. Alessandro Giacomelli aceitou, e não só contou um pouco da sua história com os quadrinhos, mas também sua opinião sobre o futuro do universo dos X-Men nos cinemas, sua opinião sobre o consumo de quadrinhos no Brasil e uma série de outras coisas.

Colaborou nesta matéria o amigo e parceiro Pablo Sarmento do  portal Terra Zero.

PL: Como você começou a colecionar quadrinhos e quando nasceu esse interesse nos X-Men?

AG: Conheci os quadrinhos logo cedo, ainda criança no início dos anos 80 minha avó comprou pra mim um gibi chamado “Almanaque do Capitão América” da editora Abril, que além do próprio Sentinela da Liberdade trazia uma história do Homem de Ferro e Namor, o Príncipe Submarino… Como também passava na TV naquela época os antigos desenhos dos anos 60 com esses mesmos personagens, pode-se dizer que eles se tornaram meus primeiros heróis favoritos. Mas foi só com o advento do título regular dos X-Men (também pela editora Abril) em 1988 que comecei a colecionar quadrinhos religiosamente.

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Capa Edição número #01 de X-Men lançada pela Abril no ano de 1988.

PL: Quantos volumes tem na coleção ao total?

AG: Difícil precisar, pois além da coleção constar todas as séries regulares de X-Men que foram publicadas desde então (desde a edição nº 01 da Abril), também contém títulos relacionados de todos os outros grupos mutantes (X-Factor, X-Force, Deadpool, etc), minisséries, especiais, graphic novels, encadernados e até muitos gibis importados. Por todos os lugares onde andei procurava comprar um gibi dos X-Men pra coleção, tenho gibi dos X-Men comprado na Itália, França, Argentina, Inglaterra… Sempre que viajo trago um gibi novo e também continuo até hoje comprando tudo que é publicado regularmente sobre eles em banca aqui no Brasil, bem como minisséries ou sagas em que tenham qualquer pequena participação, de modo que ao publicar essa matéria a coleção já terá aumentado no mínimo em mais uns 5 ou 6 itens (por mês). Tenho uma lista em excel que mantenho pra não comprar coisas repetidas, pois as editoras hoje vivem de relançamentos, mas posso dizer que o total de quadrinhos (só sobre os X-Men e relacionados) está acondicionada em umas 10 caixas de tamanho razoáveis.

PL: Como você avalia os filmes do X-Men lançados até hoje?

AG: Na verdade, como qualquer fã incondicional dos personagens, meu sonho era vê-los em ação nas telas de cinema retratados da forma mais fiel possível. Dito isso, creio que a FOX fez (e tem feito) um trabalho apenas razoável na medida em que a essência de poucos deles está representada dignamente. Mas, apesar de muito abaixo do que eles realmente são nos quadrinhos, há bons momentos ali. O Wolverine foi um achado bacana, Xavier e Magneto e toda a sua dualidade também estão muito bem (tanto nas versões mais velhas quanto os mais novos), mas confesso que o resto não me agrada muito, sejam os atores ou suas interpretações. Minha maior crítica de toda a série é a forma como representam Ciclope (meu personagem preferido) que está pífio em toda a trilogia. E o Deadpool retratado em Wolverine Origens então… nem se fala. Um horror. Por sorte terão a chance de redimi-lo no vindouro filme solo que estreia ano que vem.

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Alguns títulos mais recentes.

PL: Você coleciona tudo por conta de ter “toque” e não querer ter a coleção aberta ou você realmente lê tudo e entende todas as mudanças que ocorreram todos anos esses em anos?

AG: Diria que ambos. No começo comprava tudo quanto era gibi, mas quando vi a coleção crescendo exponencialmente por questão de logística entendi que uma hora ia extrapolar o limite de espaço que teria pra guarda-la, então optei por manter o que mais gostava e com que mais me identificava que eram os X-Men e comecei a me desfazer de tudo o resto. Doei, vendi e troquei muitos gibis ao longo dos anos (Vingadores, Demolidor, Superman, Lanterna Verde…), mas decidi que ao menos a enorme história dos X-Men eu manteria incólume. Então mesmo quando sei que uma história ruim ou fraca, com escritor ou desenhista que não gosto, sai nas bancas eu acabo comprando só pra manter a coleção a mais intacta e completa possível. Infelizmente, em todas as mudanças que ocorreram com esses personagens ao longo do tempo nem todas foram fases boas. Posso dizer que me tornei uma espécie de consultor de X-Men para meus amigos. Diria que se a FOX me contratasse garanto que os filmes deles seriam bem melhores do que são nas telas (modestamente falando rs).

PL: Como você avalia as diversas editoras que trabalharam com o título no Brasil?

