HQ do Dia

O Ninguém

Por mais que Jeff Lemire seja um canadense, ele tem um espírito de um brasileiro, nunca dispensa um trabalho e não tem panelinha com ninguém. Desde Marvel, DC Comics, Image Comics, um trabalho atrás do outro, nunca se cansa, mas são nos seus trabalhos autorais onde conhecemos ainda mais a sua mágica. O quadrinho “O Ninguém” é um deles. A trama recheada de suspense, conflitos e coloca em pauta a reflexão sobre a sensação de se sentir vivo. 

A HQ foi lançada em 2009 nos Estados Unidos pelo selo da Vertigo, mas chegou aqui em junho deste ano pelas mãos da Pipoca & Nanquim em uma edição única de capa dura e bem bonitona. Mais um grande acerto da editora, acredito que se não fosse por eles, tal obra ainda continuaria distante de nós.  “O Ninguém” é uma homenagem à obra do “Homem Invisível” de H. G. Wells, o pai da ficção cientifica.

A história conta a chegada de um estranho homem chamado John Griffen que possui todo seu corpo enfaixado, na típica e pacata cidade do interior dos Estados Unidos chamada Boca Larga. Ele se abriga em um Hotel e dificilmente sai do seu quarto, exceto para se alimentar, tem um jeito estranho e sempre trabalha em algo em silêncio e tranquilidade. Algo que não agrada muitos cidadãos que começam a criar um medo e dúvida sobre suas verdadeiras motivações.

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A única pessoa que Griffen desperta uma curiosidade positiva é na solitária Vickie, uma adolescente que se torna amiga do desconhecido, a amizade dos dois faz Vickie enxergar seu lado humano além das faixas que protegem seu corpo, mas isso não parece agradá-lo e a cada encontro ele se distância um pouco mais. Griffen parece esconder algo do passado que o deixou com a sensação de ser invisível, porém reparado por todos.

A fofoca e imaginação é indispensável pelos olhares humanos, são criados mais de mil teorias para acertar os fatos, fatos estes que nem sabem o motivo, nossa mente sempre é capaz de proporcionar dúvidas pelo que não entendemos, até mesmo aqui onde a solidão do protagonista é vista como ameaça e discórdia, sempre agregando algo ruim como um criminoso em fuga ou mesmo um psicopata, mas nunca uma pessoa abalada por seu emocional ou desesperada e necessitada de ajuda.

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Na maioria de suas narrativas, Lemire prova que se preocupa muito mais com o lado humano, casual e sensível deixando a própria invisibilidade de Griffen como contraponto e não um problema, seu foco é adequar isso em conflitos pessoais como família, separações, perdas, relacionamentos e a intensa busca por redenção das ações do passado. O protagonista é a uma demonstração dessa redenção, uma figura pessoal pertinente em fazer o presente dar certo, mas presa as amarras do seu passado, ainda mais que esse determine sua própria solidão.

Ser um “Ninguém” é uma metáfora, usada para pessoas que desejam usar a capa de invisibilidade seja ela por escolha própria ou da sociedade. Geralmente elas são perdidas em seus questionamentos e nas suas próprias emoções, por mais que são sejam vistas por muitos, ainda se tornam invisíveis em meios as suas próprias peculiaridades no seu jeito que vivem dão sentido à vida.

A arte desenhada pelo próprio Lemire demostra o casual e simples em seus traços rápidos e desnorteantes, mas que nessa história ajuda muito a narrativa ainda mais com tudo é preto e branco, ou seja, como a própria vida e nada é tão simples como imaginamos ser para nós. A leitura com a arte se torna gostosa e satisfatória por não possuir tantos diálogos, cada página nos tenta a chegarmos longo ao final sem se preocupar com o tempo.

Em meio as suas homenagens e referências aos filmes dos anos 70 mas com originalidade, “O Ninguém” é recheado de críticas sociais ao nosso lado humano questionador e ao nosso palpável senso crítico em acreditar que temos todas as respostas, mas que somos enganados por nossa próprias verdades quanto ao desconhecido. Um quadrinho que ficará na lembrança, pode ter certeza!

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