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HQ do Dia | Descender

Os dilemas da inteligência artificial e sua relação com a humanidade são temas bastante martelados por autores de ficção desde que Isaac Assimov e Arthur C. Clarke estabeleceram os conceitos básicos para este tipo de tema em suas obras seminais lá no século passado. É extremamente complicado se aventurar neste terreno atualmente sem cair na mesmice e no melodrama existencial dos questionamentos sobre ego e consciência. Então quando aparece um novo título em quadrinhos dentro deste contexto já se espera algo que foi contado antes.

Descender é a nova HQ autoral escrita por Jeff Lemire (Sweet ToothHomem Animal Justice League United) e desenhada por DustinDescender1-38c07 Nguyen (Batman: Lil’ Gotham) que estreou no início de Março via Image Comics. O título trata de um futuro (lógico) no qual devido a um gravíssimo incidente entre autômatos e humanos, robôs são caçados como foras da lei. As relações entre a humanidade e seus servos cibernéticos foram severamente abaladas e isso mexeu com toda a estrutura e modo de vida de uma sociedade baseada nas relações entre humanos e androides. Os protagonistas principais são um humano especialista em inteligência artificial, mas que após o incidente meio que caiu em desgraça e vive em semi-reclusão e um garoto-robô que sobreviveu ao massacre dos autômatos em seu planeta pois estava em estado de hibernação. O pequeno robô acorda e se vê em um ambiente hostil no qual sua espécie é caçada e destruída sem piedade pelos seres humanos.

Jeff Lemire construiu toda uma mitologia, história e organização geo-política para servir de pano de fundo para Descender. Por isso nas primeiras edições não temos somente o conto do indefeso robô sendo perseguido e do atormentado cientista tentando desvendar um mistério. Aqui aprendemos muito sobre o futuro da humanidade segundo Lemire e temos um universo rico em construção com uma comunidade planetária composta de vários povos com interesses distintos. Isso dá riqueza a esta obra e oferece substância e insumos para as histórias principais que são um pouco batidas sim. Os diálogos em Descender são bem escritos como é costume do autor, no entanto não chegam a impressionar com frases ou passagens mais marcantes. Temos protagonistas bem estereotipados (o menino robô indefeso e ingênuo, o cientista perturbado e depressivo e a militar prática e durona) que não cativam a primeira vista, mas cumprem seus papéis de forma correta no contexto geral da trama que é bem agradável. Em geral Descender lembra um pouco Sweet Tooth principalmente por conta da inocência do protagonista, o tom meio “fantasia infantil surrealista” e das passagens silenciosas e solitárias contrastando com outras com mais exposição de trama. Só com o diferencial de que isto aqui se passa em um futuro distante com alienígenas,, robôs e viagens espaciais. A influência de Inteligência Artificial – filme de Steven Spielberg é descarada e inegável durante todas as passagens do protagonista principal.

A arte de Dustin Nguyen para quem não está familiarizado tem um aspecto aquarelado bem característico como se fosse pintada a guaxe. Em Descender o artista se utiliza muito de tons claros entre o metálico e o ciano para dar a impressão de um futuro brilhante que subitamente desmorona em tons de vermelho e marrom quando a humanidade se choca com os autômatos. Alternando entre esses dois tipos de colorização o ilustrador transmite dois momentos distintos da história e dá sentimento a um roteiro que por vezes parece um pouco frio. O design de locações e personagens é interessante, no entanto não apresenta nada de muito novo ou icônico no terreno da ficção e o ritmo de painéis é tranquilo de acompanhar.

Houve muito hype na mídia especializada em relação ao lançamento de Descender no início de Março. No geral as primeiras edições são boas leituras com um roteiro consistente e interessante, personagens relativamente bem escritos e uma arte que acerta em cheio o tom meio “conto de fadas tecnológico” proposto pelo roteirista. No entanto o título está longe de ser indispensável no meio de tantas publicações muito boas e até excelentes no portfólio da Image. É bem difícil a esta altura causar grande impacto utilizando o tema Inteligência Artificial para contar uma história em quadrinhos e Jeff Lemire apesar de conseguir nos apresentar um material de qualidade incontestável passa muito longe de criar algo novo neste universo.

Leia minha última resenha: HQ do Dia | Deadpool #45 – A  morte de Deadpool

E aí, curtiu?

Escrito por Igor Tavares

Carioca do Penhão. HQ e Videogames desde 1988. Bateria desde 1996. Figuras de ação desde 1997. Impropérios aleatórios desde 1983.

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