AG: Não sei se por questões de saudosismo ou por ser jovem na época sempre curti as publicações da Abril, mesmo o formatinho era bacana. Hoje não sei se conseguiria ler direito os balõezinhos pequenos e letras miúdas (talvez pela idade já precise de óculos pra fazê-lo). O que me incomodava muito na época era que as histórias sofriam um grande atraso em relação às publicações originais americanas (mais de ano depois de lançarem lá fora é que a história chegava por aqui) e não tinha também a diversidade que temos hoje, eram mais seletivos. No geral a Abril, as editoras que publicavam antes (que pouco acompanhei) e a atual tentaram manter uma linha de continuidade das histórias, o que prezo bastante. Gosto do trabalho da Panini, o formato fiel ao americano e a qualidade da impressão que temos hoje. Bons lançamentos encadernados, com qualidade, diversidade e bem mais próximos do que está sendo lançado lá fora. Só tenho a impressão que os gibis encareceram demais, antigamente nem trabalhava direito e conseguia comprar muito mais coisa. Talvez seja culpa da crise que vivemos no Brasil, mas tá difícil ler tudo o que a gente gostaria.

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PL: Quais as fases que você mais acha legal? Como você organiza a coleção?

AG: Sem dúvidas eu diria que toda a fase antiga do John Byrne e Chris Claremont é excelente, destaque para a Saga de Fênix e Dias de um Futuro Esquecido, que são marco nas histórias em quadrinhos. Merece destaque também o Massacre de Mutantes e a Era de Apocalipse, com diversos argumentistas e desenhistas, repercutem até hoje na mitologia dos mutantes. Eu tento organizar a coleção por ordem cronológica pra facilitar o dia em que for reler algum material, e guardo as revistas em saquinhos plásticos dentro de caixas com um material de sílica, anti mofo, pra evitar a ação do tempo. Tenho tudo registrado em uma tabela excel.

PL: Você está vendendo seu acervo certo? Qual é o verdadeiro motivo da venda?

AG: Foi basicamente por motivos financeiros que coloquei a venda quase todo o acervo da coleção, com exceção aos importados que pretendo manter. De modo que tudo o que tenho publicado aqui no Brasil está disponível a quem quiser adquirir. Como pretendo realizar uma pós no exterior pra minha área de trabalho e também não tenho como deixar tantas caixas pros amigos guardarem, não conseguirei manter a coleção completa aqui morando em outro país, e preciso do valor para ajudar a custear as despesas, a escolha lógica (por mais que doa) foi colocá-la à venda.

Uma das caixas que armazenam alguns títulos dos X-Men.

Uma das caixas que armazenam alguns títulos dos X-Men.

PL: Como você suportou uma série com tanto reboot e retcons?

AG: Ah, o que dizer? É praxe no universo dos quadrinhos essas ocorrências, então embora muitas vezes eu ache desnecessário acabo tendo que aceitar. Tento tirar algo bom quando algo ruim desse tipo acontece, a Era do Apocalipse (que mencionei anteriormente) foi uma grata surpresa. Só não concordo com a atual política da Marvel em colocar os mutantes pra escanteio nos quadrinhos só porque não possuem os direitos dos filmes (assim como boicotaram o Quarteto Fantástico). Pra finalizar, acho que a Marvel não é tão ruim com reboots e retcons, pelo menos não como a DC, que vive de Crises Infinitas atrás de Crises Finais mexendo na cronologia e caracterização de tudo quanto é personagem. Então, poderia ser bem pior…

PL: Qual sua opinião sobre o consumo de quadrinhos no Brasil?

AG: Acho que é bom… Poderia ser ainda melhor se não fosse o alto custo dos gibis nas bancas, mas, apesar disso, conheço um enorme número de fãs de quadrinhos, que leem dos mais diversos tipos de histórias e formatos (desde Mangá, HQ’s americanas e nacionais, como Turma da Mônica) que são bem fiéis ao gênero. A prova disso a gente tira por base na quantidade de visitantes das feiras e convenções de quadrinhos como a Fest Comix, que meu amigo Jorge realiza anualmente e a Comic Con Experience que esse ano vai pra sua segunda edição aqui no Brasil. Sempre lotadas e sucesso de público. E a tendência é aumentar a quantidade de fãs com o sucesso da enxurrada de filmes baseados em gibis da Marvel e DC que vem por ai.

PL: Ainda sobre quadrinhos no Brasil, o que você acha do mercado editorial no nosso país?

AG: Acho um pouco limitado e quase que sem concorrência. A Panini, por exemplo, só enfrenta realmente as publicações Salvat que mantém a mesma qualidade de material por um preço bem em conta (me refiro às coleções de graphic novels Marvel atualmente a cada 15 dias nas bancas), e em breve a Eaglemoss com a sua coleção graphic novels da DC. A Mythos nem conta, porque estão com preços tão fora da realidade nacional que só atendem a um público muito privilegiado e seleto. No mais é praticamente monopólio, sendo praticamente o único fornecedor e sem concorrentes de peso eles ficam confortáveis demais e põe o preço que querem. O que não é bom para o mercado.

PL: Mesmo após tantos anos, você acha que a questão do preconceito ainda é um assunto abordado nas histórias do X-Men?

