Helden | Os “heróis” por David Bowie

1 mês atrás ( 10/01/2017 )

O ano de 1977 fora marcado por muitas eventualidades de importância. O mundo seguia a atmosfera resultante da Guerra Fria, importantes figuras assumiam o poder, bem como a perda de notáveis figuras culturais como Elvis Presley, Maria Callas e Charlie Chaplin. Também fora marcado pela a ascensão de significativos movimentos, entre exemplos o Movimento Punk.  Mas limitando-se a perspectiva histórica acerca do “Camaleão do Rock”, 1977 fora um ano de uma nova reinvenção.

As personas do cantor não muito haviam ficadas para trás. Sua estadia na Suíça em 1976, fizera com que seu trabalho de estúdio e palco enriquecesse, derivadas também por atividades extra-musicais. Tal ano nem sequer havia terminado quando o seu interesse pela cena musical da Alemanha e vício em drogas o levaram a se mudar para a Berlim Ocidental. E assim, no intuito de renovar e revigorar sua carreira musical que a Trilogia de Berlim nascera.

Helden | Os "heróis" por David Bowie

Ainda que a exatidão do apelido seja discutido, a denotação “Trilogia de Berlim” é geralmente relacionada aos três álbuns do cantor produzidos com a colaboração de Brian Eno entre os anos de 1977 e 1979; sendo eles Low, Heroes e Lodger, na época em que o mesmo residira na dividida Alemanha. Os discos, cujas fortes influências pela cena do krautrock alemão da época são perceptíveis, evidenciaram um afastamento de composições e narrações para um estilo mais abstrato, aos quais as letras eram esporádicas e opcionais.

Contudo, a faixa Heroes é a melhor representante quando se trata de simbolizar toda esta experiência vivida por Bowie. Sua composição, letra e performance musical, de fato, resumem muitas das influencias exercidas por experimentações realizadas na dividida cidade. Assim o sendo, tal faixa mais experimental do que comercial ganhou popularidade tardia e, eventualmente, tornou-se uma das faixas mais emblemáticas de seu repertório. E de tal modo, não apenas por seu prestígio ou importância, mas também pelo contexto envolvendo esta faixa, que Heroes protagoniza esta matéria.

Helden | Os "heróis" por David Bowie

A dimensão lírica originalmente acerca de Heroes é dupla. Primeiramente, retrata uma representação universal do triunfo do amor, apesar de uma força negativa avassaladora. Isto é, tal ideia é adquirida através do uso de um “eu e você” contra um “eles”. Expressando assim que “eles”, embora nunca identificados, são muito fortes, mas “eu e você” podemos vencê-los enquanto estivermos juntos – ao menos por um dia. Então, em segundo lugar, a música torna-se uma história de amor determinada pelo contexto histórico da dividida Berlim que o “eu” está relembrando-se.

Tal história retratada enfatizasse com exatidão no sexto verso da composição. Sendo este, numa tradução livre:

Eu, Eu posso me lembrar (Eu me lembro)
De pé, junto a parede (junto a parede)
E as armas, tiros sobre nossas cabeças (sobre nossas cabeças)
E nos beijamos, como se nada pudesse cair (nada pode cair)
E a vergonha, estava no outro lado
Oh, Nós podemos vencê-los, para sempre e sempre
Então podemos ser heróis, apenas por um dia

Ou seja, a história que move a canção se trata especificamente de um casal alemão que está tão determinado a estarem juntos, que se encontram todos os dias sob uma torre de armas no Muro de Berlim (exatamente o mesmo que dividira a Alemanha entre a Oriental – socialista e Ocidental – capitalista). As letras que deram vida à trama da faixa, surgira pouco depois que David Bowie e seu produtor Tony Visconti haviam começado a trabalhar na melódia da canção, cujo inicialmente se apresentara como a ideia de uma composição instrumental de título inspirado em uma canção de mesmo nome da banda alemã NEU!.

As letras do verso mencionado surgiram após Bowie presenciar um casal alemão beijando-se através do muro. No entanto, somente no ano de 2003 (26 anos depois do lançamento) o cantor revelara o verdadeiro casal motivador numa entrevista ao Performing Songwriter;  “Eu estou autorizado a falar sobre isso agora. Eu não estava no momento que lancei a música, ao qual eu sempre disse que a ideia fora motivada por um par de amantes separados pelo Muro de Berlim. Em realidade, foi Tony Visconti e sua namorada. Tony era casado na época, e eu nunca poderia dizer quem eram. Mas agora posso dizer que os amantes eram Visconti e uma garota alemã que ele conheceu enquanto estávamos em Berlim. […] Foi muito emocionante porque eu podia ver que Tony estava muito apaixonado por esta garota e foi a relação que motivou a música”.

