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HQ do Dia | Bitch Planet #1

É preciso ter muito cuidado para analisar qualquer conteúdo cultural que tem seu hype amplificado pela mídia antes de seu lançamento. Seja em filmes, seriados, livros, álbuns de música e principalmente nos quadrinhos muitas vezes o burburinho gerado por campanhas massivas de marketing podem nublar a visão dos críticos e do público em relação a qualidade das obras a serem apreciadas.

Cientes dessa realidade nos deparamos com a magnífica capa de Valentine De Landro para primeira edição de Bitch Planet da roteirista KellyHQ do Dia | Bitch Planet #1 Sue DeConnick e a o odor pungente de uma velha sala de cinema passando algum filme do gênero exploitation invade nossas narinas. Ao começar a ler a história de DeConnick que mistura ficção científica distópica, violência carcerária e mulheres sendo hostilizadas somos lembrados de que uma boa história é sempre uma boa história, independente do hype, independente da onda neo-feminista associada e independente das críticas positivas prévias.

Bitch Planet nos mostra um Planeta Terra no qual os indivíduos (por enquanto exclusivamente mulheres) classificados como “não conformes”, e este é o termo mais recorrente no título, são “convidados” a se retirar daqui e encarcerados em outro Planeta. O conceito de “não conforme” estabelecido por DeConnick é intencionalmente abrangente e vago. Portanto se você é uma assassina, uma ladra, uma funcionária relapsa ou mesmo uma dona de casa não satisfeita pode acabar sendo vítima deste sistema penal absurdo. A injustiça exagerada é sim um dos preceitos mais básicos do gênero exploitation e DeConnick acerta em cheio no tom, tornando todos os antagonistas na primeira edição (logicamente homens) uns belos filhos da puta. Se você ainda tem dúvidas, fica bem claro que as mulheres são as protagonistas aqui e que os homens são os antagonistas, pelo menos por enquanto.  Este é um conceito mais comum do que somos levados a acreditar atualmente, mas se você tem algum problema com isso (vilanização masculina) é bom nem começar a ler então. A ficção-científica é usada principalmente como alegoria para atenuar a seriedade de alguns temas, nos lembrar de que esta é uma obra fictícia e porque prisões futurísticas ultra violentas em outros planetas são legais pra caralho.  O roteiro desta primeira edição é frenético, violento, cheio de ação, com um grande volume de informação para processar sobre esta sociedade e com certeza deixa pontas soltas, mas isso de maneira alguma prejudica a leitura. Ao contrário, o fato do leitor não ser tratado como um inválido e não receber tudo de colherzinha nesta estreia estimula bastante a releitura e aumenta a expectativa em relação às edições seguintes.

Valentine De Landro é o responsável pela arte em Bitch Planet com colorização de Cris Peter. Para leitores assíduos de super-herói que esperam massa muscular disforme, splash pages épicas com socos na cara vazando os quadros, poses heroicas e todo este tipo de coisa… Esqueça. O que você vai ver em Bitch Planet é um traço bruto, sério, grosseiro mas limpo e claro, uma caracterização marcante das personagens, rostos diferenciados e expressões corporais reais. A equipe de arte abusa de sombras, quadros retos, fotografia de impacto (mas realista) e cores bem flat e transforma o roteiro de Kelly Sue em um storyboard em forma de cartaz de filme de ação futurística retrô. Pense Paul Verhoeven e Ridley Scott na década de 1980, mas com mulheres emputecidas quebrando tudo. É basicamente isso. De Landro desenha dezenas de mulheres nuas nesta primeira edição (com genitália de fora e a porra toda aparecendo) e faz isso de forma elegante, artística, crua e natural. Este tipo de arte bruta se encaixa como uma luva neste roteiro e torna a leitura muito divertida.

Bitch Planet chegou ao mercado antes mesmo de chegar. O hype imenso, todas as críticas positivas e a legião de meninas tatuando o símbolo “NC” (sigla referente ao termo non compliant – não conforme) pode assustar ou desestimular leitores que só querem pegar um gibi com uma boa história para ler. Se isso te desestimulou deixe de ser babaca e dê uma chance ao título. Temos um roteiro de estreia elétrico, violento, cheio de energia e que celebra o exploitation em sua melhor forma além de prestar homenagem ao gênero cinematográfico “futuro distópico sem sentido” popularizado em obras como Brazil de Terry Gilliam. A parte da ficção ainda é superficial, mas a trama é cativante e a arte é perfeita para este tipo de história. Independente de tudo uma estreia muito bacana, divertida e interessante.

VEJA MINHA ÚLTIMA RESENHA: HQ do Dia | Os Delinquentes

E aí, curtiu?

Escrito por Igor Tavares

Carioca do Penhão. HQ e Videogames desde 1988. Bateria desde 1996. Figuras de ação desde 1997. Impropérios aleatórios desde 1983.

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