Normandia Nua (2019)

Quando os normandos tentaram se salvar

Normandia Nua (2019) é um daqueles filmes cuja intenção é a das mais puras possíveis, mas sua construção não necessariamente encontra um terreno digno o suficiente para seu elenco e para sua história. A nova obra de Phillippe Le Guay parece atirar para todos os lados, compondo-se através de uma fusão entre drama familiar, drama social e comédia, porém nunca de fato consegue concentrar seus esforços em algo que realmente mude a nossa perspectiva sobre um tema batido ou que interfira na nossa apreciação acerca do cinema francês.

A premissa já se mostra um tanto quanto irreverente, o que, à prima vista, poderia levar Le Guay a explorar os trejeitos da tragicomédia. Afinal, a história é ambientada em uma famosa comunidade da Normandia, local famoso por representar a vitória dos aliados sobre a dominação nazista durante a II Guerra Mundial. Porém, após cair no esquecimento, os moradores locais, em sua maior parte formada por pecuaristas, vê seus sonhos despedaçados quando a carne que vendem está sendo comercializada a preço de banana, e o lucro está sendo destinado aos supermercados internacionais que cada vez mais roubam o lugar dessas pessoas no cenário econômico.

Com a chegada de um famoso fotógrafo ao local, famoso por suas obras em que retrata diversas pessoas nuas em lugares abertos, o prefeito da cidade acaba cedendo à ideia de convencer a todos a participarem do photoshoot, ganhando visibilidade na mídia e salvando suas casas e seus trabalhos. Entretanto, os idealizadores desse projeto perceberão que ter uma mente aberta é um trabalho muito mais difícil do que parece, ainda mais se tratando dos moradores mais velhos, ainda movidos por uma mentalidade puritana e conservadora.

De fato, imaginar que Le Guay criaria algo assim é quase impossível e, conforme a narrativa se constrói nos primeiros minutos, começamos a endossar laços com alguns dos personagens, seja pelo prefeito Georges (François Cluzet), pela jovem ativista de doze anos que é contra a continuidade da pecuária como principal renda econômica para a cidade, Chloé (Pili Groyne), ou por Thierry (François-Xavier Demaison), um homem apaixonado pela cidade que se muda para o interior como forma de transgredir seus aspectos urbanos e viver da mais pura natureza. Porém, talvez com exceção de Georges, essas caricaturas sociais contemporâneas são esquecidas, quando poderiam ser melhor utilizadas em subtramas hilárias. Ou pior: a presença das figuras funciona como um longa-metragem à parte, desnecessário para o entendimento da obra em si e que serve apenas para saturar o escopo principal.

Em se tratando da Normandia, é quase instantâneo imaginar cenários campestres e rústicos, tomados por uma vegetação exótica aos olhos acostumados com as construções maciças de Paris ou de outros centros franceses. Logo, uma fotografia que transcendesse a nossa concepção rural até seria uma boa construção, mas Le Guay, em colaboração a Jean Claude-Larrieu, mergulha em uma arquitetura panfletária e unidimensional. As paisagens são transformadas em imagens assépticas, sem vida, engolfadas em uma luz natural que chega a dar impressão de estarmos vendo um vídeo amador. Esse aspecto tristemente só melhora conforme nos aproximamos da conclusão, na qual o onírico nascer do sol contrasta com a escuridão azulada que toma conta do rosto dos personagens.

Como falamos de um drama “coming-of-age” dos mais formulaicos possível, é bem fácil imaginar como a história se desenrola. Georges busca o apoio daqueles que o colocaram no poder e encontra certos obstáculos partindo de pensamentos ortodoxos demais para a época em que vivem, ao mesmo tempo em que continua conversando com a mente rebelde de Newman (Toby Jones), o fotógrafo. Em determinado momento, o acordo certeiro se desfaz quando pouquíssimas pessoas aparecem para o ensaio e levam Newman à gota d’água. Eventualmente, tudo se resolve, visto que a própria cidade se une para realizar a foto e, desse modo, tentar salvar a cidade.

Mas em nenhum momento a preocupação com o futuro dos normandos volta a falar alto, e nem mesmo encontra uma resolução palpável. O final fabulesco e feliz tenta trazer uma lição de moral, porém encontra-se às custas de algo realmente crível. As epifanias dos personagens são apressadas, sem sentido e unidimensionais. De fato, o único que consegue se salvar é Cluzet, com uma performance incrível que provém de sua extensa filmografia dentro da indústria do entretenimento.

Normandia Nua, no final das contas, funciona em pouquíssimos aspectos e dá já alguns indícios de que o gênero, ao menos dentro do escopo francês, precise reencontrar-se com novas perspectivas – ou ao menos uma história que consiga nos envolver.


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