A Garota no Trem (2016) | Atuações que fazem valer um roteiro mediano

4 meses atrás ( 06/01/2017 )

A Garota no Trem é, antes de mais nada, uma adaptação cinematográfica de uma obra literária. O livro homônimo escrito pela britânica Paula Hawkins foi lançado em 2015 e rapidamente se tornou um best-seller, graças ao sucesso que obteve com a crítica devido à sua trama competente envolvendo violência doméstica, abuso psicológico, alcoolismo, suspense e mistério.

As comparações com outra obra recente logo tiveram início – não necessariamente porque as tramas são parecidas, até porque são bastante diferentes – pois há uma forte tendência de se generalizar a arte. Autoras mulheres, livros com personagens principais femininas, tramas de suspense, mistério e violência que escancaram a verdade por trás das fachadas de casamentos perfeitos. “A Garota no Trem” logo se tornou o novo “Garota Exemplar” para os vendedores, mas que fique claro: se tratam de duas histórias muito diferentes.

Rachel (Emily Blunt) é uma mulher solitária de mais de 30 anos que vive se remoendo pela vida que perdeu. Há pouco mais de 2 anos seu casamento com Tom (Justin Theroux) acabou em divórcio, e enquanto ela se entregou ao álcool e passou a morar em um pequeno quarto no apartamento de uma amiga (Cathy, vivida por Laura Prepon), ele casou novamente, teve uma filha com a nova esposa (Anna, vivida por Rebecca Ferguson), e vive com a nova família na mesma casa.

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Todas as manhãs, Rachel pega o trem para Nova York e, durante a viagem, fica observando as casas e as pessoas pela janela. Um casal em particular desperta sua atenção; são bonitos, jovens, apaixonados e, como ela mesma descreve, “tudo o que ela não é”. De manhã, na ida, e de noite, na volta, a protagonista fica atenta ao momento do trajeto que passará pela casa deles só para poder vislumbrar rapidamente um momento de suas vidas. Ela cria fantasias em sua mente sobre o casal, dando nomes e profissões fictícias a eles. Observá-los e criar um conto de fadas sobre sua vida aparentemente perfeita é a pequena alegria diária de sua vida alcoólica e depressiva.

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Até que Rachel vê algo que não deveria. A moça, cuja vida é perfeita, está traindo o marido. E então, ela desaparece. Rachel foi vista na rua de sua casa na noite de seu desaparecimento, mas estava alcoolizada e não lembra de nada. O que realmente aconteceu? Quem era o amante visto por Rachel? Será um suspeito? Até onde ela pode se envolver?

O diretor Tate Taylor (Histórias Cruzadas) faz um trabalho razoável, mas a roteirista Erin Cressida Wilson (Homens, Mulheres e Filhos) não encontrou uma forma de roteirizar as diversas cadeias narrativas do livro com êxito, ou pelo menos, de forma orgânica. A narrativa sofreu várias mudanças estruturais que são compreensíveis (e necessárias) quando se trata de adaptações – por exemplo, a ambientação em Nova York em vez de Londres. Infelizmente, A Garota no Trem deixa a desejar por parte do roteiro.

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Contudo, a roteirista Erin Cressida Wilson teve sorte, já que o elenco incrivelmente competente do filme, encabeçado pelas performances excelentes de Emily Blunt e Haley Bennett, conseguem trazer algum valor ao roteiro que têm em mãos. Blunt é talentosa o suficiente para interpretar essa protagonista falha e problemática, com sua relação complicada com o álcool e com as pessoas em geral. No livro, Rachel está fisicamente abalada (acima do peso, queda de cabelo, etc), e embora Blunt não tenha adaptado essas características para o papel, sua atuação expõe a instabilidade e a luta da personagem de forma sublime. Rachel é uma vitrine emocional, e a atriz consegue incorporá-la e mostrá-la para o público de forma clara.

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Haley Bennett, por sua vez, impressiona ao entregar um trabalho íntimo, aflitivo e complexo. Para falar a verdade, ela foi a minha maior surpresa em A Garota no Trem. A atriz de 28 anos não possui uma lista longa de trabalhos e, de todo elenco, era a única que não conhecia. Embora não tenha recebido o desenvolvimento que deveria (não me entenda mal, sua personagem, Megan, teve relativamente bastante tempo de tela, apenas deixou algumas perguntas sem respostas que o livro não deixou), Megan Hipwell exige uma grande entrega de sua intérprete e Bennett se entregou.

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Muitos destacam a atuação de Emily Blunt em A Garota no Trem, mas verdade seja dita: o filme possui dois pilares, Blunt e Bennett.

Luke Evans dá o seu melhor em seus poucos momentos de tela no papel de Scott Hipwell, assim como Édgar Ramírez no papel de Dr. Kamal Abdic. As aparições de Evans sem falas causam incomodação e, embora ele mostre que é um ator competente nos momentos em que o roteiro permite, a falta de desenvolvimento de seu personagem é frustrante. Com Ramírez o problema é ainda mais grave, já que a falta de desenvolvimento deixa a entender que seu personagem é um profissional incompetente, que deveria perder a licença. Justin Theroux e Rebecca Ferguson apresentam boas atuações, embora eu esperasse mais. Laura Prepon, Lisa Kudrow e Allison Janney participam tão rapidamente que poderiam ser creditadas apenas como participações especiais, principalmente Kudrow. Quando os créditos sobem, a sensação que fica é de desperdício.

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E então voltamos às comparações com “Garota Exemplar”. Quando o filme foi anunciado, usaram esse tipo de comparação. Os trailers foram editados de forma similar e sim, o filme tem momentos que remetem à adaptação dirigida por David Fincher. A Garota no Trem usa narrativa expositiva, titulação carregada, e sequências de flashbacks. Se o intuito foi replicar ou apenas fazer alusão a “Garota Exemplar”, não sei. Mas o longa seria muito melhor se, assim como o livro, tivesse sua própria identidade.

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No final das contas, fiquei grata por ter lido o livro antes do filme. O desenvolvimento dos personagens e da trama é muito melhor na obra literária, sem falar no final, que é infinitamente mais inesperado e chocante. Fica o conselho para quem não assistiu A Garota no Trem, do fundo do coração: não deixe o filme spoilar o final para você. Leia o livro antes. Vale à pena.

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