Brightburn – Filho das Trevas (2019)

A ineficácia do terror

David Yarovesky pode não ser um nome muito conhecido, mas certamente ganhou a atenção dos fãs do gênero de terror nos últimos meses ao anunciar seu mais novo projeto “Brightburn – Filho das Trevas” (2019). O principal conceito que o diretor queria trazer para as telonas era reformular os preceitos básicos de filmes de heróis, adicionando os tensos elementos do suspense em um híbrido cuja premissa é nada menos que interessante. Logo, era apenas natural que nossas expectativas alcançassem um patamar considerável conforme os trailers e os materiais promocionais ganhavam visibilidade do público – prometendo até mesmo reinventar contos que já dominam a indústria audiovisual há muito anos.

A história gira em torno de um casal que encontra um bebê no meio da floresta – aparentemente vindo do espaço sideral – e o toma para si como uma graça divina, constrói-se em uma interessante e nova perspectiva para os maniqueísmos clássicos dos quadrinhos. É claro que as referências à Superman existem e até mesmo contribuem para a delineação de cada um dos personagens, mas é certo dizer que a narrativa, também a encargo do cineasta, é fruto de fórmulas desconstruídas e recriadas que trazem consigo a melhor das intenções. Porém, como já dizia o famoso ditado popular, “de boas intenções o Inferno está cheio”. Eventualmente, o longa-metragem cede àquilo que crítica com sutileza e não consegue se desvencilhar de pequenos obstáculos que, unidos, se transformam em uma bola de neve.

É notável a forma como Yarovesky coloca sua carga cinematográfica dentro de seu mais novo projeto, ainda mais considerando que estamos diante de uma trama de terror e suspense. Todavia, se não fosse a agonizante e tétrica trilha sonora, não haveríamos como descobrir ou até mesmo nos relacionar com o filme que nos é apresentado; o motivo é bem claro: o diretor, apesar das múltiplas investidas, falha realmente cativar os espectadores, fazendo uso de cansativos ‘jump-scares’ que basicamente são a única coisa que fornecem dinamismo aos acontecimentos. Em outras palavras, os esforços em questão não são poderosos o suficiente, morrendo na beira da praia antes de atingirem maturidade.

O personagem principal, Brandon Breyer (Jackson A. Dunn), é a conhecida e nostálgica representação do jovem garoto introvertido que não sabe o porquê de ser diferente dos outros. Afinal, seus pais, Tori (Elizabeth Banks) e Kyle (David Denman), fizeram questão de mantê-lo alheio à verdade por trás de sua história, mas sabemos que isso não vai durar muito tempo. Em dada sequência, Brandon começa a ter noção de seus incríveis poderes e do que realmente é capaz – até mesmo de machucar aqueles que lhe fazem mal. Não é surpresa que o garoto protagonize cenas respaldadas no gore ou que viole as práticas recorrentes de James Wan (um dos mestres do terror).

Essa violação seria muito bem-vinda caso executada de maneira mais convincente. Nem mesmo a proposital atuação unidimensional do menino consegue se salvar de tantos equívocos amadores; o que quero dizer aqui é que, em se tratando de capacidade, Yaroveski ao menos provou ter um escopo imagético considerável na obra “A Colmeia” (2014). Em sua nova investida fílmica, porém, o diretor dá ares de um tristonho cansaço criativo que se alastra em meio a sua identidade como realizador cinematográfico, com exceção de pouquíssimas cenas. De fato, alguns momentos, como o confronto entre mãe e filho que desvirtuam o divinizado relacionamento apresentado no primeiro ato, é chocante – principalmente quando aliado aos recorrentes assassinatos causados por Brandon.

O problema é que, levando em consideração o pano de fundo que nos é cultivado desde o primeiro frame, conectar-se a esse maquiavélico cosmos não é uma tarefa fácil. As sutilezas e as habilidades técnicas são jogadas no lixo em prol de explicar o que já explicável por si só: Yaroveski cria diálogos cênicos redundantes, prolixos e sem a menor noção de início-meio-fim. Cada um dos personagens, em falas um tanto quanto naturalizadas pelo roteiro de Brian e Mark Gunn, sai de um ponto para se perder em meio a uma imensidão de possibilidades que nunca chega a ser infimamente explorada.

Talvez um dos ápices resida na delineação da personagem de Banks. Tori é uma mulher forte que faria qualquer coisa pelo filho, até mesmo sacrificá-lo para salvar a si próprio. Banks consegue, ainda que seja ofuscada pelos infelizes erros, trazer pontos interessantes para sua complexidade quando colocada lado a lado com as outras personas – até mesmo engendrando uma pequena química com Dunn e Denman. Entretanto, as facetas que nos apresenta também são desperdiçadas na conclusão do último ato, em que Tori e Brandon elevam-se em uma forçada e desnecessária catarse.

“Brightburn – Filho das Trevas” promete muito e entrega pouco – e não podemos deixar de ficar tristes com um filme que poderia ter realmente dado certo. Para aqueles que esperam encontrar algo novo, sinto lhes dizer que isso não vai acontecer, ou talvez aconteça para poucos. Agora, se você procura mais do mesmo e não se importa com fórmulas cinematográficas recicladas, está no lugar certo.


VEJA TAMBÉM:

COMENTE:

© 2019 Proibido Ler. Todos os direitos reservados.