Mommy (2014) | A visão bela e extrema de Xavier Dolan sobre a psique humana

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O diretor e roteirista canadense Xavier Dolan – com um currículo invejável de cinco filmes – consegue sempre dividir a crítica. E não é para menos, o fato de ter estreado sua carreira muito jovem – com apenas 20 anos, em 2009 – e de todos os seus longas terem sido selecionados em festivais de grande porte – como Cannes, Veneza e até mesmo o Oscar – chama atenção, assim como a forma pessoal com que ele dá vida a suas histórias e personagem.

Mommy, é um filme canadense de 2014, escrito, roteirizado e montado por Xavier Dolan, com a fotografia marcante de André Turpin. Com treze nomeações, o filme venceu em dez categorias dos Canadian Screen Awards 2015, além de ter sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015. Mas foi na premiação de Cannes 2014 que o longa ganhou seu maior destaque: Dolan, de apenas 25 anos, dividiu o prêmio do júri com a lenda do cinema Jean-Luc Godard, de 83 anos.

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Mommy foi resenhado/criticado em diversos sites como um exagero do cinema, mesmo tendo conquistado o coração do júri por onde passou. No Rotten Tomatoes,  por exemplo, o filme tem aprovação de 92% dos críticos baseado em 25 críticas e tem 100% de aprovação por parte da audiência, usada para calcular a recepção do público a partir de votos dos usuários do site. Já no IMDB o filme recebeu uma nota de 8,4 por parte da audiência. Mas se você pesquisar qualquer crítica sobre ele, vai encontrar muita gente insatisfeita com esse tal “exagero”, isso porque nem todos compreendem a mensagem do diretor.

A minha resenha crítica não aborda o exagero de Dolan, até porque se você conhece ele, sabe que todos seus filmes tem uma identidade visual, que muitas vezes é confundida com excesso. “Amores Imaginários” e “Eu matei minha mãe” comprovam isso. Eu não sei o que você vai achar ao assistir seus filmes, mas se eu fosse encarregada de te indicar um para começar sua maratona, sem sombra de dúvidas seria Mommy. Isso porque falar da psique humana nunca foi uma tarefa fácil, mas com esse filme o excesso veio a calhar. Afinal, a loucura é um tipo exagero.

Mommy veio com uma temática difícil de se lidar, além de abordar uma relação familiar bastante conturbada, os internatos, os manicômios, o TDAH, o filme aborda principalmente a sensibilidade da psique humana. O cinema, as relações familiares e a psicologia sempre tiveram uma ligação muito forte, partindo dos clássicos como “Persona” de Ingmar Bergman, “Os Incompreendidos” de François Truffaut, até os filmes mais atuais como “Garota Interrompida” de James Mangold e “O Lado bom da Vida” de David O. Russell.

O enredo se desenrola em um Canadá ficcional, onde foi aprovada uma lei na qual os pais poderiam internar os seus filhos que tivessem problemas comportamentais, psicológicos, ou até mesmo no caso de situações de privação financeira e agressividade deles. A lei S-14, define que qualquer familiar pode abandonar o jovem problemático aos cuidados do governo, sem ter que passar por burocracias legais. A medida é descrita logo no início do filme e é um tema pertinente aos que tanto debatem sobre maioridade penal e manicômios.

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Em Mommy, primeiramente conhecemos D.I.E (que no português significa morra) a abreviação do nome de Diane Després (Anne Dorval). Die é uma mãe com espírito jovem, tatuada, desbocada, dona de si e que faz de tudo para que seu filho fique bem, e que cuida dele da forma que pode. Sem dinheiro e com pouco tempo para cuidar dele, Die deve encarar toda sua impotência em conviver com o filho, que pode passar de amável a demoníaco em poucos segundos.

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Então conhecemos Steve (Antoine-Olivier Pilon) jovem de 15 anos, que tem TDAH (distúrbio de déficit de atenção com Hiperatividade) somatizado a agressividade. Ele é provocador, desobediente e dono de uma sensibilidade digna de artista. Antoine interpretou brilhantemente o rapaz problemático, atribuindo uma naturalidade notável aos exageros, fragilidade e comportamentos da doença e da visão de Dolan. Sua interpretação é muito física, sobretudo nos momentos de maior violência ou intensidade dele. Sem dúvidas esse papel marca uma grande conquista em sua carreira.

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Steve é obrigado a voltar para casa após botar fogo em um colega da escola interna. Die parece ter expectativas em relação ao filho, procurando evitar a qualquer custo entregá-lo para um hospício. Só depois que Die leva ele embora, conhecemos o terceiro personagem crucial nessa trama. A vizinha Kyla (Suzanne Clément), uma mulher com problemas para se comunicar – literalmente, ela não consegue formar frases sem gaguejar – a professora de ensino médio não nos fala em nenhum momento o porquê de seu problema, mas durante todo o filme notamos que em algum momento do passado sua voz começou a falhar. Em sua licença sabática, ela é muito mais reservada do que Die e Steve, mas parece igualmente inábil a expor os seus sentimentos como eles. Die cria um laço com Kyla, quando nota que ela não repele seu filho.

