Sherlock

A doce virtude de uma narrativa modernizada

Sendo um dos personagens investigadores mais populares da literatura, bem como em consequência da cultura pop, não é menos justo do que, enfim, Sherlock Holmes consagrar sua re-leitura ao século XXI estrelando uma série televisiva própria: Sherlock.

Naturalmente baseada nas histórias escritas por Sir Arthur Conan Doyle, Sherlock é uma série rotulada no drama criminal que retrata o “detetive consultor” Sherlock Holmes auxiliando a então Polícia Metropolitana de Londres na resolução de vários mistérios/crimes (e dos mais variados tipos!) na contemporânea capital inglesa. Originalmente lançada no ano de 2010, a série conta com 4 temporadas cada qual com 3 episódios, além de um especial lançado em 2016, somando assim o total de 13 episódios.

De começo, eu gostaria de ressaltar que eu não sou familiarizado com a obra base de Sir Arthur Conan Doyle, e tampouco tive ainda a oportunidade de ler os contos de Sherlock Holmes. Embora eu tenha certo conhecimento do personagem e de seus conceitos, principalmente por causa dos filmes da Warner Bros. Pictures e pesquisas relativamente aprofundadas. Mas relaxa que, se você se enquadrar neste caso, ou até mesmo não possuir nenhum conhecimento prévio acerca da mitologia do personagem, a série te acolherá com carinho.

Pois bem, Sherlock já surpreende por ser uma série cuja formatação foge a curva do “padrão”, em muitos sentidos. Um dos mais perceptíveis em questões técnicas de estrutura, é o de que a série possui poucos episódios – principalmente por temporada -, mas em contrapartida cada episódio possui média de uma hora e meia de duração. É interessante também, que os episódios podem ser compreendidos, em termos gerais, como “filmes de histórias isoladas com participações especiais de pontas”; digo, claro que assistir os episódios na ordem naturalmente te dá uma sensação cronológica concisa e estruturada dos fatos, mas você não necessariamente ficará perdido caso queira assistir e/ou de repente mostrar a alguém apenas um episódio específico.

Sherlock explana de um elenco de puta peso, trazendo nomes como Benedict Cumberbatch (Doutor Estranho; Vingadores: Guerra Infinita), Martin Freeman (trilogia O Hobbit; Capitão América: Guerra Civil), Mark Gatiss (Game of Thrones) e Iara Pulver (Spooks; No Limite do Amanhã), por exemplo. Não atoa, o elenco a compor a série tende a personificar de bom agrado os personagens a eles destinados; destacando-se sempre personagens peculiares e carismáticos (como o desinibido valente John Watson, ou o irmão “de rivalidade saudável” Mycroft Holmes, ou o “Napoleão do crime” Jim Moriarty, ou a bela dominante Irene Adler) na mesma medida em que se tem em Benedict Cumberbatch o justificado protagonismo de um Sherlock Holmes “sociopata funcional”.

Ainda sim, mesmo com um elenco forte como esse, Sherlock me incomoda quando o assunto é interação/química entre os personagens/atores; por vezes esses elementos parecem serem tão incompletos que me é quase esporádicos os momentos de interações entre os personagens que convencem de forma fluída. Por exemplo, normalmente eu não consigo sentir uma sinergia real entre Sherlock e John (ou entre Cumberbatch e Freeman), da mesma maneira que pouco consigo sentir sinergia real entre Sherlock e Moriarty (ainda que eu goste da versão moderna do antagonista). Porém, eu puta gosto das interações sinceras entre Sherlock e Irene (ou Cumberbatch e Pulver), bem como gosto das interações de Sherlock e Eurus (Cumberbatch e Sian Brooke) – não atoa meus episódios favoritos da série são o 2×01 “Um Escândalo em Belgravia, 3×02 “O Sinal dos Três” e o 4×03 “O Problema Final”.

Com episódios de longa duração, Sherlock abusa das oportunidades que tem para melhor expressar o seu roteiro e narrativa. E putz, como faz isso muito bem. Digo, a série se coloca a criar situações peculiares e únicas dentre o contexto moderno sem deixar sequer de explorar da essência base dos contos em que se inspira; tudo isso enquanto mantém a atmosfera de um show atrativo, de identidade própria e principalmente de entretenimento justo. Se no fim são episódios longos, sim, são. Mas você não deixa de prestar atenção aos eventos, aos fatos, as revira-voltas que cada um deles traz, e quando percebe, o episódio acabou e você já está pedindo pelo o próximo caso.

Sherlock traz, também, uma interpretação bem interessante para seu protagonista e que me agrada de maneira geral: a de um fiel amante da razão que flerta sem receio algum com suas emoções. Tudo bem que é uma interpretação que se materializa de maneira sútil na execução narrativa do roteiro, mas é muito legal acompanhar ela lá, sútil como um soco desprevenido. Ainda, é interessante destacar que o roteiro tende a apresentar uma “jornada única e interligada” para seus personagens de maneira satisfatória. Em verdade, os episódios de Sherlock são atrativos, te fazem pensar e agradavelmente recompensam aqueles que dão oportunidade a proposta da série.

Por fim, Sherlock é definitivamente uma série cujos pontos excêntricos reforçam a sua doce virtude em modernizar satisfatoriamente a narrativa de um dos investigadores mais populares da literatura, bem como em consequência da Cultura Pop. É uma série que faz valer o tempo a ela dedicado.

Todas as temporadas de Sherlock encontram-se atualmente disponíveis na Netflix. 

 


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