Magnífica 70

Uma produção nacional que merece respeito e admiração

Nós estamos acostumados com as séries e minisséries da TV Globo, passamos muitos anos acompanhando as mais diversas produções nacionais por este canal. Muito difícil era ver algo diferente sendo produzido por outras emissoras. Quando isso acontecia, a qualidade não chegava aos pés da produção feita pela Rede Globo. Um dos motivos pode estar no dinheiro e o outro por deter a maior parte dos atores que estrelam produções tanto no cinema quanto para tevê.

Porém nos últimos anos as coisas tem mudado um pouco. Vide séries como “A Menina sem qualidades” produzida pela MTV, “Tudo que é sólido pode derreter” produzida pela Ioiô Filmes e exibida pela TV Cultura e “Destino: São Paulo” produzida pela O2 e exibida pela HBO. São séries formidáveis tanto no nível de produção, quanto de roteiro e direção. E o melhor, nenhuma delas foram feitas ou exibidas na TV Globo.

Em tempos de Game of Thrones, a HBO lançou no dia 24 de maio de 2015 uma das produções nacionais mais fantásticas dos últimos anos, Magnífica 70. Criada por Cláudio Torres, Renato Fagundes e Leandro Assis, dirigida por Torres e Carolina Jabor, Magnífica 70 é baseada no roteiro escrito por Toni Marques.

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Boca do Lixo nos anos 70

A série retrata um pedaço de um dos bairros mais tradicionais e degradantes da cidade de São Paulo, a Luz. Na década de 20, nascia nesse bairro uma região que ficaria muito conhecida como “A Boca do Lixo” – uma região não oficial, que se tornaria um polo da indústria cinematográfica de São Paulo. Mas foi nos anos 70 que ela floresceu se expandiu apresentando para todo o Brasil as pornochanchadas e os filmes independentes de baixo orçamento. Todo o universo envolto dos filmes da Boca do Lixo, além das suas relações com os órgãos de censura em plena ditadura militar, é retratado pela série de produção da Conspiração Filmes em parceria com a HBO Latin America Group e também com a ajuda da ANCINE.

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Magnífica 70 conta a história de Vicente (Mascos Winter), um censor do Departamento de Censura Federal do Estado de São Paulo. Vicente vive um casamento monótono com Isabel (Maria Luísa Mendonça), filha do General Souto (Paulo César Pereio ). Durante a avaliação de uma pornochanchada chamada “A Devassa da Estudante“, ele acaba vetando o filme, mas no entanto, acaba se encantando pela atriz Dora Dumar (Simone Spoladore), estrela do filme. Fascinado pela garota, que lembra uma falecida cunhada sua, Ângela (Bella Camero), Vicente mergulha no universo da Boca do Lixo, onde começa a trabalhar com Dora e Manolo (Adriano Garib), com quem passa a formar um triângulo amoroso. A atmosfera da época, com a repressão imposta pela Ditadura Militar no poder relacionada com os filmes do gênero, desmerecidos pela alta sociedade devido ao conteúdo, é o principal mote da trama.

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A série não perde em nada nos termos de qualidade de produção, direção e roteiro. A fotografia e a trilha sonora são dois pontos fortíssimos neste show. Eles gravaram durante 15 semanas em uma multilocações no Rio de Janeiro, onde foi construída uma cidade cenográfica retratando os principais cenários da trama, como o Bar Imperador, a Magnífica Produções, a casa da família de Vicente, o Departamento de Censura Federal, entre outros ambientes. Fazer qualquer coisa de época hoje em dia não é algo fácil, o trabalho de pesquisa, cada ponto do cenário colocado, cada detalhe arranjado está muito parecido ao que poderíamos encontrar na Boca do Lixo nos anos 70, basta fazer uma simples pesquisa que você vai perceber.

Os personagens carregam a atmosfera daquela época, isso é mostrando nas atitudes do General Souto, interpretado pelo dinossauro do cinema e da tv, Paulo César Pereio. Um cara que carrega a sétima arte nas veias, faz um bom tempo. Marcos Winter, um ator que eu não via trabalhando faz tempo está fantástico. Sua auto-repressão, seu semblante de dor, mostram a realidade de um cara que entrou num casamento arranjado e vive o pesadelo da perseguição de uma paixão marcada por obsessão e morte.

maginifica-70-uma-producao-nacional-que-merece-respeito-e-admiracao5Simone Spoladore está bela e talentosa, confesso que ela está tão diferente em Magnífica 70, que no primeiro episódio eu achei ela parecida com a Camila Morgado e nos demais me lembrou muito a Marjorie Estiano. É através dela que vem toda a mágia da Magnífica, e também é nela que está centrada o plot desta série. Uma mulher que representa e muito todas as musas lançadas nas produções da época como: Helena Ramos, Sandra Bréa, Vanessa Alves, Patrícia Scalvi, Nicole Puzzi e Zilda Mayo.

Magnífica 70 além de mostrar como tudo surgiu na indústria cinematográfica da Boca do Lixo, também dá uma aula de história tanto sobre o cinema nacional, quanto sobre a ditadura militar que sangrou nosso país durante algumas décadas. Ela nos mostra momentos difíceis, onde tudo praticamente era considerado “subversivo” se não estivesse dentro dos padrões da família tradicional brasileira.

Além de tudo isso, temos uma trilha sonora fantástica e uma fotográfica que traz todo o clima e cadência necessária para transportar o espectador aos anos 70. Logo de cara temos uma musica de abertura impactante de uma das bandas mais marcantes da década, o Secos & Molhados. Sangue Latino escrita por João Ricardo e Paulinho Mendonça em 1973, parece que foi destinada exclusivamente para esta produção.

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Enfim, Magnífica 70 é uma produção nacional digna de respeito e de admiração. É basicamente uma paulada na cara da Rede Globo e está ai para mostrar que não existe um monopólio, e que outros canais podem produzir algo de qualidade superior a que estamos acostumados a ver. Nós temos boas histórias o que falta é alguém que saiba contá-las da melhor forma. Isso de fato aconteceu com Magnífica 70.

Magnifica 70 contará toda a sua história entre a censura e a liberdade em 13 episódios, sempre exibidos aos domingos às 21hrs pelo canal HBO e posteriormente reprisados nos demais canais que fazem parte de sua grade.

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