Straight Outta Compton

Direto pra fora da Ignorância

Por Pedro Turambar especialmente para o Proibido Ler.

Eu nunca gostei de rap ou hip hop. Não sei, nunca me apeteceu e eu também nunca fiz questão de buscar mais sobre o estilo. O máximo que chegou até mim foi o hip hop da geração MTV do início dos anos 2000. Eminem, 50 Cent e Ja Rule. Fora isso, as músicas do Need For Speed Underground e Velozes e Furiosos, tudo dentro do mesmo pacote.

Nessa mesma época, alguns amigos começaram a ouvir Racionais e eu não conseguia entender, muito menos tive qualquer intenção de chegar perto. Ainda era muito adolescente bitolado, querendo ouvir metal, com a certeza de que sabia tudo sobre o mundo.

Com o passar dos anos, e um pouco mais de maturidade, passei a entender música, ou arte no geral, de uma forma mais ampla, entendendo como consumir esse tipo de coisa. Mesmo assim, o rap não chegou até mim e eu continuava não fazendo a menor questão de ir ao encontro dele. A única coisa que eu ouvia, por vontade própria, era Eminem. O cara branco, claro.

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Meu gosto pelo cara cresceu muito depois de 8Mile, um ótimo filme, com uma trilha sonora maravilhosa e uma música digna de um Oscar. Sendo escritor, sempre adorei as histórias envolvendo rappers, incluindo aí a mais famosa de todas, Crips and Bloods, 2Pac and BIG. Foi por gostar dessas histórias de “bastidores” que eu acabei ouvindo falar de Straight Outta Compton. Foi só depois de muito tempo que o vi, e olha…

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Straight Outta Compton Dirigido por F. Gary Gray com roteiros de Jonathan Herman e Andrea Berloff e foi produzido por F. Gary Gray, Ice Cube, Tomica Woods-Wright (Esposa do Easy-E), Dr. Dre, Matt Alvarez e Scott Bernstein. O longa conta — de forma muito romantizada e suavizada, pelo que fiquei sabendo depois — a história do nascimento do Gangsta Rap. Como os membros do N.W.A se reuniram e se tornaram um sucesso que saiu direto de Compton (ahn?) — pequeno distrito do condado de Los Angeles, Califórnia — para ganhar a América e o mundo. As músicas chocavam pela realidade, pelos palavrões e por contar uma verdade do que acontecia nas ruas dos bairros pobres e a realidade do negro norte americano. As músicas também chocam pela misoginia extrema.

Tem dois nomes gigantes que surgiram pro mundo com o N.W.A, Ice Cube e Dr. Dre. Esse último eu conhecia por ser o cara por trás do Eminem e do 50 Cent. E por causa dos fones de qualidade duvidosa super ultra mega faturados. Ice Cube eu conhecia só como o cara dos filmes.

Straight Outta Compton, mais que um ótimo filme sobre um grupo de rap, é um filme importante para entender tudo que está acontecendo agora, principalmente em relação à discussão racial nos Estados Unidos. Pesquise sobre a repercussão da apresentação da Beyoncé no SuperBowl e sobre a hashtag #OscarSoWhite. O filme inclusive mostra uma das partes mais fortes do clipe da Beyoncé, que foi a reação extrema em Compton sobre o caso dos policiais que espancaram e mataram um homem negro em um estacionamento e foram absolvidos pela justiça.

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Toda revolta que vemos nos últimos tempos, números cada vez mais impressionantes de jovens negros mortos pela polícia, a luta do movimento negro pelo fim do extermínio (que nunca chegou perto de acabar), tudo isso tem a ver com o filme. E tem a ver com a maioria das músicas que eles faziam.

“Fuck the police commin’ straight from the underground
A young nigger got it bad ‘cause I’m brown
And not the other color
Some police think
They have the authority to kill a minority.”

“Foda-se a polícia, direto do submundo
Um jovem negro se fode porque é marrom
E não da outra cor
A polícia pensa
Que tem a autoridade pra matar uma minoria.”
(tradução livre)

Qualquer semelhança com a chacina interminável na periferia de São Paulo ou nas favelas do Rio não é mera coincidência. O preto daqui sangra pelo mesmo motivo que o preto de lá.

Quando um filme tem essa importância, esse “tamanho”, eu não me importo muito com o roteiro dele ou com alguns problemas de ritmo. Tem pontos altos e alguns baixos, nesse sentido. Como a peruca do Paul Giamatti (aliás, qual o problema de Holywood com perucas? Você viu “A Grande Aposta“? Jesus amado).

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Eu me empolguei com o filme, com a história e me fez querer muito, muito mais desse mundo. Seja para ficar puto com a xenofobia e a misoginia (estão em tudo, porque aqui não, certo?), seja para conhecer verdadeiras obras de arte, como o último disco do Kendrick Lamar. Ouça. Papo sério.

Estou ouvindo várias coisas, conhecendo novos artistas, ouvindo novamente outros e tentando explorar um novo mundo de luta, repressão, realidade e principalmente, liberdade. Se permita um pouco, acho que vai valer a pena.

Pedro Turambar é escritor e redator publicitário. Enquanto escreve cartões comemorativos e anúncios na agência sonha em escrever um bestseller. Ele tem um livro e um conto publicados na Amazon. Já escreveu para o Judão e Papo de Homem. Atualmente fala sobre produtividade no Brasil Post e no Medium. E disso tudo, ele tem uma newsletter assinada por mais de 600 pessoas sobre criatividade, ou uma crônica sobre o dia a dia. Sempre algo leve, divertido e interessante. 

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