Vício Inerente (2014)

Uma investigação extrassensorial nos anos 70

Vício Inerente marca o retorno de PTA (Paul Thomas Anderson) ao cinema. Uma trama de investigação com altas doses de sarcasmo e visão extrassensorial.

Vício Inerente - 2014 | Uma investigação extrassensorial nos anos 70PTA é conhecido por adotar um estilo de filmagem independente que rompe a estética convencional hollywoodiana e une várias histórias numa mesma trama – como é o caso de Boogie Nights (1997) e Magnólia (1999). Lembrado também por raspar a cabeça ao final de suas produções, ter largado o curso de cinema da Universidade de Nova York no segundo dia de aula e usado o dinheiro da matrícula para filmar “Café e Cigarros“, uma de suas muitas obras de arte com roteiro próprio. Assim como Quentin Tarantino, o diretor de 44 anos, aprendeu suas técnicas sozinho e ganhou inúmeros fãs.

Chega a ser difícil resenhar uma história tão “louca” assim e dirigida por um homem tão aclamado pela sétima arte. Isso sem contar o elenco de peso: Joaquin Phoenix (Ela), Josh Brolin (Sin City: A Dama Fatal), Katherine Waterston (Night Moves), Reese Whiterspoon (Água Para Elefantes), Owen Wilson (Os Estagiários) e Benício Del Toro (Guardiões da Galáxia).

Vício Inerente - 2014 | Uma investigação extrassensorial nos anos 70

Vício Inerente é baseado no livro homônimo de Thomas Pynchon, e conta a história de Larry “Doc” Sportello, um detetive particular – e maconheiro – que investiga o desaparecimento de sua ex-namorada, Shasta, e do amante milionário dela, Michael Z. Wolfmann. Tudo isso em uma Los Angeles dos anos 70 cercada por hippies, drogas e seitas semelhantes à de Charles Manson.

Se você pensa que já viu de tudo, é porque nunca leu esse livro ou assistiu esse filme. Vício Inerente não consegue se encaixar em um gênero, pois abrange muitos com maestria. Tais como: humor, policial e até mesmo o lado politicamente incorreto. 

A trama começa com Shasta (Katherine Waterston) indo a casa de Doc. (Joaquin Phoenix), que está deitado no sofá curtindo uma “onda” de maconha – daquelas que precisa se beliscar para saber se ele está lá ou se ele está alucinando. Quando ele confirma que não é só uma brisa da erva, o que parece ser só a visita casual da ex-namorada, acaba virando o mundo do detetive particular de cabeça para baixo. Shasta lhe conta um plano conspiratório envolvendo um ricaço de L.A, Mickey Wolfmann (Eric Roberts) – que ela por sinal tem um caso.

Vício Inerente - 2014 | Uma investigação extrassensorial nos anos 70

Antes de qualquer fala, Paul Thomas Anderson já nos mostra tudo o que precisamos saber sobre sua obra de arte com ar de film noir. Escondendo seus reais sentimentos por Shasta, Doc embarca na busca por Mickey Wolfmann, tendo que se desdobrar para resolver os mistérios que se escondem por trás de seu desaparecimento. Tariq Kahlil (Michael K. Willians) o contrata para procurar por Glen Charlock (Chritopher Allen Nelson), o qual conheceu na cadeia e lhe deve dinheiro.

Vício Inerente - 2014 | Uma investigação extrassensorial nos anos 70

Na busca por Mickey e Glen, o detetive é incomodado por “Pé-Grande” (Josh Brolin) um policial que vive no seu pé. Conhece o empresário Michael Z. Wolfmann (Eric Roberts), o casal de ex-viciados Coy e Hope Harlingen (Owen Wilson e Jena Malone) e Saucho Smilax (Del Toro). E é amante eventual da promotora sem escrúpulos Penny Kimball (Reese Witherspoon). Além disso, Martin Short (lendário comediante) surge em cena como um dentista viciado em cocaína e sexo. Ao mesmo tempo que esses personagens são surreais, parecendo existir apenas na ficção de Pynchon e Anderson, são absolutamente reais pelos seus inúmeros atores os tornarem críveis.


Vício Inerente - 2014 | Uma investigação extrassensorial nos anos 70

Doc. precisa se manter longe do Canino Dourado, que todos dizem que pode ser perigoso para ele, mesmo sem saber ao certo o que é. A investigação sem freios e sem meios do detetive maconheiro começa a incomodar pessoas muito poderosas. Só então a “caixa de pandora” se abre para uma trama que você nem imagina.

Vício Inerente - 2014 | Uma investigação extrassensorial nos anos 70Joaquim Phoenix deu vida ao protagonista da história (papel que quase foi de Robert Downey Jr) e brilhou em sua atuação como Doc. tendo seus insights regados a maconha e LSD. Quase um Sherlock hippie e sarcástico. 

Em alguns momentos, a sensação é que estamos no meio de uma viagem de ácido. Com teorias da conspiração e muita erva, Vício Inerente te envolve do começo ao fim, e te deixa chapado por tabela. O agito hippie dos anos 70, uma casa de massagens para fissurados em sexo oral, a Guerra do Vietnã, gangues, assassinato, sequestro, motoqueiros supremacistas arianos seguranças de um judeu, comunismo, cartel de drogas, Panteras Negras, seitas similares a da Família Manson, CIA e FBI. Tudo isso (e muito mais) abordados com maestria nessa história extrassensorial.

Incluindo o simbolismo bem humorado em uma das cenas, onde uma reunião de hippies lembra a Santa Ceia.

Vício Inerente - 2014 | Uma investigação extrassensorial nos anos 70

Blasfemando ou não, você não vai ter ideia da ligação  que uma coisa tem com a outra. Vício inerente mantém aquele ambiente paranoico e surreal marcado pelos cenários, músicas e figurinos dos anos 70, e pelo mindfuck dos roteiros baseados.

Vício Inerente - 2014 | Uma investigação extrassensorial nos anos 70

A trilha instrumental fica por conta de Jonny Greenwood, além de Sam Cooke, Neil Young, Chuck Jackson e outros grandes nomes da música que passam pela trama. Com uma fotografia fabulosa de Robert Elswit, design de produção de David Crank, figurinos de Mark Bridges e duração de 148 minutos, um caleidoscópio da sétima arte é jogado na tela.

Uma mistura de Requiem, Trainspotting e O Grande Lebowski, tudo isso sem perder sua autenticidade visual e de enredo. O filme banha a paranoia em realidade, menciona fatos reais com maestria e nos enlouquece com uma Los Angeles delirada. Não é para menos que o longa foi eleito um dos melhores do ano pelo National Board of Review e indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado e melhor figurino. Reconstituir cenários é uma das especialidades do diretor Paul Thomas Anderson. E agora posso falar com certeza, que adaptar uma obra literária também. Ele não tornou o filme vítima de sua própria loucura, só nos envolveu nela. Vício Inerente merece toda a sua atenção e vai te proporcionar uma viagem hipinótica digna de aplausos e boas risadas.


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