Cemitério Maldito (2019)

Uma profana loucura

Stephen King é um dos autores mais conhecidos do mundo inteiro. Seus romances de suspense e de terror entraram para a história, firmando seu nome como um dos game-changers da indústria literária e, alguns anos depois, da cinematográfica. Afinal, dentro do contínuo e expansivo universo das adaptações para as telonas, King carrega consigo um arsenal bastante interessante para ser explorado – e só nos últimos anos, quase dez obras foram relidas em uma perspectiva nova e, num escopo generalizado, consideravelmente positiva. É só nos recordarmos de Jogo Perigoso (2017), uma aplaudível e angustiante tour-de-force protagonizado por Carla Gugino, e da sensação It: A Coisa – Parte 1 (2017), cujo remake superou e em muito o original do final do século passado.

Cemitério Maldito também enfrentou o mesmo processo de evolução, partindo de um escopo fílmico já arquitetado em 1989 por Mary Lambert e refeito trinta anos depois pelas hábeis mãos de Kevin Kolsch e Dennis Widmyer. É claro que, a priori, sempre ficamos com um pé atrás quando pensamos em recontar uma narrativa já conhecida e já saturada – ainda mais considerado que o boom do gênero já enfrente complicados obstáculos nos dias de hoje. Felizmente, o resultado da mais nova adaptação baseada em King é arrepiante por todos os motivos certos – ainda que os deslizes não consigam perder tanta força quando colocados dentro do contexto em questão.

A história principal gira em torno da família Creed, que muda-se para um grande casarão localizado ao lado de um cemitério. Louis (Jason Clarke) resolve morar naquele lugar para se reconectar com sua mulher e seus filhos, mas logo descobre os terríveis segredos que se escondem por ali. Afinal, o cemitério supracitado, atualmente destinado para os vários animaizinhos de estimação que passaram desta para a melhor já foi usado por tribos indígenas para imortalizar os falecidos através de forças místicas e inexplicavelmente perigosas, como o poder de trazê-los de volta à vida. E Louis descobre isso do modo mais inesperado possível – logo depois de enterrar seu gato, Church, e vê-lo ressurgir dos mortos.

Em se tratando de uma trama orquestrada por King, nada acontece por acaso ou sem drásticas consequências. O gatinho começa a demonstrar sinais de raiva compulsória e um comportamento perturbador, como se não fosse mais o dócil companheiro da família. Ele até mesmo participa indiretamente da chocante morte de Ellie (Jeté Laurence), a filha mais velha do casal, cujo atropelamento os coloca em um ciclo quase claustrofóbico de pesar e loucura. É claro que, dentro da atmosfera literária, os temas psicológicos aparecem com mais força e, ainda que Jeff Buhler e Matt Greenberg tentem trazê-los para o roteiro, tal parcela acaba se perdendo durante a transcrição.

Levando em conta que a produção conta com pouco mais de noventa minutos, explorar cada uma das subtramas é um trabalho complicado e, considerando que o ritmo começa em uma monótona linearidade para explodir em reviravoltas frenéticas, é bastante perceptível a cautela com a qual a dupla de diretores e sua equipe trataram a narrativa. Porém, também não se pode deixar de citar a exaustiva ambiência profana que rege a conjuntura apresentada: a presença dos enquadramentos angulosos e de maneirismos expressionistas como a névoa e o dramático jogo de luz e sombra tira um pouco da originalidade buscada por Kolsch e Widmyer, lançando a obra na tangência do convencionalismo e da zona de conforto. Até mesmo os jump scares se rendem às fórmulas do horror, saindo de seu patamar meramente decorativo e renascendo como base principal.

Os ápices concentram-se no miolo do longa-metragem. A partir da morte de Ellie, Louis não consegue aceitar a perda e culpa a si mesmo por não tê-la protegido. É essa culpa que o leva a desenterrá-la e colocá-la no cemitério sobrenatural, revivendo-a para ter mais alguns momentos ao lado da filha. Porém, as coisas começam a desandar quando a jovem menina cruelmente assassina o vizinho Jud (John Lithgow), cuja principal função dentro da trama é sanar as dúvidas de Louis quanto à mitologia que cerca aquelas terras, e logo depois mata a própria mãe, Rachel (Amy Seimetz). O trio de personagens adultos compartilha entre si uma química apaixonante; porém, ela não é explorada tanto quanto esperaríamos, sendo deixada de lado em detrimento de um pano de fundo místico.

Perdendo-se no meio do caminho, o filme retorna a ganhar força nos momentos finais, em que Ellie mostra seu desejo de matar os pais e enterrá-los no mesmo herético solo que foi condenada a passar a eternidade. Em uma última sequência, que beira o risível, a condução cênica muda a perspectiva e a resolução do complexo arco ao colocar o próprio Louis, agora tendo aprendido com os erros, em uma última subtrama de sofrimento e pagamento de seus pecados. Os últimos momentos são de tirar o fôlego, chamando o black-out em uma terceira e fortuita catarse.

Cemitério Maldito padece com pequenos equívocos técnicos que, quando aglutinados, ganham um palanque que não pode ser evitado. Porém, mesmo com o ritmo atrapalhado e pontuais diálogos autoexplicativos e artificiais, o resultado final é satisfatório e, sem sombra de dúvida, bem superior ao seu antecessor.


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