AG: Não apenas o preconceito, que nunca deixou de existir em suas diversas formas, e a cada dia nos assusta mais ao redor do mundo todo. Desde seu surgimento em 1963, quando foram criados pelos lendários Stan Lee e Jack Kirby, os mutantes X-Men tornaram-se expoentes de destaque nas revistas em quadrinhos por trazer sempre em seu conteúdo muitos assuntos de grande relevância social, como a intolerância, aceitação, amizade, família, conflitos filosóficos e a luta pela própria sobrevivência. O tempo pode ter passado desde a década de 60, mas essas questões nunca estiveram tão atuais e necessárias de ponderação e debate como no cenário em que vivemos. O que torna X-Men uma leitura tão importante para jovens e adultos na medida em que, a meu ver, ainda demonstra muitos desses valores.

PL: No atual universo Marvel você acha que vão isolar os x-Men das outras franquia das casas das ideias? Se sim, você acha benéfico ou maléfico isso para os mutantes?

AG: Como mencionei antes, ao que parece infelizmente a tendência é essa. Em razão dos direitos sobre os personagens no cinema, talvez numa tentativa de forçar a devolução dos direitos à Marvel, adotaram essa política de terror que culminou inclusive no cancelamento da HQ do Quarteto Fantástico (outra equipe que curto bastante). O resultado disso penso ser ruim pra todo mundo: pros leitores, fãs de quadrinhos e de cinema que estão vendo a qualidade das histórias cair a cada dia, pra Marvel como editora de quadrinhos que acaba desrespeitando seus leitores relegando seus personagens a um “limbo” editorial e as produtoras de cinema que já não sabem ao certo o que fazer com esses personagens na tela e sem a parceria da Marvel acaba fazendo versões cada vez mais deturpadas de nossos heróis, que nenhum fã dos quadrinhos aceita assistir (vide resultado do último filme do Quarteto pela FOX).

PL: Você acha que a Marvel quer preencher um pouco do espaço que era dos mutantes colocando os Inumanos no lugar?

AG: Talvez seja a saída que encontraram, por serem “parecidos” no conceito e natureza de seus poderes, seja a escolha natural pra gradativamente aplacar o gosto dos fãs. Já usam essa estratégia nas telas ao investir bastante nos Inumanos na série Agentes da SHIELD e ao alterarem a origem do Mercúrio e Feiticeira Escarlate pra adequá-los aos Inumanos, tanto nos quadrinhos como nos filmes dos Vingadores. Acho uma pena, pois há bastante espaço pra ambos Inumanos e X-Men nos quadrinhos e nos cinemas.

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PL: Os direitos das adaptações cinematográficas do universo dos X-Men pode influenciar o futuro delas nos quadrinhos?

AG: Com certeza. E não apenas na decisão da forma de como continuar investindo ou não nos personagens nas HQ’s como também no visual e rumo de suas histórias… Então se alguma coisa faz sucesso na TV os roteiristas de quadrinhos correm pra imitar, pra que aquele fã de cinema que curtiu o personagem no filme possa encontra-lo bem parecido nos quadrinhos. Isso não é necessariamente uma coisa ruim, pois serve a atrair novos leitores em potencial, mas em contrapartida traz resultados estranhos, como a fase em que os X-Men usavam roupas de couro pra ficar parecidos com suas versões cinematográficas.

PL: Qual sua ideia para o futuro da equipe, levando em conta todo o seu conhecimento sobre os mutantes, você acha que ainda existe espaço para ser explorado? Ou os mutantes estão datados para o atual público leitor de HQs?

AG: A pesar dessa celeuma por direitos dos personagens nas telas e a decisão da Marvel em coloca-los na geladeira por um tempo eu creio sinceramente que todos esses mutantes são personagens de uma mitologia muito forte, há anos enraizada no coletivo imaginário popular e que isso não será alterado. Eles continuam sempre atuais e importantes, e enquanto existirem fãs de quadrinhos e de boas histórias os X-Men continuarão sua saga rumo ao futuro, proporcionando ao leitor atento uma intensa reflexão sobre temas políticos e sociais relevantes, nesse mundo muitas vezes intolerante e preconceituoso em que vivemos, inspirando-nos a seguir na luta pelo sonho de que um dia possamos também coexistir pacificamente com nossos semelhantes apesar de todas as nossas diferenças.

Sua coleção atualmente está à venda no Mercado Livre pelo valor de R$ 16.200,00 e a lista completa das HQS que o Alessandro possui você encontra neste link.

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Alessandro Giacomelli nasceu em São Bernardo do Campo – SP em 1975, formado em direito e biblioteconomia, trabalha como bibliotecário na USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul – SP) é colunista do site Criado Mundo, apresentou uma monografia muito interessante sobre E-Comics e Webcomics e os novos recursos informacionais para biblioteca digital, e tem o poder de fazer você se tornar o maior colecionador de gibis dos X-Men. Basta você adquirir sua preciosa coleção.

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