Diluviando

Se querem mesmo saber o que me deixa sem ação, saibam que não é a tiazinha que passeia com seu cachorro vira-lata na Av. São João às cinco da manhã, tampouco uma louca dando cervejada na cara da outra. O que me deixa sem ação e reação é o momento pré, durante e pós chuva, no centro da cidade. De verdade – a chuva e o que as pessoas podem fazer quando ela vem.

Hoje lá estava eu, depois de ter pedido saída no trabalho para ir ao dentista, quando olho para o céu e vejo o Apocalipse se iniciando lá em cima. O que me deixou encafifada pra valer, foi a atitude das pessoas antes da chuva.

Vou explicar desde o começo: meu trabalho fica quase no centro e o consultório fica no final da principal rua-comércio do centro da cidade. Portanto, tive de andar um bom trecho do percurso – prefiro andar do que pegar ônibus cheio de gente fedida e feia cheirosa e bonita, para ir ali do lado – e foi nesse percurso que eu vi um pouco da atual situação da raça humana.

O céu ia ficando cada minuto mais escuro, começou um vendaval inquietante e os raios e trovões não cessavam nunca. Eu não me desesperei porque nesse planeta Terra desregulado em que vivemos, isso é absolutamente normal e a qualquer hora do dia você tem que estar preparado com a sua arca, para um dilúvio. Bom, o clima foi fechando e as pessoas começaram a ficar desorientadas feito baratas tontas.

Abre o guarda-chuva, põe e capa-de-chuva, se preocupa, segura o cabelo. Solta, prende, puxa, sacode a droga do cabelo enquanto do outro lado da rua outra pessoa corre, grita, se preocupa, abre o guarda-chuva, corre mais e prende a droga do cabelo – na ordem cronológica. Taí, outra coisa inquietante é a preocupação com a cabeleira em meio a um dilúvio. Estranho mesmo é uma pessoa se preocupar com o cabelo que vai enrolar depois da chuva ao invés de se preocupar com a casa que vai encher de água depois da chuva.

Bobeira.

Enfim, as pessoas estavam ficando estéricas e eu já não sabia se segurava a risada ao ver duas senhoras dançando com o guarda-chuva ou se parava e brincava com o cachorrinho da praça da Igreja… Ele estava meio sozinho ali, fiquei com pena – dele e de mim, por estarmos presenciando aquilo.

A chuva foi ficando mais e mais evidente e as pessoas cada vez mais loucas. Juro por Deus, parecia que o mundo ia cair, igualzinho naquele filme lá, “O dia depois de amanhã” – a diferença é que no Brasil ao invés de neve, as pessoas fritam no Sol. Era uma chuva forte, histórica.

Depois de conter os risos e resistir a dar atenção ao cachorrinho, decidi que precisava andar um pouco mais depressa – a menos que quisesse tomar um banho de chuva no meio da rua mais insuportável e cheia de gente feia movimentada e bem frequentada da cidade. Andei depressa, peguei a sombrinha emprestada, olhei no relógio. Três e quarenta e cinco da tarde, eu tinha apenas dez minutos para chegar ao extremo do centro da cidade e estava lá, sem reação frente a toda aquela bizarrice. De verdade, pensei que fosse acabar ali (o mundo, pensei que o mundo fosse acabar ali). Cheguei em oito minutos ao consultório – quase morta.

A dentista disse que eu tenho uma cárie e me deu um atestado de uma hora… Desci as escadas do prédio preocupada com a chuva… Devia estar tudo inundado e aquela altura do campeonato devia no mínimo ter botes e crianças brincando na leptospirose. O mundo já teria desabado. Mas não… Não foi isso o que aconteceu.

Na verdade eu quase caí de costas quando vi que não tinha chovido nem uma gota e que naquele momento, o céu estava azul com um incrível sombreado de final de tarde.

“Maldito aquecimento global”, foi o que consegui pensar – cinco minutos depois eu me lembrei que ia acontecer de novo na próxima ameaça de chuva, afinal, isso sempre acontece nas grandes cidades. As pessoas são meio loucas por aqui.


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