Com esses três personagens a trama começa a tomar uma proporção fabulosa de cores, quadros e trilhas. Entre o exagero e a sobriedade de Dolan. Se o filho (Steve) distribui palavrões por onde passa, a mãe (Die) apresenta uma atitude insolente. Já Kyla, que entra na vida dos dois com o intuito de apartar uma briga, acaba sendo a pessoa mais beneficiada da relação, ela vê nos vizinhos um escape da dura e solitária realidade.

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Ambos se completam e nos comovem. Percebe-se então aquela herança genética das doenças psicológicas, mesmo a mãe sendo muito mais equilibrada que o filho, nota-se que Steve tem motivos para ser como é. Além daquela coisa de todo ser humano carregar um pouco de loucura em si. O que não é mentira.

Nem sempre compreendemos Steve, Die ou Kyla, acho que Xavier Dolan não quis isso ao elaborar “Mommy”. A complexidade da relação deles nos desarma. Die procura defender e cuidar o filho, mas desconfia a todo tempo do mesmo. Steve é apegado a mãe de uma forma que chega a machucá-la na tentativa de proteger. Já Kyla se torna uma mãe postiça e amiga, de ambos. Mostrando que o silêncio nem sempre é algo ruim. Não importa se você os compreende ou não, o saborear do filme não depende disso.

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Falando esteticamente, nota-se o dedo pessoal de Dolan, e o quanto ele arriscou para fazer esse trabalho. A tela é inundada com close-ups, que nos passam uma sensação de claustrofobia. Steve por vezes parece que vai sair dela. O fato de ser filmado quase todo em formato quadrado vertical (1:1), retornando conforme alguns fatos ao (4:3) nos mostra uma metáfora ao contexto dos personagens. 

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É difícil ficar indiferente ao filme, a história nos embriaga e nos sufoca em todo tipo de sentimento possível. Não tão fácil de se visualizar como deveria, exigindo mais comprometimento na atenção do que o comum. Dolan tem o dom de nos alienar e nos bombear com suas emoções e com o seu ego. Mesmo ao final do filme, você vai se perguntar o que viu, vai ficar preso a história, as cenas e as cores gritantes.

Falando musicalmente, o ápice da genialidade do cineasta envolve uma sequência que acontece ao som do hit do grupo Oasis, “Wonderwall”. Só quem assistir ao filme compreenderá o quão devastadora é a cena. A trilha também é composta por músicas como: “Childhood” de Craig Armstrong, “Vivo Per Lei” de Andrea Bocelli, “Young and Beautiful” de Lana Del Rey, “Anything Could Happen” de Ellie Goulding e “ColorBlind” sucesso da banda Counting Crows. Seja musicalmente ou visualmente, o enredo se enquadra perfeitamente as cores e trilhas que o compõe. Então, pode-se imaginar que tudo é feito com muito bom gosto.

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Os personagens que rodeiam o enredo de “Mommy” nem sempre são agradáveis ou educados. Filmes sobre relações entre pais e filhos não são novos no meio. No entanto, esse cria uma atmosfera muito mais psicológica e intensa. O amor de Die pelo filho, é o amor de Steve por sua mãe, e por sua vez, a empatia de Kyla por ambos. Tudo nos envolve na história, de forma que parece que eles fazem parte da nossa família. O amor que muitas vezes nos faz aguentar atitudes impensadas, danos e intromissão. Dolan realiza uma obra de extremos, sentimentos, tonalidades, músicas, gritos, socos, danças e silêncios. Tudo isso mostrando o lado mais magnifico e escondido de cada personagem.

Falas que escandalizam, cenas que nos comovem. A capacidade de estimular vários sentidos de “Mommy” é para poucos. Ele nos afronta e nos envolve aos personagens. No decorrer da trama é possível duvidar do que estamos sentindo, mas é quase impossível não sentir nada em relação ao filme. A linha quase tênue entre o exagero e a realidade, nos proporciona um passeio as mais estranhas relações humanas que aos poucos despertam e repelem a nossa atenção. Quando notamos, já fomos embriagados pela loucura que o filme nos proporciona, e é claro que queremos mais, muito mais.

mommy-2014-a-visao-bela-e-extrema-de-xavier-dolan-sobre-a-psique-humana_7Xavier Dolan na maioria das vezes é chamado de egocêntrico por colocar tanto de si em suas obras, mas se isso fosse realmente um defeito, ele não teria inúmeros fãs e nem seria tão laureado. O fato é que, ser jovem e indicado a tantos prêmios, tantas vezes, incomoda muita gente. E não falo isso porque acho que o cineasta beira a perfeição, para isso ainda é preciso muito trabalho e suor. Mas até aí, julgar o filme pela jovialidade do diretor, não é nem de longe atestado de cinéfilo.

Se você não é o tipo de pessoa que gosta de emoções, de cores, de trilhas, que faz a linha “água com açúcar do cinema” pode apostar que esse filme irá te incomodar mais do que agradar, assim como outras obras dele. Afinal, essa é a identidade visual do mesmo. Agora, se assim como eu, você gosta de extremos, saiba que Mommy é um filme sensível e brutal, que arrebata nosso psicológico. O olhar de Dolan sobre a psique humana pode até ser exagerado, mas seu exagero é bem feito e foi aclamado merecidamente. Se você consegue suportar isso, eu não sei. Mas vale a tentativa.


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