Helden | Os "heróis" por David Bowie

Um ponto esteticamente interessante na letra da música é a referência aos golfinhos, que traz para a canção uma inesperada imagem de movimento, liberdade e paz, no que outro poderia ser definido como um típico cenário de guerra fria. As presentes insinuações políticas na canção são geralmente ligadas à linha “embora nada as afaste, podemos vencê-las, só por um dia”, referindo-se à percebida força da ditadura exercida na Alemanha Oriental.

Inevitavelmente os anos de Bowie em Berlim tem um lugar especial na história da música popular e contribuíram consideravelmente para a canonização da capital alemã de hoje como um dos lugares onde os artistas recuam-se para alcançar algo novo, algo diferente. Entre exemplos de artistas que produziram materiais por tal cidade, podemos citar grandes nomes como: Iggy Pop (ao qual compartilhara deste período de vivência de Bowie), U2, Nick Cave, Marilyn Manson e outros.

Helden | Os "heróis" por David Bowie

Porém, há quem desacredite na interpretação do “caso de Visconti” e defenda a ideia de que Heroes, na verdade, fala sobre um tipo de tensão transsexual interna encarada por Bowie. De fato, o cantor era cauteloso sobre o que suas canções retratavam. Assim sendo, muitos acreditam que a maioria de suas músicas fala da mesma coisa: a descoberta de uma grande “menina com cabelo mousy” dentro de si mesmo. Defende-se que por muitas vezes, Bowie, utiliza de artifícios (como espelhos, paredes) ao quais retratam-se como uma metáfora para a fronteira entre ele e o mundo exterior.

Seguindo a ideia, no segundo verso da faixa é retratado o momento em que ele encontra um amante no limite de tal barreira. Sendo as frases deste verso, numa tradução livre:

Porque somos amantes, e isso é um fato
Sim somos amantes, e isso é o que é

De tal modo, este limite é o espelho do nosso campo visual, o “véu da percepção” por assim dizer, onde nossa primeira pessoa – vista a partir dos olhos de um gigante – encontra o mundo visual de nossas auto-representações, como “ratos”. Ou seja, nessa concepção a situação evidenciada na trama desta faixa se retrata num caso de amor próprio.

Outro ponto interessante acerca desta ideia, envolve os enunciados “E a vergonha estava do outro lado” e “Você será a rainha“. O Regime Comunista da Alemanha Oriental considerava a homossexualidade como uma “decadência da burguesia”, e Bowie residia em Schoeneberg, ao qual na época era o bairro gay de Berlim e acolhia o famoso clube “El Dorado”. Assim, embasando tal tensão transsexual interna e, eventualmente, externa.

Helden | Os "heróis" por David Bowie

No entanto, ainda que sendo uma linda música, destacando não apenas o sintetizador de Brian Eno e as notas de guitarra exercidas por Robert Fripp, mas também os imponentes vocais de Bowie capazes de transmitir emocionalmente os empecilhos circunstanciais expressados por tal contexto histórico. Ao mesmo tempo Heroes possui uma atmosfera incrivelmente triste. E isso se evidencia enfaticamente no verso final da faixa, ao qual em tradução livre:

Nós somos nada, e nada irá nos ajudar
Talvez sejamos mentirosos, então é melhor você não ficar
Mas podemos ficar seguros, apenas por um dia
Oh-oh-oh-ohh, oh-oh-oh-ohh, apenas por um dia

Isto é, por todo o decorrer da faixa nos é apresentado uma realidade em que possamos ser, de alguma forma, heróis. No entanto, também evidenciamos subjetivamente que, na verdade, não há como sermos um herói completo. Que “algo está faltando, algo está perdido”.

Helden | Os "heróis" por David Bowie

Esta matéria não se trata de uma resenha, ou exclusivamente uma análise. Mas os motivos que me trazem até a publicação da mesma, não é apenas de apresentá-la como “publicação homenagem” ao cantor nesta conclusão de um ano de seu falecimento. E ainda que confessadamente não me considere como um “esplendoroso fã” ou até mesmo conhecedor de toda sua discografia, venho a publico para poder explorar o quê, na minha concepção, é uma das melhores faixas já produzidas por David Bowie.

Minhas motivações não estão ligadas apenas em seu contexto histórico ou pelos signos por trás da letra e música, algo que vejo unicamente como espetacular e também inspiradora. E não é porquê reúne a genialidade e sensibilidade exercida por Bowie, mas também, porque tal faixa é capaz de me envolver por uma energia empoderadora ao qual quase nenhuma outra consegue. E por fim, por ser uma faixa que se você escutá-la hoje, você poderá ser um herói hoje. Por ser uma faixa que se você escutar amanhã, ela pode inspirar você a ser um herói para esse dia. Em qualquer dia que você escutar essa música, você pode ser um herói. Ainda que seja só por um dia.

Nós podemos derrota-los, para sempre e sempre
Nós podemos ser heróis, apenas por um dia.

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